Blog do Rafael Cortez

28/11/2011

Ainda mais sobre Maria Bethânia

Fala pessoal, tudo bem?

Eu já tinha escrito aqui que só voltaria a tratar de algo nesse blog quando valesse muito a pena... afinal, como tbm já coloquei aqui, tempo virou coisa rara – e cada vez mais rara, já que tudo está – graças a Deus – muito bom e muito proveitoso!

Mas o que pode ser mais interessante para compartilhar com vcs em mais um longo texto passional? Ela, mais uma vez ela: Maria Bethânia.

Já falei de Bethânia algumas vezes aqui. Tem um texto mais elaborado que apresentei a vcs em algum lugar desse cyber-espaço; procurem no arquivo. Bom, mas se escrevo raramente e só quero teclar quando algo me interessa muito, pq falar – de novo – da dona Maria Bethânia? Olha, talvez pq não haja alguém mais incrível no meio musical atual do que a “Abelha-Rainha”.

Aproveitando que o site da Folha de São Paulo deu meu texto onde falo da minha péssima experiência ao entrevistá-la para o CQC (veja em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1012317-o-dia-em-que-errei-uma-piada-com-maria-bethania.shtml ), apresento esse artigo como leitura complementar. Aqui, vcs entenderão mais porque a figura de Maria Bethânia me é tão importante e pq, por conta disso, ter fracassado no meu contato com ela no programa pareceu – e ainda parece – tão doloroso.

Vou levantar a questão do “algo divino” ligado a Bethânia e sua musicalidade. Não sei se vou conseguir fazer com que vcs me entendam, mas juro que vou tentar. Independente de conseguir ou não, estou feliz por falar dela. E mais ainda por poder contar sempre com sua música, como agora, já que é ela que está adornando o meu apartamento com sua voz.

Um abraço,

Rafa Cortez

  

 Bethânia, seu maestro e arranjador Jaime Alem, e eu - outubro de 2009, no Canecão, Rio de Janeiro. Ela ainda gostava de mim nessa época, snifs! 

 

Breve tratado sobre o divino em Maria Bethânia

Na terça-feira, dia 22-11, pude, para meu deleite, mais uma vez ver Maria Bethânia de perto. Mais um show, e que show! – dessa vez, o exclusivo e disputado “Bethânia canta Chico Buarque”. Foi um projeto sensacional dirigido pela Monique Gardenberg para o Circuito Cultural Banco do Brasil. De acordo com o projeto, Bethânia faz um show só de músicas do Chico, Sandy só canta Michael Jackson e Lulu Santos se debruça na obra de Roberto e Erasmo Carlos. Já rolou em Curitiba, veio essa semana pra São Paulo e daqui os shows vão para Ribeirão Preto (SP), Goiânia (GO) e Recife (PE). Um projeto no mínimo curioso, para não dizer sensacional.

 

Bom, mas foquemos nela. Ou Nela, com ene maiúsculo. Não estou forçando a barra não. Quem acompanha Bethânia e sua carreira de perto – e ela está com tudo há quase cinco décadas – sabe que há algo meio divino na cantora. Talvez isso seja reforçado pela forte relação que ela trava com sua religiosidade; pelo modo reservado com que vive; pela maneira com que se apega às suas tradições e seu seleto circuito social e familiar; por sua figura emblemática e suas histórias quase lendárias que sugerem algo sacro à sua pessoa – e a sociedade tende a confundir personalidade e genialidade com religião, já viram? Há quem diga que João Gilberto só é uma espécie de Deus pq vive recluso em seu apartamento e parece que só andou na calçada da frente do prédio uma vez em oito anos, e foi para apertar as hastes dos óculos! Haha!

 

Muita coisa pode ser associada ao divino que reside em Maria Bethânia. Se excentricidade é um dos critérios de que o povão mais gosta, a cantora é um prato cheio para os rasos que a querem rotular: parece que ela tbm nunca sai de casa, que os motoristas que a levam de carro jamais podem dar ré no veículo, que ela não pode com a cor preta, que nunca passa em frente a um cemitério, que na residência dela tem um ganso bravo, etc, etc. Bobagem. Bethânia carrega o divino em si porque sabe cantar e interpretar as canções de modo a aproximar a gente de Deus.

 

Raros são os artistas que conseguem fazer o espectador transcender os limites tão definidos do palco/platéia - casa de show ou estúdio – casa do ouvinte, etc. Há uma produção musical em grande escala no mundo todo. Um monte de gente gravando disco em todo e qualquer canto (até eu já lancei o meu CD, haha!). Montes e montes de espaços para músicos e mais músicos. Selos mil e não sei quantos recursos mais de execução musical – tudo isso, é verdade, contrastando com a grande crise das gravadoras e o novo panorama de sobrevivência dos profissionais do meio. Mas, enfim, tem muita gente fazendo música. Mesmo. E isso pode ser muito bom em muitos aspectos, mas é comum que o papel de lapidar as canções como diamantes seja esquecido no processo industrial do mercado.

 

Bethânia ainda é uma artesã das canções. Trabalha de modo a ter calma e paz para pensar em como vai dizer essa e aquela palavra. Uma canção nova só aparece após ser selecionada com esmero pela artista. É um trabalho mais minucioso que o de um garimpeiro. Em seguida, nasce a lapidadora – lupa e pinça na mão, quase isso. Surge a palavra “amor” no meio de um verso: como dizer amor mais uma vez, quase 50 anos após ser descoberta por Nara Leão, sem parecer redundante? Bom, por ela se preocupar com isso, com o respirar certo na hora certa, por se questionar mil vezes como é essa e aquela intenção, a palavra “amor” tem a intenção certa quantas vezes Bethânia quiser. Ela se ocupa em dar sentido artístico às canções; não se contenta em apenas cantá-las. E esse cuidado, em tempos tão preguiçosos de internet e produção em massa, é o que me faz pensar ser o divino em Bethânia. Trabalho à moda antiga, caprichoso, com zelo.

 

Tem outra coisa também. Algo que foge à regra de toda a linha de pensamento que mostrei até agora. Algo que não se explica. Independente de qual for a sua crença religiosa, há mistérios, sim, que não entendemos e que só ganham algum sentido no etéreo. É como diz o famoso ditado castelhano: No creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Você pode não acreditar em Deus e esse direito é todo seu. Mas vá ver um show de Maria Bethânia antes de ter certeza do seu ateísmo.   

 

O modo como ela olha para o céu na hora mais bonita da canção. A mão que desliza em uma frase mais delicada. O olhar que se perde no horizonte no momento mais apaixonado da letra... Ok, alguns podem dizer que isso é fruto de muito ensaio ou anos de prática, que aqui está a atriz; que isso nada tem de divino. Ah, é? E como explicar que a platéia se cale justamente quando ela está apaixonada no verso, sem ensaio ou combinado algum? Por quê sopra o vento ou um passarinho pia bonito quando ela canta mais suave, de olho fechado, agradecendo algo ou alguém? O quê, vcs nunca perceberam isso? Prestem mais atenção.

 

Os ouvintes mais atentos notam esses mistérios nas execuções de Bethânia. Eu nunca esqueço um depoimento em vídeo da grande Bibi Ferreira: ela diz adorar escutar o sorriso de Bethânia em seus discos. Eu também adoro. E adoro seu bom-gosto. E adoro vê-la ao vivo com seus músicos fabulosos.

 

Discussões divinais à parte, ver um show de Maria Bethânia é um modo de estabelecer um vínculo com uma música – e uma intérprete! – que sobrevive qualitativamente num tempo sombrio. Em “Eu vivo num tempo de guerra”, da peça “Arena Conta Zumbi”, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, lá no começo da década de 60, Bethânia cantava: “É um tempo de guerra, é um tempo sem sol”. Isso me parece mais atual do que nunca quando noto que, entre milhares de oportunidades musicais que temos em nossos tempos de pop-preguiçoso-meloso, é ainda com Maria Bethânia que encontramos o divino na música brasileira.

 

Por Rafael Cortez às 17h06

25/10/2011

Breve repassada das 35 primaveras - Parte 02 - CONTINUAÇÃO - FINAL

No endereço do Galpão Nau de Ícaros ficou até o ano de 2005. De 2002 até 2005, o espaço passou a ser a sede de outra empresa, o Galpão do Circo. Rafael passou a cuidar da produção interna do espaço – materiais, pessoal, cursos e projetos especiais. Vendeu, entregou e produziu cerca de 65 festas infantis ali realizadas, ou como Nau de Ícaros ou como Galpão do Circo. Passou também a ser o produtor da festa Renegados e de eventos, locações do espaço e atividades específicas. Lá, fez cursos de palhaço com Sílvia Leblon e Clerouak, o que lhe permitiu tirar o DRT de palhaço profissional – ele o ostenta na carteira de trabalho até hoje.

 

No ano de 2002 protagonizou o curta metragem X, de Pedro Granato. Produziu e atuou na peça Made in Brazil, sua primeira realização como ator. Ainda neste ano, deu seu primeiro recital de violão. Mais tarde, em outubro, fez seu melhor concerto no Teatro Santa Catarina. Em 2003 fez a peça Francisco e Clara, o Musical, de Evê Sobral – direção de Rubens Rivellino.

 

Em seguida, entre 2003 e 2004, participou de um episódio do seriado Spa Fantasia, da Ases Produções e do programa Trampolim, como entrevistado numa roda de produtores, da Rede SESC Senac de Televisão. Além disso, fez uma participação no espetáculo A Casa de Bernarda Alba, de Melissa Vettore, na escola teatral Indac e virou produtor do Galpão Raso da Catarina, cuidando do espaço na Vila Madalena e organizando saraus por toda periferia de São Paulo (nessa época, Cortez trabalhava mais que nunca e ganhava muito, mas muito mal).

 

Em 2003 ainda, (como foi bizarro o ano de 2003!!), foi diretor de produção e produtor executivo dos espetáculos O Crápula Redimido, da Cia. Dos Gansos e Trativelindepraglutifitotinquelux (ele sabe pronunciar o nome correto até hoje), da Trupitê de Teatro. Antes disso, auxiliou a produção da Cia. de Artes do Bloco Bolado. Mais tarde, em 2004, foi consultor de produção da primeira temporada da peça Carro de Paulista, dirigida por Jairo Mattos. Sua carreira de produtor se encerrou mesmo com o ballet Duas de Uma Só, da Cia. Brasileira de Danças Clássicas, em 2005 – mas foi retomada em 2011, quando cuidou pessoalmente da realização de seu CD “Elegia da Alma”.

 

Também no ano de 2003 (caraca!), passou a trabalhar na Abril Digital, antiga Abril Sem Fio, como colaborador. Fez, entre outros trabalhos, conteúdos interativos (quiz) de política (Veja), celebridades (Cobtigo!), esportes (Placar)  e sexo (VIP e Playboy – ele sabe todas as teorias do sexo; redigiu cerca de 10 mil questões sobre bizarrices carnais). Também escrevia dicas (SMS) de todos os tipos para todas as publicações da casa (incluisve, mais uma vez, de sexo). Se manteve atuante na Abril até maio de 2008. Antes de sua entrada na Abril Digital, trabalhou com a jornalista Alice Granato nos veículos Veja – O Melhor da Cidade e Jornal da Faculdade Uni-Nove.

  

Em 2004, além de ser produtor do Galpão Raso da Catarina e do Sarau do Charles, passou a integrar a Cia. Quatro na Trilha de Teatro, com a peça Os Saltimbancos e a trabalhar com a vereadora Tita Dias, do PT-SP, como seu Assessor Parlamentar na área de comunicação. Passou cerca de seis meses na Câmara Municipal paulista... e NÃO enriqueceu – a Tita era uma das únicas  honestas e competentes da casa!    

 

O ano de 2005 marcou sua participação integral no ballet Duas de Uma Só, com trilha, produção e execução musical do próprio Cortez. Foi a época em que ele namorou uma bailarina sarada, o que o deixou bastante feliz. Além disso, em 2005 trabalhou – ao lado da Cia. Quatro na Trilha – com parte do coral e orquestra do Projeto Guri, fazendo Os Saltimbancos. Apresentaram-se, entre 2005 e 2006, no Teatro Municipal de Santo André, Sala São Paulo, Teatro São Pedro e Festival de Inverno de Campos do Jordão. Também em 2005 esteve na Argentina com a bailarina Andréa Thomioka e o duo de violão e dança “Quando Danço com Seu Corpo”. Foi ainda no ano em questão que lançou Solo, seu primeiro CD - demo, com recital de estréia na Livraria da Vila (só 200 cópias, coitado) – também nesse ano, fez o trabalho Contando Lendas, na Mostra de Artes do Mediterrâneo do SESC-SP, ao lado do ator Danillo Sangioi (em uma apresentação, ao contar um clássico de um herói grego que fora amarrado por seus inimigos, interagiu com as crianças da seguinte forma: “quem aqui já foi amarrado”??  Um menino gordinho, tristemente, levantou a mão). 

 

2006 começou com o recital completo no Centro Cultural São Paulo. Vieram depois – além das muitas sessões de Os Saltimbancos – o duo com Alejandra Pinel no grupo Conta Sons, os trabalhos com a Cia. Ateliê Teatro em eventos, e a gravação de suas primeiras peças com letra para o Prêmio Visa Compositores 2006. Além disso, tocou violão em 33 jantares no restaurante francês Allez, Allez (que era um mega restaurante foda, onde Cortez só jantou na faixa uma única vez).

 

Já em 2007, estreou o espetáculo teatral O Mágico de Óz e gravou em áudio-livro O Alienista, de Machado de Assis, para a editora Livro Falante.  Foi também o ano de desenvolvimento e lançamento de seu primeiro game – O Romance dos Famosos, na Editora Abril. Cortez passou a manjar tudo da vida afetiva das celebridades, o que mudou sua própria vida!

 

2007 também marcou a entrega do 32º Prêmio Abril de Jornalismo, categoria “Conteúdo para Celular”, que ganhou junto com uma equipe de 08 pessoas. Foi ainda neste ano que fez teste para repórter do Metrópolis (Tv Cultura, que o reprovou), figuração em propaganda do Mcdonald´s e a seleção para repórter do CQC - que o chamou originalmente para ser produtor e acabou selecionando-o para repórter em dezembro de 2007, de tanto que ele encheu o saco para fazer os testes (que, por fim, fez bem).      

 

De 2008 para cá, atua no CQC e abriu novas frentes de trabalho. Lançou mais 03 audiolivros pela Livro Falante: Dom Casmurro, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba, todos de Machado de Assis. Iniciou, em janeiro de 2009, um trabalho como comediante Stand-Up em bares de SP. Mas, como é péssimo fazendo Stand-Up, estruturou um solo de comédia mais interativo, musical e com improvisos chamado “De Tudo Um Pouco”, com o qual viaja – desde setembro de 2009 – todo o Brasil, passando por diversas cidades. Lançou seu CD instrumental, autoral e violonístico “Elegia da Alma” em maio de 2011 (dessa vez, foram 5 mil cópias, eba!). Tem atuado em eventos corporativos e humorísticos como Mestre de Cerimônias e improvisador. Tem um programa de rádio na Metropolitana FM, depois de fazer o “Notícias que Gostaríamos de Dar” na Band FM (todos gostavam desse quadro, menos a Band FM). Pagou um mico por quase 2 anos na internet, fazendo o Programa do Loreno, seu alter-ego, que ocasionalmente o visita de novo. Tem feito alguns recitais de violão e algumas palestras universitárias. Vive cansado.

 

Em resumo, Rafael Cortez fez e ainda faz muita coisa. Mas o idiota não sabe, até hoje, fritar uma merda de um bife, dirigir uma droga de um carro, trocar um fusível ou fazer um de seus inúteis espermatozóides fecundar um óvulo – até pq a besta não namora, já que nenhuma mulher o atura por muito tempo.

 

É isso.      

 

 

 

 

 

  

Agora é seguir rumo aos 40!..

(foto de César Araújo, o Cesinha)

Por Rafael Cortez às 20h57

Breve repassada das 35 primaveras - Parte 01

 

Desde março não escrevo mais aqui. Foda, eu sei.

A culpa é da vida atribulada - e pôe atribulada nisso!

Do começo do ano pra cá, me enfiei em mil coisas que tomaram meu tempo como nunca. Por sorte e muito esforço, tudo tem andado bem – shows, CQC, eventos, o CD, audiolivro, etc. Um dos grandes “poréns” é: não sobra tempo pra escrever aqui... da mesma maneira que não sobra tempo para uma série de outras coisas que, ano após ano, viram metas para os anos posteriores.

Mas não tenho do que reclamar. Estou feliz. Feliz mesmo. E hoje é meu aniversário. Estou fazendo 35 anos e acho que posso dizer que vivi bem a primeira metade da minha vida (cismei que vou morrer com 70... quero que seja engano meu, que eu viva mais ainda e seja um grande parceiro do Viagra, mas cismei que com 70 a Danada me chama pra deitar). Sou um cara realizado em muitos aspectos, inconstante em outros, ansioso por muito mais... mas consciente que fiz alguma coisa por mim e pelo meu meio, pelos meus, pelo meu mundo.

Foi justamente por pensar na data de hoje, nesses sentimentalismos, por fazer esses retrospectos, etc, que me deu vontade de publicar o texto abaixo.

É o seguinte: recentemente participei de um curso de Palhaço em que o nosso professor pediu o seguinte exercício – que cada um escrevesse sua biografia de vida até o momento, apontando tudo que já fez e por onde passou... mas com um olhar de fora, em terceira pessoa, com o senso de humor aberto pra perceber os micos e fazer uma auto-avaliação mais leve da própria trajetória.

Escrevi o que eu fiz até hoje, mais com foco na vida profissional, e eu mesmo me surpreendi com passagens bizarras e me alegrei com memórias tão escondidas que voltaram... e fiquei satisfeito: acho que não to passando batido pela vida; acho que rolou de se divertir e produzir, muito, até hoje.

Em resumo, quero compartilhar com vcs o texto. E contar essa primeira parte da minha vida da maneira que me foi proposto: sem me levar a sério e esperando que vcs façam o mesmo.

Obrigado por tudo sempre e por tantas manifestações legais de todos no meu aniversário! Eba!

Um abraço,

Rafa Cortez – rumo aos 40!!   

 

  

Rafael Cortez - primeiros 35 anos

 

 

Nascido em 1976. Na infância, fazia desenhos para vender na vizinhança. Produziu, à mão, cerca de 85 histórias em quadrinhos, algumas com mais de uma centena de páginas, com personagens e enredos próprios. Se achava “o Maurício de Souza”, mas óbvio que não era. Foi o redator chefe do jornal infantil Gazeta do Aristides, entre os anos de 1988 e 1989. O jornal durou cerca de 8 exemplares. No segundo grau, adolescente, em meio a muitas crises pessoais, montou (e destruiu depois) cerca de 32 aeromodelos Revell, cujos modelos eram os mais variados e provenientes dos mais diversos locais.

 

Sua vida profissional começou mesmo com os freelas que realizou para grifes de roupas da moda. O primeiro deles foi um ensaio fotográfico para a Zoomp, onde atuou como auxiliar de produção e set, coordenado por Paulo Borges – o futuro “Sr. São Paulo Fashion Week”. Desse cara, tomou incontáveis broncas em apenas 2 dias de trabalho. A este job, seguiu-se mais um trabalho, produzindo jeans Wrangler para decorar vitrines promocionais de lojas da rede.

 

Depois, trabalhou na DKR Vídeo - do Jardim Europa e em Moema. Lá, era balconista. Odiava. Em seguida, desesperado por trabalho, aceitou o emprego na Documenta Atelier Serigráfico, onde lavava telas de silkscreen em um processo repleto de produtos químicos que o intoxicava. Foi nessa fase em que começou a dar aulas de violão, instrumento que começou a estudar em 1994. Foram seus alunos, até hoje: Os irmãos Yulica e Thierry, Baiano, o zelador de um prédio da vizinhança, um jovem playboy da Alameda Lorena, a irmã Thais, Ana Maria Straube e Ana Maria Barbour, uma garota que caiu de pára-quedas, Pedro, Gabriel, a amiga Simone Marra, uma jovem que comprou seu primeiro violão (ele se arrepende demais de ter vendido), a amiga da Thais (roqueira) e talvez outros mais.

 

Em 1996 trabalhou na biblioteca da UNIP, unidade Avenida Paulista. Em meio a isto, fazia a faculdade de Radio e TV da FAAP, cursando apenas o primeiro ano. Ao desencanto com o curso iniciado e abandonado, seguiu uma fase de intensa ida e volta em cursinhos. Já tinha sido aluno do Extensivo Objetivo em 1995. Voltou nos anos de 1997, 1998 e 1999, ora em cursos semi-intensivos, ora em intensivões. Prestou vestibulares diversos nesses anos todos: tentou entrar em Educação Artística, Música, Artes Cênicas, Publicidade, Jornalismo, Relações Públicas, Rádio e TV e Artes Plásticas. Mas só entrou mesmo na faculdade definitiva em 2000, quando ingressou no curso de Filosofia da PUC-SP e, um ano depois, transferiu sua matrícula para Jornalismo. Formou-se em 2004. Promete nunca mais pensar em prestar vestibular.

 

Em meio a essa fase de cursinhos e de respostas negativas em provas diversas, estudava muito violão e trabalhava em demasia. Em 1996 trabalhou no Teatro Tuca, como assistente da produtora Neusa Andrade, no Centro de Artes Cênicas do local. Ficou neste trabalho até meados de 1997, quando passou a produzir cursos (que já eram feitos simultaneamente ao Tuca) no Teatro Vento Forte, sempre com Neusa Andrade. Ralou muito com essa mulher, mas ela o ensinou 200 mil coisas. Entre 1997 e 1998, continuo com Neusa e fez bicos diversos como Assessor de Imprensa – e isso, na época em que se fazia assessoria via FAX!

 

Paralelo a isso tudo, trabalhou com o produtor teatral Luque Daltrozo, sendo auxiliar de produção do espetáculo O Carteiro e o Poeta, com Marcos Winter e Paulo Goulart. Depois, foi assistente de produção de Luque na peça Fausto, de Goeth, dirigida por Paulo Simões e encenada na FAU Maranhão. Claro que, dinheiro, que é bom, era o elemento mais raro dos trabalhos.

 

No ano de 1998 começou a trabalhar no Centro Cultural Santa Catarina, do então empresário e apresentador televisivo Evê Sobral. Foi assistente de palco em seis edições do programa Guerra é Guerra. O maior mico de sua vida. Rafael costuma matar quem lhe mostre imagens desses programas. Antes, trabalhou como cabo-man com a equipe de externas de lá. Seu primeiro salário lá foi uma lasanha. Sim, uma lasanha. Em seguida, passou a ser chefe de estúdio e produtor de quadros do programa, até estabilizar-se como Produtor Musical dos programas de auditório. Atuou em alguns quadros das produções da casa e deu uma de repórter em um ou outro trabalho interno (ele tem, em VHS, um vídeo em que interpreta um garoto possuído pelo demônio), além de produzir comerciais televisivos da rede.

 

Ainda em 1998 recebeu o convite para trabalhar novamente com a produtora Neusa Andrade, desta vez no Empório Cultural (ex-Piccollo). De assistente de produção, passou a coordenador do Centro de Artes Cênicas – trabalho que, assim como toda a empresa, diziam na época – parecia servir de lavagem de dinheiro dos patrões.

 

No final de 1998, foi para o galpão Nau de Ícaros – um espaço de um grupo consolidado de circo, que é forte até hoje. Lá, ficou até o final de 1999, onde produziu as festas Calamenguê, Ultreya e os espetáculos Quase Uma e Sob o Céu. Ainda em 1998, desistiu de vez da carreira de violonista erudito, após ser reprovado no vestibular de violão da UNESP (ele foi reprovado na bosta de Física e Matemática do vestibular; até que mandou bem nos testes específicos de Música). 

 

O ano de 1999 marcou sua volta para o Centro Cultural Santa Catarina, onde passou a trabalhar como produtor musical e de externas. Nessa época, ficou amigo das cantoras Joanna e Rosana. Foda. Em meados de 2000 voltou para o Galpão Nau de Ícaros, onde cuidou dos cursos lá existentes e ficou diretamente envolvido com a produção das festas Ultreyas, bem como a do espetáculo ÂnimaAção. Neste mesmo ano, ingressou na PUC-SP, onde fez um ano de Filosofia e quatro de Jornalismo, formando-se em 2004. Foi entre 2000 e 2001 que passou a tocar recorrentemente no Sarau do Charles, onde deve ter somado umas 15 apresentações. Tocou também em recitais da faculdade e em eventos e festas especiais – como na festa da ONG Santa Fé, no espaço zen da Vila Mariana e em Ultreyas e Renegados. Fazia essas apresentações em troca de ingressos VIP´s pros amigos e cerveja de graça.   (CONTINUA...)

 

  

 

Contando Clássicos, mico de 2005 no SESC Belenzinho, SP

 

Por Rafael Cortez às 20h50

18/03/2011

Mais novidades do CD

Ainda pensando em tentar dar uma nova vida a esse blog na carona do meu CD que sai em breve, pensei em oferecer a vcs uma “canja” do que estou preparando e que, ao que tudo indica, chega até vocês no final de maio/ começo de junho. Aqui vai parte dos textos descritivos das músicas – é o detalhamento de cada uma delas, presente num encarte generoso, repleto de fotos, imagens de making-off, um outro texto introdutório meu e as belas palavras de apresentação da amiga e jornalista Lorena Calábria. Mas saibam: os textos completos mesmo, só no encarte.  Lá em baixo, no final, vcs ainda visualizam de lambuja outra foto do making-off do encarte – dessa vez, da Verônica Amorim. É isso... daqui a pouco vcs escutam, combinado? Fiquem com a amostra-grátis!

Um abraço,

 Rafa Cortez

 

 

Badica – Composição de 2003

A violonista e cantora Badi Assad tem um estilo tão vivo e radiante de tocar violão, que não é de hoje que as pessoas são loucas por ela! Comigo não foi diferente. Como fã que sempre fui, assisti seus shows com um misto de amor e admiração. Tive a sorte de me tornar seu aluno de violão por algum tempo e de hoje tê-la como amiga. A composição conta, no violão, um pouco da história da musicista. 

Maninha – Composição de 2001 

Uma música feita para expressar amizade, carinho, admiração e fidelidade a alguém que se ama muito. Cada um de nós tem esse alguém na vida, e uma das recompensas do cotidiano é conviver com quem se quer bem. No meu caso, a música é “Maninha” porque a minha melhor amiga, de hoje e sempre, é a Thais Cortez.

 Cordel de Guilherme de Faria – Composição de 2002

 Guilherme de Faria é pintor, poeta e escritor, com uma carreira artística consolidada de mais de 40 anos. É também meu tio, sendo, portanto, uma referência criativa muito forte desde minha infância. A peça “Cordel de Guilherme de Faria” descreve, no violão, o entusiasmo desse grande artista ao narrar um de seus cordéis – onde um misto de sensações o preenche para, consequentemente, tomar seus espectadores.  

Naquele Tempo – Composição de 2004 

Essa canção tinha outro nome e era uma composição em outro andamento, mais melódica e dedicada a uma namorada que eu tinha. A namorada se foi, a música ficou e não fazia mais sentido do modo que existia. Dei uma “suingada” na peça e ela virou “Naquele Tempo”.Um dia eu entendi: eu falo de mim nessa peça. Sou eu, em um contexto onde alguém foi importante e é bom e gostoso lembrar algo que aconteceu comigo. 

Helena – Composição de 2004

 Composição dedicada a Helena Caiuby, avó e mulher de fibra. De acordo com Andréa Thomioka no encarte do balé “Para Todo o Sempre”, de 2005: “Helena” é o ícone, é a referência. Aquele que te ensina e também aprende, cuida e também se orgulha, não te priva do sofrimento de viver a sua própria vida, mas te ama infinitamente para sempre te fazer ir em frente.   

  Saudades da Bossa – Composição de 2003

Um sambinha despretensioso que pede mais sambinhas despretensiosos, alguma bossa ou a volta de um espírito belo e iluminado na nossa música – como havia na MPB de outros tempos. Com “Saudades da Bossa” saúdo um tempo que não viví, uma graça que não pude acompanhar, algo que não sei explicar – mas que sinto quando eu ouço um disco da Nara Leão, por exemplo.

A Tocaia – tema e variações - Composição de 2001

 Eu só fui entender essa minha composição recentemente. Eu a bolei como as outras, intuitivamente. Mas essa veio com um experimentalismo que as demais não tinham; com algo mais dissonante, mais esquisito. Ela sempre foi um tema com variações, e é um reflexo da época em que eu estava migrando do violão clássico para o violão mais ousado e popular, bem na fase em que eu comecei a estudar com a Badi Assad. Mas era uma das poucas coisas que eu sabia dessa obra, que só conheci mesmo quando fui gravá-la. Ela é meu modo de contar uma obra de Erico Veríssimo - a primeira parte (“O Continente”) de "O Tempo e o Vento".

      Em A TOCAIA temos as seguintes apresentações musicais:     O Punhal/  O Som do Vento/  Demasiado Tarde/ A Morte de Pedro Missioneiro

Encantada – composição de 2009

Eu sempre quis fazer uma música para a cantora Nara Leão (1942- 1989). Ela é a artista que mais admiro na história da MPB. Sua voz, sua atitude, sua coragem e sua luta são exemplos não só para mim, mas para milhares de brasileiros que, como eu, também lamentam que ela já tenha nos deixado. O nome “Encantada” vem de encontro não só à idéia de “canção”, mas daquela frase de Guimarães Rosa que diz: “As pessoas não morrem. Ficam encantadas”. É o que eu acho que aconteceu com Nara.  

 Ponte Aérea – Composição de 1996

 Essa é minha primeira peça composta para violão-solo. Data de 1996, quando eu ainda era um aluno aplicado da Ledice Fernandes, notável violonista que hoje faz carreira no exterior. Eu tinha iniciado meus estudos violonísticos com ela dois anos antes, ainda imerso no repertório popular. Um primo de Piracicaba estudava violão clássico paralelamente e mostrou-me algumas músicas. Fiquei maluco! Comecei a estudar o repertório erudito feliz da vida... paralelo às aulas e estudos, mantinha uma amizade bacana com amigos que residiam no Rio de Janeiro... e eu em São Paulo, sempre sentindo falta deles! Compus “Ponte-Aérea” para essa turma. A música fala de saudade e bons encontros. Penso nela e me vem a imagem de um aeroporto. Os amigos estão esperando o desembarque dos outros parceiros, de braços abertos! 

 Quando Danço com Seu Corpo – Composição de 2005

Essa é minha única composição feita sob encomenda. A bailarina Andrea Thomioka me pediu para criar uma peça violonística que ela pudesse dançar.Em resumo, a música é a Thomioka e sua carreira. O mais bacana é que nós, Thomioka e eu, apresentamos o duo no XI Festival de Danças do Mercosul, em Puerto Iguazú, Argentina, em setembro de 2005. Ela dançando essa peça ao mesmo tempo em que meu violão dançava seu corpo. Foi demais!

 Rua das Estrelas Sírius – Composição de 2005

Uma homenagem à minha infância, inesquecível pela vila onde cresci – a Rua das Estrelas Sírius. É também uma homenagem à infância de dois amigos que cresceram comigo e que, infelizmente, viveram só um pouco mais depois. Acima de tudo, é uma canção que manda um abraço àquelas pessoas queridas que não estão mais conosco.     

Elegia da Alma – Composição de 2004

Música que faz uma homenagem à parceria entre o artista e sua obra, onde há toda a delícia e trabalho de produzir algo que, quando encerrado, precisa ser emotivamente apreciado. Segundo o encarte do balé “Para Todo o Sempre”, “Elegia da Alma” é “a inspiração. É a arte e o artista simultaneamente. São os impulsos desconectados de razão, são os flashes de delírios artísticos.... é a magia e o desgaste do processo quase insano e a fadiga e a plenitude na contemplação da obra finalizada.” É a minha composição predileta.   

 Faixa bônus – O Velho Diálogo de Adão e Eva – improviso de 2008

Recriação de um capítulo emblemático de Machado de Assis, presente em "Memórias Póstumas de Brás Cubas", audiolivro gravado por mim pela Editora Livro Falante.

 

 

 

 

Por Rafael Cortez às 23h07

04/03/2011

Novidades do CD!!!

Estou sumido, eu sei... mas eh como eu já havia escrito antes aqui: estou mais ocupado em produzir coisas do que em refletir sobre elas, e eh por isso que o blog tem estado meio as moscas...O que mais tem me dado trabalho ultimamente, além dos habituais compromissos de CQC, Metropolitana, shows e eventos eh, sem dúvida, meu CD.

Quem me segue no twitter (@cortezrafa) sabe bem a que estou me referindo... mas prometo que vou nutrir esse cyber-espaco de informações sobre esse trabalho, a partir de agora, com uma espécie de "Diário de Bordo" do "Emaranhado Musical" (para os que não sabem, esse será o nome do meu disco).

Um primeiro modo de fazer isso eh compartilhar com vcs o making-off da sessão de fotos do encarte. Ela rolou na última terça, e foi bem legal. Quem fez as fotos do CD foi o Renato Stokler, o mesmo fotógrafo que tem registrado os CQC's em cada sessão de divulgação de cada nova temporada, desde 2009... ele se formou com a minha irmã em Jornalismo na PUC, uma turma depois da minha, e desde a facul já mandava muito bem no que faz... por isso foi o escolhido para essa missão.

A produção desse dia, bem como a produção do CD todo, tem a assinatura da Verônica Amorim. Ela eh uma das minhas melhores amigas e trabalha no mercado fonográfico há algum tempo... fora que eu gosto muito dela. Não podia caber a outra pessoa esse papel.

E, por fim, as fotos que vc vai ver abaixo são da Isadora Brant. A Isa eh minha amigona hoje e manda muito bem na fotografia. O que pouca gente sabe eh que entre 2003 e 2004 ela foi minha namorada, e foi para ela que criei "Naquele Tempo", uma de minhas músicas mais populares, e que está no CD e será a faixa de trabalho.

Espero que vcs gostem. Um abraço

Rafa - diretamente de Milão, na Itália, gravando muito o CQC

 

Por Rafael Cortez às 21h42

29/12/2010

Último relato de 2010

Mais um ano acaba e, mais uma vez, é a hora de dar o último "salve" pra vcs neste ano de "salves" tão inconstantes e atípicos desse cyber-espaço.

Confesso que adoro esse momento da última reflexão. De fato, estamos na época do ano que eu mais gosto. Desde a infância é assim: meus pais souberam incutir na gente, em mim e em meus irmãos, o gosto pelo Natal e Ano-Novo - e não pq é qdo haviam presentes em excesso, férias, viagens e as comidas especiais que só existem nessa fase (alguém aqui come Tender fora do dia 24-12? Tá, no sanduíche de queijo, abacaxi e Tender do Cervantes, no Rio... eu tbm)... é pq para eles, e consequentemente para nós, o final de cada ano sempre representou o final de um ciclo. E, ao término desse ciclo, sempre vem outro e mais outro... e sempre melhores que os anteriores, como tem que ser sempre.

A vida toda eu sempre amei ler Biografias. De fato, quem me conhece sabe: gosto de Literatura de um modo geral, mas sempre fui mais fã das Biografias do que qualquer outro gênero literário. Há uma série de coisas que ainda quero ler, como toda a série "O Tempo e o Vento" do Érico Veríssimo, por exemplo, que é algo grandioso que estou guardando para quando eu estiver mais à altura do que ele escreveu. Mas, mais e mais, tenho lido Biografias.

O fato de ler Biografias tem tudo a ver com esse texto: eu gosto delas pq posso ver uma vida inteira passada à limpo em uma questão de horas. Vc lê na história do cara que aquilo que, naquela ocasião, parecia não ter fim ou solução, no cômputo de uma vida não ganhou mais do que um capítulo. Vc percebe que tudo que mais afligiu aquela cantora nos seus 20 e poucos anos, ao término de uma vida vitoriosa, não passou de uma exceção. E vê tbm que a alegria do fulano que parecia imortal, tbm acabou um dia - como sempre acabam todas as tristezas e alegrias em algum momento, uma vez que nada é para sempre e nós não somos imortais (exceto o Oscar Niemayer e a Dona Canô).

Em resumo, o final de cada ano e meu característico texto de despedida dos últimos dias de Dezembro, é parte da minha própria Biografia.Não tenho a pretensão de ter uma agora, ainda que o Justin Biba tenha a sua aos 17 anos de idade. Mas gosto de ler esses meus textos finais junto com vcs e me dar conta de que, afinal, estou fazendo bem a minha parte na história dos meus dias. E se isso tiver relevância para mais alguém que queira reunir as peças dessa quebra-cabeça que é tudo que vivi até agora, transformando os retalhos numa história que eu tbm goste de ler um dia, tô no lucro.
               
Sem dúvida, em toda minha vida até agora, foi em 2010 que eu mais trabalhei. Costumo brincar dizendo que trabalhei mais que o cirurgião plástico da Ângela Bismarck, e é verdade.

Foi em 2010 que consolidamos - eu e o Ítalo Gusso - o meu show solo.

"De Tudo um Pouco" passou por dezenas de cidades e alguns Estados brasileiros, e me fez descobrir grandes alegrias na minha relação com o palco, que parecia esquecida desde "Os Saltimbancos". E mais, graças ao "De Tudo um Pouco" conheci lugares, amigos, mulheres, festas, comidas, locais e histórias inesquecíveis. Lamento muito não ter feito um "Diário de Bordo" de tudo que presenciei com meu solo... tá tudo na minha cabeça e no meu coração, como a minha entrada ao som de "Welcome to the Terrordome", do Public Enemy, no último volume, no Teatro Pedro II de Ribeirão Preto, com 1500 pessoas gritando comigo e aplaudindo pra caramba aquele momento. Ou a chegada a pé, agora em 18 de dezembro, na rua de acesso do Teatro de Juíz de Fora, passando pela fila de centenas de pessoas que foram lá para me ver e não esperavam que eu chegasse atrasado, perdido e sem noção, com elas, por ali. E teve também aquela vez em que entrei no palco de bicicleta e quase levei o maior tombo em Campo Grande, em 16 de janeiro, quando eu tbm não imaginava que meu solo passaria a ser feito, em parte, com o meu violão - isso antes me parecia um atentado, uma vez que estudei o Clássico e não poderia "profanar" minha relação com ele inserindo-o num show de
comédia! Haha!
             
Tive também grandes felicidades fazendo eventos corporativos por todo o Brasil. Da Nestlé, com o Felipe Andreolli e a Wanessa Morgado em Manaus, passando pela convenção da PWC com a Mônica Iozzi e nosso outro evento no Costão do Santinho, indo tbm para o Mestre de Cerimônias que fui para a Editora Abril em quatro capitais brasileiras, o DJ que me tornei para a Hering, em Lajes - SC, o comediante Stand-Up que encarnei para a Castrol no Comedians, o "Comunicador de Auditório" que interpretei na Gincana Cultural da Universidade Anhanguera, o "palestrante motivacional" que tomou conta de mim no café da manhã da Lopes e da Abyara, e por aí vai... ou seja, fiz diversos eventos e adorei cada um deles. Gosto muito de trabalhar com o Mercado Corporativo - é onde não só ganho um dinheiro a mais como, acima de tudo, me divirto e crio muito, além de me relacionar com pessoas incríveis! Agradeço, de coração, cada uma das empresas que me contrataram para ações diversas e desafiadoras em 2010!

O meu CD solo não saiu em 2010... vacilo meu. Prometi e não cumpri, de novo. Mas acho que reencontrei mesmo meu instrumento depois que o inseri no meu show de humor. Passei a viajar com ele e a tocar semanalmente. Não toco mais por obrigação ou para não perder os movimentos e as minhas músicas, que não existem em partituras e só residem na minha cabeça e nos meus dedos. Toco pq agora meu violão faz parte do meu trabalho, e isso é incrível! Tá lá, no meu show, e isso me faz aproximá-lo cada vez mais de um potencial público consumidor do meu disco instrumental e seu correspondente Recital. E por falar em Recital, teve um sim... simbólico, mas desafiador e apaixonante. Na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, no Teatro Eva Herz, em setembro. E posso prometer de novo? Juro,  2011 sai o CD. Ah, se sai!

O "Quincas Borba", meu quarto audiolivro do Machado de Assis, saiu em 2010. Mais um belo trabalho da Livro Falante com a minha voz. Celebramos isso em uma manhã de autógrafos e recital da Cultura e, esse foi inesquecível, aquele bate-papo na Bienal do Livro, onde me sentei para falar de Novas Mídias e Cultura Jovem com o Guilherme Fiuza, o Paulo Caruso e a Guta Stresser... e a gente saiu escoltado por bombeiros no meio de uma multidão que só ligou para a gente pq estávamos, justamente, escoltados por bombeiros chamando a maior atenção do mundo! Haha!

No plano pessoal, as coisas melhoraram muito no ano que passou. Minha família está melhor que nunca, com os sobrinhos pequenos cada vez mais bonitos e sadios, e meus pais felizes com algo novo e sensacional que contou com minha ajuda e entusiasmo. Eu tbm dei um passo importante e cumpri uma das três metas de um plano pessoal de ações, e isso me deu uma felicidade imensa. Algumas amizades se consolidaram de vez, como a da Verônica Amorim e o Ítalo. Hj em dia, acho que não posso mais viver sem eles mesmo. A Cami Colombo ganhou asas e foi para o mundo... mas como eu grudei um bumerangue nelas, ela sempre acaba tendo que voltar para cá, como agora! Haha! A Bianca Manzini é a aliada que topa tudo, a parceirona... e descobri que o Felipe Rodrigues não é só o cara da Nume que me acompanha nas viagens pelo Brasil - ele é um amigão tbm! Isso vale para o João Mesquita, que tá mais brother que nunca, e o Danilo Gentili, que é louco e tem o tempo dele, mas pode contar comigo pela vida toda. E que falar dos amigos de sempre e para a vida toda? Meus irmãos, o Beto, a Nau de Ícaros, meus chapas. Manter essas relações em 2010, no meio de toda minha correria e desorganização, foi um desafio. Teve gente que não aguentou e zarpou, e eu lamento muito. Aos que toparam seguir comigo sabendo que os próximos anos serão ainda mais intensos, fica a promessa: tentarei, na medida do possível, não faltar tanto e ser o Rafa que vcs precisam e quererem ter.
        
Quanto às mulheres, a carioca tbm não me aguentou... eu não sou fácil! Esse foi o ano de me encantar muitas vezes por garotas diferentes e conhecer melhor a alma feminina. É um tanto exigente essa alma, e isso me faz fechar o ano sem esposa, namorada e sem a pequena Nara no colo. Mas tô feliz. Podia ter ficado sem o gosto amargo da decepção com aquela última que foi beeeeeem mal-caráter, mas tudo bem. Tudo que sobe, desce, não é?


Mas deixei para o final o que continua sendo o mais importante na minha vida. Em 2010 o CQC continuou sendo o maior desafio e realização que já tive.


Fiz um grande número de matérias para o programa. Algumas já estão na minha lista de prediletas dos três anos em que lá estou, como a da Falsa Celebridade e o Guerreiro do Hexa. Idem minha ida ao Chile para cobrir a posse do Piñeda e o dia em que o Lula topou trabalhar para a gente. Tivemos tbm os habituais CQTestes (que passaram a ser essenciais em todos os programas - no CQC de 2008 eles eram inconstantes, passavam numa média de um em cada três programas, e em 2009 eles se alternavam - ou toda semana, ou de 2 em 2 programas). Mas o fato é: uma das minhas grandes alegrias no CQC foi ter dado uma marca a esse quadro. Foi emprestar a ele um tom non-sense e pastelão que fez do mesmo um ponto forte do programa. Há os que não gostam e nada dele, e eu os respeito, ainda que tenha de ouvir críticas que em nada são construtivas. Mas essas pessoas mais críticas são, geralmente, as que levam o quadro a sério demais - que o vêem como uma competição acirrada ou um espaço de entrevista. E para mim, é puro entretenimento, besteirol, loucura e bobagem! Só isso, e é assim que o vejo e
faço com graça, ainda mais quando estou com alguém ao lado que entra no clima, como a Claudia Leitte, Ivete Sangalo e o Túlio Maravilha, entre outros.

Que mais? Em 2010 teve a Copa e todos aqui puderam ver como foi foda e legal ao mesmo tempo. Não sei agora se foi mais bacana ou desgastante, mas tô propenso a achar que foi mais osso mesmo... mas que foi sensacional ter ido, lá isso foi! - ainda que isso tenha me custado 36 dias de saudades do Brasil e muitos problemas com línguas, temas, sono e alimentação. Mas, modéstia a parte, nossas matérias ficaram boas pra caramba!    

Por fim, na cobertura da Eleições, o time todo trabalhou à beça... e isso reafirmou a certeza que tenho de que esse trabalho é o cursor de águas da minha vida, onde estão as pessoas mais malucas e interessantes que já vi. E é um TESÃO pensar que tenho mais dois anos confirmados dessa bagunça e imprevisibilidade pela frente, com pautas, piadas, viagens, festas, eventos e desafios que podem muito bem resultar num livro - e pq não?

Quero terminar esse último texto agradeçendo a todos que fizeram desse blog um espaço fixo de leitura e entretenimento. Lamento ter escrito pouco, mas isso foi reflexo do ano atribulado que tive. Espero que todos tenham uma ótima virada de ano e que façam de 2011 um puta lance louco de 365 dias inesquecíveis! E, isso seria muito bom, espero que em 29 de dezembro de 2011 eu esteja falando menos de mais um ano bombástico que tive para ler mais textos de vcs, relatando que o 2011 de cada um foi muito melhor do que o esperado! Tudo de bom e até a próxima!

Um abraço,

Rafa Cortez

P.S 1 - Vou sair completamente do ar esses dias... talvez ainda pinte no Twitter, mas blog, orkut (que tá mais abandonada que velha em puteiro) e Facebook... acho que vão ficar a ver navios!

P.S 2 - Como de costume, no último texto do ano deixo um vídeo de algo que represente algo para mim. Como em 2010 ralei muito e agora tô celebrando demais, é um desses momentos de festa que quero deixar como lembrança do ano. Esse vídeo foi captado pela Grazy Psicanne na última festa Menstruação 2010, do Luís França. Sou eu, na balada, num momento "vergonha alheia", tentando motivar a galera incrédula a cantar comigo "Odara", do Caetano, e meu mega-hit "Todo Mundo na Balada"... vale como curiosidade pelo fato de eu NÃO TOCAR GUITARRA e estar com uma na mão. Notem o entusiasmo da galera comigo e a empolgada voz de Camila Colombo fazendo côro no refrão da minha música!

 

 

Por Rafael Cortez às 21h14

02/12/2010

RUA DO MEDO

Fala, pessoal...

Esse blog tá mais abandonado que mulher feia à espera de marido, mas eu vou tentar retomar o hábito de escrever recorrentemente aos poucos.

Na verdade, escrever aqui virou algo muito mais espontâneo do que obrigatório. Ainda bem que não tenho nenhum tipo de contrato que me obrigue a publicar coisas aqui de X em X tempos, de modo que eu passe a só trazer linhas e mais linhas por conta da obrigação, e não da vontade.

Aliás, no caso das minhas manifestações mais íntimas, onde está o campo da escrita e minha produção musical, fico feliz de constatar que eu me respeito: se há motivação e verdade, algo legal pode ser publicado aqui ou alguma canção bonita sai no violão - e nesse caso sim, as coisas estão brotando bem belas; mas juro que isso é papo para um outro dia.

Hj, o que me levou a escrever de novo no meu blog (após mais de 2 meses de ausência),  foi algo mais nobre, ligado a alguém que eu amo muito: meu irmão, Leonardo Cortez.

O Léo está com texto novo na praça - mais uma obra incrível, sacramentando sua carreira brilhante de dramaturgo. Além disso, é com "A Rua do Medo", essa peça tão boa, que mais uma vez ele bota sua trupe (a "Cia dos Gansos") à disposição de um diretor experiente e talentoso (Marcelo Lazaratto) que, habilmente, lapida o talento bruto de atores jovens e tão competentes, unidos há tempos por um ideal de fazer teatro de verdade ainda - mesmo sem grandes patrocínios, nenhuma carta marcada, nenhum pistolão e nenhum global pra trazer público.

E mais, o mano Léo tá no elenco, como sempre, firme e forte em sua trajetória de artista empreendedor, competente e especial.

Tenho muito orgulho do meu irmão e de como ele vive com sua arte. Ele segue com a dignidade dos que não se venderam para as mesquinharias ou se seduziram com os caminhos mais fáceis oferecidos aos egocêntricos, peneirando cada vez mais os raros artistas. O Léo é assim desde criança: agitado, produtivo, intenso, criativo, raçudo. Um tremendo irmão com um raro humor, um dom de criação especial e um modo único de viver e pensar o Teatro e sua Dramaturgia e Técnica (por isso ele é, tbm, professor, diretor e estudioso dos palcos).

Mas, para que esse texto não fique um baba-ovo do irmão-fã, quero  que vcs leiam esse texto do Afonso Gentil, que escreveu espontaneamente para o APLAUSO BRASIL (www.aplausobrasil.com.br) falando um pouco de "Rua do Medo", e do que o Léo já fez e quem ele é no teatro. Vale bem à pena.

Aí, só há uma coisa a fazer na sequência: assistir, pessoalmente, o espetáculo. Garanto que vcs vão se amarrar.

Um abraço!

Rafa Cortez

P.S - Sou o produtor do espetáculo. E produzi por amor e pq não queria, de maneira nenhuma, que uma peça tão boa como essa estreasse sem levar um pouco do meu incentivo e do meu afeto pelo meu irmão.        

01/12/2010 - 02:33

Autor de “Rua do Medo” faz jus a antecessores ilustres da comédia

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Afonso Gentil, especial para Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Comédia de Leonardo Cortes tem direção de Marcelo Lazzaratto

Temos bons dramaturgos habitando regularmente os teatros dos circuitos alternativos ou dos mais compromissados comercialmente.  Um exemplo disso é a presença maciça de 10 autores conhecidos ( e reconhecidos) num espetáculo sugestivo já a partir do título, “Te Amo, São Paulo”, cartaz dos fins de semana no Teatro Folha. Este espaço conta com o apoio publicitário da empresa que lhe dá o nome. Resultado: a sala vive lotada e as temporadas são, com freqüência, prolongadas.  Mas este caso é exceção: a maioria absoluta dos grupos e cias. costuma ter dificuldade em divulgar na grande imprensa, falada ou escrita.

Assim, recentemente, bons espetáculos de autores novos (Camila Appel de “A Pantera”) ou um bissexto Hugo Possolo com “A Meia Hora de Abelardo” tiveram temporadas semi-anônimas, muito aquém do resultado artístico, pela mais absoluta impossibilidade de investimento publicitário. Resultado: autores talentosos, que no tempo dos “tijolinhos” dos jornais eram logo consagrados, ficam patinando indefinidamente (salvo raros deles) no limbo dos  “sem sem” (sem anúncio e sem chance).

Entenda, assim, por que tal circunstância nos faz apresentar a vocês, como novíssimo, um talento em plena maturação há mais de 10 anos: LEONARDO CORTEZ,  que tem seus adeptos entre programadores culturais (SESI, SESC, CCSP), na classe teatral e continua injustamente preterido por setores da crítica teatral. Porém, pelo que se depreende do seu currículo, amado por onde passa com seus espetáculos.

“Rua do Medo” cativa pelo humor furioso

O que impressiona de pronto nesta farsa irresponsável à maneira do Nelson Rodrigues de “Viúva, porém Honesta”, é o domínio de Cortez da zombaria que seus descompassados personagens da classe média inspiram.

"Rua do Medo", de quinta a domingo na sala Paulo Emílio do Centro Cultural São Paulo

Esse cartaz da pequena e simpática sala Paulo Emilio Sales Gomes, do Centro Cultural São Paulo (ameaçada de morte iminente pelos descaminhos do poder público), faz jus aos méritos dos textos anteriores, “O Crápula Redimido”, “Escombros” e “O Rei dos Urubus”, que despertaram nosso respeito à pena de Leonardo Cortez.

Em 2003, com “O Crápula Redimido” (que vimos mais recentemente), o autor focou o mundo empresarial do ponto (torto) de vista do chefe supremo de todas as safadezas costumeiras em tal universo. Tinha uma vantagem adicional: Leonardo dirigindo e assumindo o protagonismo da peça com sua verve peculiaríssima para despertar o riso e também a repulsa simultânea do espectador.

“Escombros” nos serviu como introdução ao mundo nada encantado de Cortez. Uma família desmorona literalmente à nossa frente, numa sátira ao mercado de trabalho e às suas regras implacáveis de exclusão.  Um clima saturado pelo absurdo de Ionesco disfarçava o riso involuntário.

Já “O Rei dos Urubus” (2008) desvendou os bastidores sórdidos de um programa de televisão, com um furor de indignação bem a propósito. A ética dominava o verbo corteziano.

Esses condôminos!…

De uma corriqueira reunião de condôminos de uma rua “fechada” (o que já começa por ser ilegal) o autor atrita em cena tipos hilários à beira do ridículo que deixam porejar a cada pensamento, palavra ou ação. Tudo para garantirem a própria sobrevivência no inóspito lugar. Dispensável sobrevivência, aliás, pelos baixos ou nulos valores éticos que carregam.

Os diálogos ágeis e cortantes estão a serviço de uma narrativa sem floreios literários, embora carregados de seiva humana. Característica que une involuntariamente o autor paulista ao universo carioca do pernambucano Nelson Rodrigues.

Mas muito contribui para o êxito da encenação a presença do diretor Marcelo Lazzaratto que, sem maneirismos estéticos ególatras, costuma experimentar com o mais absoluto respeito pelo público, o que, sabemos, é pouco praticado por estas sofridas bandas.

Sua direção neste “Rua do Medo” prioriza o trabalho dos atores da Cia. Dos Gansos, todos agindo com deliciosa cumplicidade do jogo cênico: Glaucia Libertini, Kiko Bertholini, Daniel Dottori, Mariana Loureiro, Djair Guilherme e o próprio Leonardo como o tão sonhador quanto desajustado Capitão Tobias.

Todos compõem seus tipos com histrionismo bem controlado, tornando-os verossímeis, humanos, fazendo-nos torcer para que ninguém realmente “saia mal”, salvação que vem – para todos? – na figura de Danielle de Donato, uma empregada sonsa, mas nem tanto…

Não deixem de conhecer Leonardo Cortez neste seu “Rua do Medo”, cujos textos fazem-no digno sucessor da extensa linhagem de seculares comediógrafos, desde Martins Pena. E do humor subjacente de nosso autor maior, Nelson Rodrigues, tão cultuado pelo encenador Antunes Filho.

Serviço:

“RUA DO MEDO”, Centro Cultural São Paulo, Rua Vergueiro, n. 1000 / telefone 3397-4002 / Paraíso / Metrô Vergueiro/

5ª, 6ª. e sábado às 21h, domingo as 2Oh/

Ingressos R$ 20,00 / 70 minutos / 14 anos / até 19 de dezembro/ bilheterias abertas com 2 horas de antecedência/  possui estacionamento conveniado.

Por Rafael Cortez às 23h54

30/09/2010

Ciclo das reminiscências - parte 02

Em algum lugar daquele sítio está enterrado o tesouro.

E que não digam que é só uma lata de Nescau com umas bijuterias velhas doadas pela avó em prol da brincadeira. À primeira vista, aquela carta parece ter sido escrita por um bando de pirralhos, supervisionado por uma das tias - possivelmente aquela Bióloga, que embarcava mais nas fantasias dos primos só pq já tinha feito teatro.

Mas não. Era mesmo um valioso legado de Piratas!  

Aquelas jóias preciosas descansam dentro de um buraco coberto por pedras e todo aquele mato que a gente botou na frente. Era preciso se desfazer daquele ouro pq, como nômades saqueadores que sempre fomos, não podíamos levar conosco a prova do nosso crime - ou (melhor essa hipótese) não podíamos correr o risco de ver todo o legado de nossos ancestrais ser tomado de assalto por outros corsários.

Tivemos de chegar no limite de guardar muito bem guardado tudo que era nosso. E escrevemos a carta dizendo que aquilo nos pertence e que, ai de vcs se isso acontece!, SE UM DE VCS encontrar aquilo, não sei não... vem maldição de pirata junto, feitiço, caveira, e todas aquelas coisas que estão associadas a pessoas perigosas como a gente. É MELHOR QUE VOCÊ FIQUE LONGE DO NOSSO TESOURO!

Tem outra coisa também. Hoje em dia deve ter uma cobra morando ao lado do nosso pote de riquezas. O mato deve ter tomado conta dos arredores e eu não me surpreenderia se me disessem que uma Caranguejeira ou um bando de escorpiões são nossos aliados na ocultação do nosso patrimônio. Nós, piratas, temos pactos com todo tipo de bicho para que vcs não nos roubem. Aqui o negócio é feio, viu?

Enquanto isso, o tempo se incumbe do resto. Talvez um dia nós, piratas ocupados que hoje nos tornamos, voltemos para pegar o que guardamos para a eternidade. Será? Vai saber.

Mas em algum lugar daquele sítio está enterrado o tesouro.

                                Assinado: Os Piratas


  

Por Rafael Cortez às 20h45

28/09/2010

Ciclo das reminiscências - parte 01

Estou a menos de um mês do meu aniversário... é no próximo dia 25 de outubro.

Lembro que, ano passado, uma das ações que mais cativou os leitores desse quase finado blog, foi um ciclo de textos evocando lembranças desses anos vividos, às vésperas do meu festejo de 33 anos. Eu mesmo gostei muito de me debruçar nas histórias que dividi com vcs na ocasião. E, como quero tentar resgatar um pouco do hábito de escrever nesse cyber-espaço, achei que a melhor coisa agora seria atrelá-lo a uma nova série de textos, assim como aconteceu na Copa do Mundo, onde voltei a publicar coisas aqui com frequência.

Não vai ser um novo "Meu Passado Me Condena". Isso sugere só humor na redação, e eu quero estar livre para escrever o que eu lembrar do jeito que eu quiser. Hj, por exemplo, começo com uma crônica até que meio triste, ainda que - acreditem! - eu ande feliz até demais.

Espero que eu consigo trazer um novo respiro a esse blog e um ciclo de textos que nos reaproxime, vcs leitores dessa bagaça, e eu.  De quebra, vou vasculhando o sótão de memórias e os arquivos de fotos. E, claro, enxugo as minhas lágrimas ou dou umas boas risadas.

Um abraço!

Rafa  

A Rua das Estrelas Sírius


Talvez, nesses quase completos 34 anos de vida, a lembrança mais singela que eu possa ter é a da Casa da Vila.
O pequeno, mas até que bem aconchegante, lar da Rua das Estrelas Sírius, 1102 - casa 12.
Ainda existe esse endereço. A vila ainda está lá, mas das 14 casas coladinhas da década de 70, só uma ou outra ainda mantém-se como era.
Quase todas hj estão chiques demais. Aquilo tudo ficou um troço muito luxuoso, sendo que era, na nossa infância, só a nossa casa, com os nossos vizinhos.
Mas aí veio o tempo, e o Fábio e o Zé Paulo morreram num espaço idiota de tempo, e ambos de maneiras igualmente idiotas. Eles não tinham nem 24 anos.
A maior parte dos vizinhos se perdeu por aí. A Dona Ula, que comprava meus desenhos através da Ditinha, que trabalhava para ela e tinha aquele Fusca vermelho
ultra-conservado, morreu de velhice. Ainda com a gente em frente à sua casa, a casa 03, morreu o seu Waldemar, interrompendo o nosso almoço de domingo. Ficou
a dona Cira, e ela tbm veio a falecer alguns anos mais tarde. O Silvio e a Consuelo deixaram a casa dos dálmatas, onde o meu irmão Victor ia todo dia olhar
os cachorros. Eles até que foram guerreiros de continuar naquele teto que viu os filhos Kiko e Carlitos crescerem para, estupidamente, morrerem tbm em curtos
(novamente) espaços de tempo.
A Bianca, filha da Greice, deve estar um mulherão hj. Que fim ela levou?
A última vez que vi a Dorothy, já de bengalas e muito rabugenta em 2006, tive de ouvir dela que eu estava muito feio e o Léo muito bonito. Eu devia saber
que era a última vez que a via, pois nem me desgastei com qualquer tipo de resposta mal-educada que ela merecia ouvir.
O Sandro tá trabalhando com TV e volta e meia cruzo ele. Ele é irmão da Marina e filho da Giovanna, que ainda está na Vila - aliás, só ela e Paula, a mãe dos
meninos - os nossos grandes amigos de bicicleta, esconde-esconde, polícia pega ladrão e, na adolescência, as partidas de pôquer regadas a paqueras com as 
garotas da Casa 06 e os cigarros roubados dos nosso pais. Coisa de moleques.
Eu lembro bem do dia que o Sérgio, o síndico, me ouviu tocar o Prelúdio de Bach na calçada. Ele viu que eu não era mais criança naquele momento.
Aliás, eu lembro ainda de cada detalhe daquela vila e daquela casa. Não se esquece do lugar que te viu crescer e onde vc passou seus primeiros 22 anos de
vida. Era muito bom, ainda que o final tenha sido desgastante para todos nós.
E um dia veio aquele carreto e levou tudo que era nosso, e a gente junto, para o novo desafio do novo endereço. E ali começou outra história, e foi lá que
se deram outras passagens.
Mas nunca mais foi a mesma coisa.

Eu morro de saudade da Casa da Vila.

Mas também, com tantas coisas incríveis que aconteceram lá... quem não morreria de saudade?

Eu, o Fábio, o Marcos e a Thata na Vila. 1983

Por Rafael Cortez às 19h19

19/08/2010

Notas breves e texto teen sobre Humoristas e a Cobertura Eleitoral

Fala povo...

Tô bem sumido dessas bandas virtuais... mas a culpa é da agenda doida que não me deixa fazer nada além do previsto... mas que, graças a Deus, é uma agenda maravilhosa.

Quem entrou no meu site recentemente (www.rafaelcortez.com) viu que AGOSTO virou um mês tomado de coisas. Nunca fiz tantos shows solo e participei de tantos encontros e eventos. Tbm estou gravando bastante no CQC, o que sempre é muito bom, e a vida pessoal anda às mil maravilhas. Enfim, não posso reclamar de nada. O fato de não escrever mais com tanta frequência aqui se deve a uma vida que eu queria muito como minha, e hj, de fato, é!

Ando bem feliz com tudo que tem me rodeado. O coração podia estar mais amparado, é verdade, mas tudo tem que acontecer na hora certa. Mas eu equilibro bem as coisas, e o rumo dos meus projetos anda me divertindo e desafiando demais!

A propósito, quero chamar todos que podem ir à Bienal Internacional do Livro de SP para um evento bem bacana: domingo agora, no último dia desse mega-encontro literário, rola uma mesa bem legal... "Fazer Humor é Coisa Séria", comigo, Maurício Kubrusly, Hélio de la Peña, Paulo Caruso e a Guta Stresser. Vamos debater se o Humor é capaz de criar também uma reflexão, além de divertir. Vai ser às 13hs no Salão de Idéias da Bienal - de graça, mas vcs precisam ficar espertos com a lotação da sala! Visitem o site da Bienal: www.bienaldolivrosp.com.br

Em seguida, às 15hs, farei uma sessão de autógrafos do audiolivro QUINCAS BORBA, de Machado de Assis. É o quarto e último audiolivro do mestre narrado por mim e produzido e lançado pela Editora Livro Falante. Apareçam!

Depois, domingo que vem, dia 29, estarei em BH com meu solo "De Tudo Um Pouco" para uma única apresentação. Vai ser no Teatro Sesi Minas - Rua Padre Marinho, 60 - Santa Efigênia - BH. Ingressos: R$60 (inteira) e R$30 (meia). Espero os mineiros lá!

 

No mais, aproveitando que escrevi que farei parte de uma mesa que visa refletir o Humor na Bienal, quero lembrar aos CARIOCAS que, nesse domingo, em Copacabana, rola uma PASSEATA DO HUMOR - um encontro de humoristas que vão formalizar um protesto contr a Lei Eleitoral, que impede a classe cômica de falar livremente dos candidatos dessa nova e enfadonha eleição. O movimento é liderado por um cara sensacional do meio: o Fábio Porchat. Muita gente vai conferir e dar força: o CQC, a galera do Comédia MTV, o Chico Caruso, a turma do Comédia em Pé, o povo do Clube da Comédia e muitos outros nomes de peso (não, não sei se, com isso, o Rogério Morgado vai...).

A propósito, esse lance da restrição à liberdade dos humoristas na cobertura das Eleições 2010, é bem mais importante do que se pensa. Para quem quer entender mais o assunto, recomendo a leitura dos textos do Danilo Gentili sobre o tema e, em seguida, o que o TSE comentou sobre ele. É só dar uma busca na internet e eles tão todos lá. Queria pôr os links aqui, mas qdo faço isso meu blog dá tilti!  

Escrevi um post rápido e simples para o Blog do "Na Pegada" Metropolitana, o programa de rádio que faço com a  Marcela Rocha e a Fabi Ferraz. Por se tratar de um blog para adolescentes, o texto está bem mais jovial e descolado do que costumo escrever... mas acredito na mensagem, e por isso resolvi dividí-lo com vcs, leitores desse Blog. Segue abaixo:    

Recado pra moçada... Olho nas eleições, pessoal! 

Atenção galera... esse pessoal do TSE que tanto quer regular o modo como os humoristas cobrem as Eleições 2010 está prejudicando vcs, eleitores jovens - muitos de vcs em sua primeira experiência de voto livre!

Vcs sabem do que estou falando, não é? Todo mundo tem comentado, tem saído em tudo quanto é lugar: programas de humor precisam seguir uma série de regras ao abordar o tema das Eleições ou falar com candidatos a qualquer um dos cargos da vez, independente de quem seja. Os humoristas não podem mais fazer algumas piadas, as edições dos programas não podem colocar alguns tipos de artes gráficas (como aquelas engraçadas do CQC, com socos e narizes de palhaços) e até os sonoplastas que trabalham na finalização das matérias precisam ficar espertos: qualquer musiquinha mais circense ou brincalhona pode ser encarada como um desrespeito - ou, para usar os termos dos políticos, "uma deturpação dos fatos e uma desmoralização da relevante figura pública de Excelências que atuam em prol do país e das instituições democráticas".

Olha, Político adora falar em Democracia. Mas, em pleno Brasil do século XXI, há algum tempo gozando de uma suada liberdade de expressão advinda de uma briga feia na Ditadura, o que estão fazendo com a comunicação e poder do Humor não tem outro nome: é CENSURA.

Qualquer um de vcs, amigos do NA PEGADA, já sabem o que foi a CENSURA nesse país. Como vcs são muito jovens, não há mal nenhum em perguntar aos seus pais o que foi o AI-5 e o que foram os militares nessa nação, monitorando idéias e expressões. Tá rolando um negócio parecido agora com o Humor, e é bom que vcs saibam que VCS é que são os maiores prejudicados.

Como assim? Alguns de vcs podem fazer essa pergunta... como EU sou o maior prejudicado? Cortez, é vc, o Gentili o Pânico na TV, o Casseta, o Tom Cavalcante e todo o CQC que se ferram com essas restrições... vcs são humoristas, não eu. Eu não tenho nada a ver com isso! Aí que vc se engana, amigo leitor. Olha o que acontece:

- Os programas de Humor são populares, acima de tudo, entre a turma jovem. São vcs e seus amigos que assistem a gente. Os caras do TSE sabem disso.

- Mais ainda, os caras do TSE sabem que muitos de vcs estão votando pela primeira vez... e que, a cada eleição, o número de jovens novos eleitores é cada vez maior. E, sendo vcs o maior público de programas de Humor, eles acham que vcs são influenciados pra dedéu pelos humoristas!

- O problema é que os caras do TSE acham vcs muitos burros... acreditam que vcs não tem senso crítico para distinguir uma PIADA da REALIDADE. Quando vcs assistem o Carioca do Pânico fazendo uma imitação maluca da Dilma, é óbvio que vcs sabem que ele está fazendo uma sacanagem, um EXAGERO, e que vcs não vão sair por aí dizendo que não votam na Dilma por que ela é brava e destemperada como a CARICATURA que o Carioca fez para vcs. Não é?      

- Os caras que querem cortar o nosso barato acham que vcs se influenciam pelas nossas brincadeiras. Esquecem que, além de ver TV e curtir nossos programas, vcs tem aulas legais nas escolas, discutem Política com seus pais e mestres e, não raro, curtem ler os cadernos de Política dos jornais. Ou seja, vcs não são a patotinha alienada e influenciável que eles associam às suas figuras. Vcs tem SENSO CRÍTICO e são muito mais inteligentes do que eles pensam, não é?

As restrições à cobertura eleitoral dos Humoristas são bem chatas para os Humoristas, é verdade. Os caras do TSE tbm estão nos chamando de burros, pq acham que nós não sabemos fazer Humor com responsabilidade e inteligência. Mas, galera, relaxem: a gente sempre dá um jeito de fazer nosso trabalho.

O que não dá é pra VC - sim, VC mesmo, ou VC mesma que está lendo agora esse texto - pensar que esse problema é só da galera do riso, e não seu. É com vc que estão mexendo. Acham que vc não é inteligente e não sabe diferenciar as coisas. Acham que seu voto é sem nenhuma consciência e que vc é influenciável.

Não é de hoje que os caras do poder acham que vc é tonto só pq vc é adolescente. Pq vc não mostra o contrário?

Mãos a obra, galera! Tratem de discutir mais as Eleições... questionem, estudem! E VOTEM DIREITO, CATZO!!!

Um abraço

Rafa Cortez

 

Por fim, para terminar, e atendendo a inúmeros  e estranhos pedidos, segue uma foto minha logo após terem raspado minha cabeça...ou seja, CARECA mesmo! Ainda bem que o meu cabelo já cresceu bastante e eu possa, com isso, ter recuperado parte da minha dignidade.

É isso, pessoal!

Saudações calorosas...

Rafa 

 

Esse sou eu numa cena de "De Tudo Um Pouco" em Vitória, ES, dia 25-07. De bandana. Ou vcs acham mesmo que eu ia mostrar uma foto minha com aquela careca ridícula?

Por Rafael Cortez às 18h51

13/07/2010

NA PEGADA - METROPOLITANA

Fala galera!!

Já de volta da África e em meio a uma correria daquelas!

Ainda não escrevi minha avaliação, já em solo brasileiro, do que foi minha aventura em terras africanas e em meio à minha primeira Copa do Mundo como profissional do Jornalismo. Promessa é dívida, assim que redigir tudo aviso vcs. E vai estar aqui, nesse blog.

O que me traz nesse cyber-espaço hj é uma novidade muito legal!

Faz tempo que quero voltar ao Rádio... desde o fim de minhas "Notícias Que Gostaríamos de Dar" que anseio por meu regresso a esse veículo maravilhoso e tão divertido... e a oportunidade veio agora, com um senhor convite da METROPOLITANA FM!

Serei um dos três apresentadores do NA PEGADA, um super programa jovem da rádio, ao lado da MARCELA ROCHA E DA FABI FERRAZ!

Antes era um espaço só da mulherada, mas agora tem um homem dividindo a bancada para mostrar o lado bruto, churrasquento e cervejento de ser! Haha!

Sério, tô bem feliz com esse momento e muito grato à METROPOLITANA FM por essa oportunidade. Marcela, Fabi... me aguardem! Vamos nos divertir muito juntos, não é?

Em breve coloco um release com mais detalhes... mas fiquem, por enquanto, com umas fotinhos nossas e o serviço!

Um abraço,

Rafa

(nem preciso dizer que, nessas fotos, eu ainda tinha cabelo...)

     Comigo, o Na Pegada funciona com esse tipo de remuneração feminina...

... e é aqui que contribuirei com novos quadros e um olhar apurado (??) da existência humana jovem!

Acima de tudo, vai ser um tremendo programa para vcs!

NA PEGADA - METROPOLITANA FM - 98,5

www.metropolitanafm.com.br

COM

RAFAEL CORTEZ

MARCELA ROCHA

FABI FERRAZ

estréia dia 24 de Julho, sábado, às 18hs!

Por Rafael Cortez às 19h40

04/07/2010

Direto da África - parte 10 - FINAL

Décimo e último relato Africano. Na verdade, creio que volto aqui ainda para falar da Africa qdo já estiver no Brasil. Pretendo fazer uma avaliação de cabeça fria, já mais desapegado, para ver o que revelo a mim mesmo - e a vcs - dessa experiência ligada à Copa do Mundo e ao fato de viver fora do meu país, numa cultura totalmente diferente, por 36 dias.

Faltando 04 dias para voltar pra casa, e de acordo com os últimos acontecimentos (o Brasil e a Argentina fora da disputa), é óbvio que a tônica entre nós é a infinita vontade de regressar ao nosso país. Já deu essa Copa. Na verdade, há alguns dias já tinha rolado essa sensação de saturação, mas a possibilidade de ver um Brasil e uma Argentina na Final era um puta estímulo. Porém, deu no que deu. Não preciso nem dizer, né? Vamos ao relato dos fatos:

Na fatídica tarde em que o Brasil tomou um nabo e decepcionou todos vcs, todos nós, eu e meus companheiros de equipe estávamos em Joanesburgo. O Felipe e a equipe dele é que foram para Porth Elizabeth cobrir esse jogo; eu fiquei com a missão de fazer Gana e Uruguai. Saímos cedão do hotel para ir para o Soccer City. A idéia era ver o jogo no IBC, o Centro de Mídia da FIFA, com todos os jornalistas, de preferência comendo alguma coisa. Bem, o que aconteceu é que pegamos o maior trânsito de nossos dias de África, e ouvimos todo o Primeiro Tempo no rádio do carro. Ao chegarmos no IBC, estacionamos, pegamos as coisas, caminhamos até o local da transmissão, etc... certos de que o Brasil tava na frente e que já mandaríamos a Holanda pra casa. Quase não acreditei ao ver no telão que a Seleção tava perdendo de 2 a 1, e que o Felipe Melo fez o que fez. Dali a pouco, a incredulidade virou realidade. O Brasil tava fora, para deleite dos europeus presentes no IBC.

Confesso que gravar a matéria de Gana, praticamente em seguida, exigiu uma boa-dose de energia e profissionalismo. Por mais que eu nem seja o maior fã de futebol, e que uma Copa não tenha o poder de mexer com as estruturas da minha vida, digo: é outra coisa ver a derrota do seu time na Copa qdo vc está dentro da Copa. A energia muda, é um lance bizarro. Mais: essa Copa eu acompanhei intimamente. Estou aqui, e não estou a passeio. Tá difícil, tá trabalhoso, tem horas que é muito chato, essas coisas. Uma recompensa boa seria ver os jogadores do seu país fazendo a festa de mais um título. Até para manter o clima de alegria e tesão que ajuda, e tanto, a consolidar as matérias do CQC.

Sério isso. Contei no último relato que o clima aqui em Joanesburgo já tava de pós-Copa, não foi? O que ainda mantinha uma certa magia no ar era a permanência da animada torcida brasileira, devidamente amparada pelos Sul-Africanos (Gana vinha em segunda na fé popular) e, claro, a existência do Maradonna e seu enorme magnetismo midiático. Sem falar que, por mais que possamos não gostar dos argentinos, enquanto eles estavam na disputa, jogando bem e fazendo uma ameaça recorrente ao Brasil, existia um clima de duelo e apreensão que movia espontaneamente o trabalho. É claro que foi gostoso ver o time do Dieguito se ferrando bastante. Essa matéria foi feita pela nossa equipe B aqui, e foi uma das que mais gostei de realizar (até pq preparamos outra Magia Negra para os oponentes, e funcionou). Mas, uma vez que se foi a Argentina e o Brasil, me digam: que graça restou para a gente nessa Copa?

Aqui, me empenhei muito em enfiar o dedo, a mão e o braço todo, nessa ferida aberta que é o relacionamento tenso entre brasileiros e argentinos. Como sou brasileiro e não desisto nunca, é claro que tomei nosso partido e tudo que fiz foi atazanar os Hermanos. Gostei desse papel, mas só pelo viés da piada. Como humorista, exagero em tudo e parto do senso-comum para que as coisas fiquem engraçadas. Quem gosta de sacanear o argentino, antes de tudo, é o povo, e não só eu. Como Rafael Cortez do CQC, eu fui "o mala-sem-alça" com os caras. Como Rafael Cortez filho da Ieda e neto da Helena, que me ensinaram os meus valores, tenho afinidades e respeito com os manos vizinhos. Ora, meus chefes são de lá e o CQC tbm. Eu não estaria aqui se não fosse a Argentina e o talento do seu povo.

Mas resumindo, para o meu trabalho foi divertido ver os cabeludos indo embora para casa... mas não me conformo de não ter conseguido um dos meus dois grandes objetivos Cqcísticos que me obriguei nessa trip: entrevistar o Maradonna e armar uma muito boa para ele (a outra coisa que mais queria era ter entregue os óculos do CQC para o Mandela... mas isso já era meio impossível desde o início do planejamento da viagem).

Agora, o que falar do Dunga, hein? Tenso o tema. Hj sou conhecido por pertencer a um programa e esse programa pertencer a uma emissora. Vcs me lêem como o Rafa Cortez do CQC, e não como o cara que eu era nesse blog antes da visibilidade. O Dunga e a CBF são parte de uma estrutura futebolística em que estou envolvido numa esfera diferente, mas que é vital para o nosso relacionamento de trabalho e sobrevivência de nossas matérias. Sem entrar muito na minha opinião pessoal, o que posso escrever é: o Dunga foi importante, assim como o Maradonna, para movimentar a imprensa e agitar os ânimos nesses furiosos dias de Copa e entreveros pessoais. Dois tremendos personagens. Mas o técnico da nossa Seleção errou feio em algumas escolhas e agora está pagando por isso. Assim que o juíz validou nossa derrota, pensei: está começando o inferno do Dunga. Mediante a fúria de uma nação que se frustrou com os planejamentos e condutas dele, questiono: de que serve agora, nesse momento, a minha opinião pessoal?

Bom, mas agora é isso. Velório total em Joanesburgo. Voltei há pouco de uma gravação no Mandela Square e a coisa ali tava mais morta ainda. Mandar dois dos maiores times das Copas em dois dias consecutivos foi crueldade. As ruas e praças locais falam isso o tempo todo.

No entanto, ontem eu estava em Cape Town. Ah, essa cidade... vem cá, pq tudo não aconteceu por lá, hein? Ou em Durban... falei que contaria um pouco mais de Durban no relato anterior... e olha, fazendo um paralelo com a cidade que me recebeu ontem, é o seguinte: ambas tem o mar e o mar é astral em todo e qualquer lugar do planeta (excetuando talvez Veneza, pois as praias de lá são chorosas como o romance do Thomas Mann).    

Em Durban, depois do jogo do Brasil contra Portugal, fiquei horas sozinho na Fan Fest da cidade. Esse é o nome do local que a FIFA monta nas cidades das Copas, e é para lá que o povão vai em peso ver os jogos nos telões - tomando cerveja, muita Coca-Cola e comendo toda sorte de salgados e doces (sempre bem apímentados, tanto os doces como os salgados, afinal estamos na África). Foi muito legal estar lá. Vi culturas do mundo todo em completa harmonia. Os mais barulhentos e chamativos, claro, eram os brasileiros. Muita sobriedade por parte de todos os europeus, contrastando com os excessos etílicos dos americanos, a simpatia dos indianos e o misterioso universo dos muçulmanos. Aliás, os povos muçulmanos... em Durban há a maior concentração deles na África, e é impressionante como nós, brasileiros, não os conhecemos. Eu confesso que, por pura ignorância, os achava muito fechados em suas tradições e padrões culturais. E que estabelecer contatos mais intensos, com toda a disparidade de rotinas e idéias que estão entre nós, seria um tanto difícil. Qual o que! Foi só tentar
entrevistar o primeiro que tudo se mostrou bem mais leve do que eu pensava. Acreditem, falei com mulheres totalmente fechadas em suas burcas ao lado de seus maridos, e elas - e eles tbm - foram muito bem humorados e receptivos. Do mesmo modo, vcs acham que o povo muçulmano fica fechado em rezas e tradições o tempo todo? É pq não viram os jovens muçulmanos bebendo, namorando e dançando na Fan Fest como eu vi. E, entre eles, passavam as senhoras com suas burcas, e estava tudo bem.

A questão cultural é uma coisa muito doida. Lembro qdo eu tinha uns 5 anos de idade e fui almoçar na casa de um amigo da escola, o Vinícius. Ele tinha acabado de chegar a SP de algum lugar do Nordeste que, nesse momento, não lembro qual era. Mas era um lugar bem tradicional, e ele e sua família eram mega-conservadores. E eu fiquei muito chocado qdo, na hora da comida, vi a família toda lavar as mãos, passar farinha nelas e, em seguida, comer tudo sem talheres. Lembro que parei tudo e os observei como se fossem de outro planeta. Só parei qdo a avó da família me explicou que aquilo era uma coisa comum na cidade deles. Logo, pq nossa cultura é melhor do que qualquer outra? E pq qualquer outra cultura pode parecer melhor que a nossa? Pq como de garfo e faca e a família do Vinícius não, eu sou limpo e eles são uns porcos? Pq os japoneses comem de palitinho e os ocidentais nem sabem manuseá-los, devemos dizer que os ocidentais são modernos e os japas pararam no tempo? E toda a tecnologia que só o Japão domina como ninguém, o que tem de conservadora?

Conhecendo mais os muçulmanos aqui, ampliei muito o meu entendimento de mundo e até o entendimento de mim mesmo. Eles possuem coisas fantásticas em suas maneiras de ser e eu os respeito, ainda que minha restrição cultural não me faça entender, ainda, alguns dos tratamentos ligados à mulher. Mas isso é outra história. 

Encerrando Durban: convenhamos, nenhum outro povo do planeta Terra sabe aproveitar a praia como o brasileiro, não é? Vejam as mulheres com seus biquinis em Durban e vcs vão entender o que eu digo. O mesmo vale para as banhistas que já vi em Barcelona, Cannes, Veneza e diversas outras praias dos EUA e de outros lugares do mundo. A brasileira curte o sol melhor, ao passo que o brasileiro otimiza as areias com esportes, comidas e alto-astral.

Amanhã voltamos, a equipe B do CQC, a Cape Town. Faremos o jogo da Semi-Final por lá. Vai ser ótimo regressar à cidade. Lá rola um astral jovem e leve, um lance de verão o tempo todo... em novembro do ano passado, no Sorteio das Chaves, passamos bons 05 dias lá. Fui a dois dos lugares mais lindos que já conheci: Table Mountain e O Cabo da Boa Esperança. Quem viu minhas matérias de lá tá ligado no visual a que me refiro.

Qdo chegamos em Cape Town, na madrugada de sexta para sábado, tivemos um problemão. O hotel errou e desconsiderou nossas reservas, mesmo com tudo feito e já pago. Ou seja, chegamos lá às 4 da manhã, exaustos do pós-jogo trabalhado de Gana e Uruguai e não podíamos dormir. E tínhamos que acordar às 11hs do dia seguinte, para fazer diversas coisas da Argentina. A coisa só se resolveu às 06:30 da manhã, qdo, depois de uma via-crucis de brigas e negociações, os caras do hotel conseguiram, por milagre, nos dar 03 quartos, um para cada um. Dormi às 07 e às 11 já tava de pé de novo. Mas Cape Town é tão astral que, mesmo exaustos, não denunciamos nosso esgotamento.

Depois, na noite de sábado para domingo na cidade... era outra energia. A gente se perguntou o tempo todo: pq não passamos os 31 dias que já vivemos de Africa aqui, meu Deus? Pq teve de ser em Joanesburgo? Naquela secura, naquele tédio, naquela solidão? Lembro que pensei a mesma coisa ano passado, ante a primeira comparação que fiz na vida entre as duas cidades.

Foi muito bom ver toda a galera dançando música eletrônica (que eu nem gosto, mas não importa) na rua depois do jogo. Argentinos derrotados e alemães vitorioso juntos, numa boa. Foi a segunda e última vez, até agora, que realmente senti um CLIMA DE COPA MUITO FODA, daqueles de entrelaçamento de povos e alegria popular legítima. A outra ocasião se deu na estréia da África do Sul no MUndial, conferida por mim lá da periferia do Soweto. E olhe lá.

Até agora, o que mais me entristece nessa Copa é não ter tido mais chances de ver e sentir de perto o tesão que vi e senti na "mini-rave" de Cape Town e no Soweto com os Bafanas-Bafanas. Não sei muito a que se deve isso, mas ainda acho que é culpa de Joanesburgo centralizar tanta coisa e ser a cidade errada para reunir tanta gente. Ela é muito larga, as coisas são muito distantes; a cidade é fria e estranha. Será que a explicação é tão rasa assim? Sei lá...

Por isso que quero escrever outro texto sobre Copa e África qdo estiver menos envolvido e mais descansado. Por enquanto, termino esse relato (que tá enorme) com quatro constatações:

- 1, não aguento mais tomar choque. Em todo o Centro de Mídia da FIFA, todos jornalistas tomam choque o tempo todo. São milhares de cabos e aparelhos de centenas de equipes. Mas eu tomo choque dentro do carro, na rua e até mesmo comendo. O que eu tenho, caramba?
- 2, acho que minha barriga tá enorme. Ela é fruto de mais de 30 dias bebendo um vinho ou uma cerveja (uma? umas muitas!), todas as noites, antes de dormir.
- 3, não vejo a hora de voltar pro Brasil quinta-feira. E volto com Loreno, vários shows do meu solo marcados, CD para outubro, audiolivro novo à vista, programa de rádio na Metropolitana, mais matérias, a retomada do CQTeste que o PUTO do Marco Luque me tomou (haha!) e muitos outros planejamentos pessoais.
- 4, e essa é a constatação mais importante: EU NÃO VOU RASPAR A MINHA CABEÇA PELA SELEÇÃO BRASILEIRA! Eu não disse que rasparia, aquilo foi montagem do programa (hahaha!!) e, mesmo que tenha dito, já dei ao Dunga o meu sangue, suor e lágrimas nessa Copa. O cabelo, não. Até pq eu nem tenho muito mesmo...

Um abraço,

Rafa

Por Rafael Cortez às 17h27

30/06/2010

Direto da África - parte 09

Estamos na reta final da nossa viagem pela África do Sul. A Copa está acabando e a coisa vai afunilando cada vez mais. Os jogos agora são decisivos: um fica e o outro roda, não tem outra alternativa. Vamos aos jogos preparados para saudar quem permanece e, do nosso jeito CQC de ser, sacanear um pouco os que voltam pra casa.

Temos um mapinha que atualizamos a cada partida. Mais e mais nosso cronograma e logística de jogos apontam uma possível final entre o Brasil e a Argentina. Já pensaram uma coisa dessas? Será algo histórico, único, o grande duelo. Aqui, cada vez mais, as pessoas compactuam com essa nossa premissa, que não é novidade para ninguém. E olha, quem viver verá. Vai ser foda... Brasil e Argentina. Ambos times dirigidos por ex-craques de Mundiais de outros períodos, ávidos por levantar a taça de novo, mas na condição de técnicos. Ambos, Dunga e Maradonna, precisando da Taça para esfregar na cara de seus múltiplos desafetos, ávidos por essa conquista para redimir suas imagens e calar a boca dos opositores. Muito foda.

No entanto, daqui até o domingo que vem, tem chão ainda... pouco, mas um chão minado! E se o Brasa perde pra Holanda no próximo jogo? Aqui, estamos preparados para tudo. Mas é claro que queremos a Seleção na final.

Por falar em Final, a ironia é que não fico para esse jogo. Volto ao Brasil dia 08 de julho, quinta que vem. É algo já previsto há muito tempo, e se deve às logísticas de equipe e gravações que temos aí com vcs. O Felipe fica e eu espero que ele possa fazer uma matéria onde, ao lado do Lula, Pelé (que chegam na semana que vem), Robinho, Kaká e Dunga (tá, e a irmã do Crespo tbm, já que ela é a Musa da Seleção), levante a taça com todos gritando "CQC!!". Acho que vai ser bem legal.

O fato de voltar antes da final, com a iminência de termos o Duelo do Século nesse dia, brocha um pouco - não nego. Mas já administrei isso com calma e sabedoria desde antes da viagem, de forma que não me entristeço muito mais. Além disso, tá rolando uma vontade de ir embora descomunal. Vou explicar isso pra vcs no parágrafo a seguir.

Essa vontade de voltar não é só minha não. Com todos os jornalistas que cruzo e com quem falo em jogos, treinos e Zonas Mistas, o consenso é o mesmo: tá tudo muito bacana, essa Copa teve grandes surpresas até agora, os jogos tem sido irados, 2010 é uma vez na vida, etc. Mas a África nos esgotou. Creio que os jornalistas mais experientes, aqueles que já trabalharam em diversas Copas, podem atestar melhor o que quero dizer: é lógico que foi e está sendo lindo ver um evento desse porte rolando, pela primeira vez, num Continente que foi tão desfavorecido e num país que sofreu tanto com uma história de segregação, opressão e violência. Para mim, o momento mais lindo aqui foi ver o jogo de estréia da Copa, justo com a África do Sul, na periferia de Soweto com os muitos africanos felizes e orgulhosos que ali estavam. Nunca vou esquecer esse momento na minha vida - a galera parecia ter esperado por aquilo o tempo todo! Mas duas coisas acabaram, e muito, com o astral de todo mundo nessas bandas: 1, a África do Sul rodou cedo e o povo voltou às suas vidas normais. O tesão popular se restringe aos turistas, que vão diminuindo à medida que as Seleções voltam para suas casas. 2, a infra-estrutura saturou de vez.

De fato, de todas as torcidas que vimos aqui, na minha opinião a mais animada e bonita era a da África do Sul. É a casa dos caras, e eles estavam radiantes. A eliminação do time dividiu a galera: muita gente passou a torcer pelas demais seleções africanas, mas essas tbm foram rodando até restar a isolada Gana até aqui. Agora, muitos anfitriões estão na torcida pelo Brasil, e é nos jogos da Seleção que os encontramos animados ao lado. No entanto, no dia a dia, a turma segue suas vidas, e a vida parece que voltou quase que completamente ao normal em Joanesburgo.

Ontem tivemos o dia livre aqui e fiz uma coisa diferente. Depois de acordar tarde, decidi dar um tempo da galera toda e ir almoçar sozinho. E foi bem deprê. Comi no Tívoli, aqui perto, onde já fomos 200 vezes. Antes, na Primeira Fase do Mundial, era lá que se viam mesas entupidas de Mexicanos, Portugueses, Brasileiros e Sul-Africanos. Uma algazarra, uma correria, bem intenso. Bem, ontem só dava eu no salão. Nenhuma mesa ao lado, nada. Fui atendido por uma mulher desmotivada e depressiva, e a comida estava estranhamente ruim. De lá, resolvi dar uma volta no Mandela Square - o já citado Ponto de Encontro Festivo de povos e pessoas. Buenas, foi mais triste ainda. As lojas estavam todas vazias e os funcionários permaneciam na porta dos estabelecimentos, como se fosse a Santana do Agreste de JOrge Amado no dia em que Tieta voltou pra casa. Aos pés da enorme estátua do Mandela, poucas pessoas (brasileiros, na maioria) faziam fotos. Os restaurantes, antes lotados, restringiam-se a umas poucas mesas ocupadas. Enfim, foi deprê. E o dia ainda estava cinzento e feio, de forma a piorar mais ainda a minha impressão de tudo. Parecia Quarta-Feira de Cinzas. A festa acabou e é hora de retomar a vida séria, mas ainda tem uma balada acontecendo até o meio- dia. O Paulo Bonfá e a Soninha Francine já tinham me dito que, na fase das Oitavas e Quartas, o clima das Copas fica tenso mesmo. E como eles
estavam certos!

Agora, quanto a Infra-Estrutura aqui, é o seguinte: tem menos gente na área, logo tudo tende a funcionar melhor. Sim, isso acontece. Mas os Bafanas estão cansados do ritmo anterior e deve ser frustante ver tudo voltar à pacatez. Logo, se por um lado não falta mais a comida que vc queria no almoço, por outro ela chega meio sem sabor, entendem? E tem outra, nenhum estrangeiro aguenta mais!! Todo dia é a mesma comida, o mesmo tempero, as mesmas pessoas, esse clima seco e o tom alaranjado das ruas, um frio grande de noite, as underwears cada vez mais rôtas, a cama cada vez mais pequena, essas coisas... em resumo, adorei e ainda estou adorando a experiência. Obrigado, 4 Cabezas, Band e CQC. Isso tem sido o maior desafio e aprendizado profissional de toda minha carreira até agora. E estou feliz pq as matérias estão entrando bem boas no ar pra vcs. Mas, passados 28 dias de viagem, admito que estou saturado e quero muito voltar para a Vila Madalena, meus shows, meus amigos, minhas pautas, meu CQTeste, minha família e vcs.

Finalizando, quero dizer que estou muito feliz de ir para Cape Town na sexta. Faremos, só a equipe B, o jogo da Argentina e Alemanha. A Cidade do Cabo é litorânea e, como toda cidade que tem o privilégio de ter o mar à vista e à disposição, o astral é 100 vezes maior. Qdo estivemos lá ano passado, no Sorteio das Chaves, o clima melhorou muito, na equipe e nas matérias. Joanesburgo deveria ser um local para se passar alguns dias pouco da viagem, e não a grande maioria do tempo. Fomos a Durban na semana passada fazer o jogo do Brasil e Portugal e, só de mudar um pouco de ares, já foi revitalizante!

Aliás, Durban merece um relato à parte... mas deixo para uma próxima ocasião. Agora é hora de abrir uma cerveja e relaxar.

Um abraço,

Rafa  

Por Rafael Cortez às 18h36

24/06/2010

O que diria um heterônimo de Fernando Pessoa se soubesse que Portugal joga contra o Brasil no dia 25 de junho de 2010:

Se tens a tua frente a disputa

Como queres que tenha, da luta

A resposta mais justa

Se sois quem até hj lucra?

 

Tivestes o ouro e as índias

Ah, Portugal! Tu tens ainda

As caravelas mais lindas

Da Colonização infinda

 

Se em troca de espelhos levaste ouro

Se roubaste de outra pátria seu maior tesouro

Não pensas que seria um mal-agouro

Querer a vitória no jogo?

 

Cede a teu oponente chato! 

Ceder à vitória compensa

O mal que fizeste a uma pátria imensa 

Levando a prata que roubaste num ato!  

Por Rafael Cortez às 21h55

23/06/2010

Direto da África - parte 08 OU Comida

Olha eu aqui de novo... os contatos estão condizentes com o volume de trabalho: à medida que gravo mais, escrevo menos. E com a Primeira Fase da Copa
acabando, e as Oitavas já iniciando, trabalho aqui é o que não tem faltado.

Longe de reclamar; gravar ajuda a deixar a cabeça quente e ocupada. E eu ainda amo fazer o CQC, de modo que não me incomodo em trabalhar - desde que o
material fique à altura dos investimentos, e que todos estejam dispostos. E isso quase sempre acontece, o que é muito bom.

É óbvio que estou cansado. Como já disse aqui, a infra-estrutura não é das melhores, e a privação de certos confortos dá uma brochada. Dividir quarto, qdo
vc mora praticamente sozinho e está acostumado com isso, é um troço que exige paciência e dedicação. Nesse sentido, até que me dei bem: o Cronfli, nosso
produtor que está comigo, é um cara competente e ótimo colega. Ainda que dê suas roncadas e tenha seus tempos e estilo, não merece grandes reprimendas: ele é alto-astral, criativo, empenhado e provou, mais de uma vez, ser um dos grandes produtores do CQC. Passamos por algo aqui que dependeu muito de seu jogo de cintura, e ele teve bastante disso.

No entanto, imagine a convivência, todos os dias, de seis caras hiper-ativos e envolvidos do CQC. A isso, some a cobrança que há em cima da gente e todas
particularidades envolvidas: o tempo de cada um, a saudade de não sei quem de cada, o jeito, as manias, as particularidades... não é fácil. A vcs, público,
só chegam as coisas prontas e mastigadas. O filé das nossas matérias. Muitas vezes, muita gente me escreve dizendo que somos uns tremendos privilegiados por fazer o programa e por podermos viver situações como essa da Copa. Vcs estão certos, muitas vezes nós somos mesmo. O programa é do caralho, e tem muita gente envolvida full-time em fazer com que ele seja. Mas não existem críticos mais vorazes do CQC do que os próprios integrantes do CQC - da bancada ao assistente de câmera, passando pelo porteiro da nossa produtora e a diretoria da Band. Logo, nossa vida tem diversões e possibilidades, mas tbm não é nada fácil...  ainda que, insisto, estar num job desses seja sempre sensacional.

Já se passaram 21 dias! E qta coisa rolou nesse tempo todo... aqui na África, estamos muito felizes com o resultado das matérias que vcs assistem. É bem
difícil não poder ver o programa ao vivo, ainda que estejamos nos links a cada exibição. É tbm muito difícil esperar baixar cada uma das matérias no dia
seguinte no Youtube. Nossa conexão é lenta, e nem sempre tudo que fizemos está imediatamente nesse site no day-after, bem como as matérias que sempre
queremos ver do Oscar, Danilo e Mônica, ou o Top Five, e o Povo Quer Saber e tudo mais que rola sempre. Nesse caso, eu sempre conto com os blogs e sites dos fãs do CQC, que tem tudo e são rápidos nas atualizações. Destaque para o "CQC in LOve" da grande Sylvia Bonte Pires, que sempre tem TUDO do programa e noticia, em primeira mão, toda e qualquer coisa envolvendo o programa e seus integrantes. Muitas vezes, é lá que me atualizo do que rola com meus amigos e
até comigo mesmo! Hehe!

Mas sério, lemos tudo que vcs escrevem e sabemos tudo que estão pensando e dizendo da gente e do programa. Nem sempre - aliás, quase nunca - é possível
comentar o que vcs acham, mas saibam: todos nós do CQC estamos à par de seus feedbacks, críticas e sugestões. O mesmo vale para todos os coments desse blog.

Fiquei particularmente feliz de saber que a matéria dos beijos aqui foi bem aceita e engraçada. É uma  típica matéria não muito convencional, em termos de
CQC, que arriscamos fazer no jogo da Holanda e Dinamarca... e que, graças às boas idéias do momento, e todo talento de nossos editores no Brasil (palmas pro
Marquinhos e equipe), ficoU divertida! Idem os treinos de Portugal e o jogo da Argentina. E o que foi o Felipe com toda aquela moral na Zona Mista do Brasil?
Cá entre nós, que outro programa consegue arrancar um chaveco extra-conjugal do Robinho?

A equipe da qual faço parte aqui, a chamada equipe B (de BOA, haha!), passou por um perrengue recentemente. Não posso contar, mas adianto que isso
mexeu muito com a gente e dificultou o processo de trabalho. Quem sabe, com o rumo dos acontecimentos, vcs saibam melhor dos fatos... no entanto, agora tá tudo bem e estamos muito empenhados, de verdade! E felizes com o que temos feito aqui e com os horizontes de perspectivas.

A pedido da minha amiga Mariana Britto, que me escreveu um e-mail legal, vou contar um pouco do que temos comido aqui. Ela disse que essa seria uma
curiosidade grande, e que relatar minhas experiências gastronômicas pode ser bacana. Bom, vamos lá.

Primeiramente, tenho tomado muito vinho tinto. Mas sempre de noite, que é qdo pode surgir um tédio maior, e sempre com moderação. Para me acalmar e me ajudar a dormir, coisa que ainda tem sido difícil. Entretanto, eu nunca bebo todas as noites no Brasil. E, à exceção da noite de ontem, tenho provado diferentes
tipos de vinhos africanos no decorrer de todos esses dias. Tem sido muito bom, ainda que eu tenha extrapolado uma vez ou outra e que tenha a impressão de
estar mais inchado! Haha!

Agora, comida: tem um ingrediente que não quero mais ver na frente assim que pisar no Brasil - pimenta do reino. Tudo aqui envolve essa pôrra. E pimentões,
então? Como os africanos curtem isso, não aguento mais! O lance aqui é: na hora do almoço ou jantar (em geral, pelo tempo e acontecimentos, escolhemos: um ou outro), ou mandamos uma carne com UM acompanhamento, ou, dependendo do lugar, comemos massas. Esqueçam o feijão, não existe ( e eu lamento tanto!). Esqueçam self-services, só existe um, e é no Centro de Imprensa da FIFA, e olhe lá. Esqueçam os sucos naturais e frutas de verdade. Eu só vi coisas em
conserva e sucos de polpa.

Em geral, qdo vc pede uma carne aqui, vc escolhe: Bif-Eye, T-Bone Steak, Filé Mignon ou Frango. Peixes são raros, ao menos por enquanto. A solução é comer
camarão e lula, que sempre tem bastante e, muitas vezes, vem na salada. Quase sempre é assim: ao pedir uma carne, vc escolhe um molho para ela (queijo,
cogumelos ou mostarda) e um tipo de batata de acompanhamento (purê, batata-frita ou backed-potato, que em nada lembra a brasileira - é só uma batata assada com manteiga à parte). Tenho pulado as carnes. Elas são generosas, mas chegam bem mal-passadas e os caras não sabem temperá-las. Comemos no Butcher´s, no Mandela Square, que é considerado "o melhor restaurante em termos de carne de toda Joanesburgo". Pois bem, foi o pior até agora. A comida demorou horas e as carnes deixaram a desejar em todos sentidos.                      

As massas tem sido melhores (se bem que hj comi o pior macarrão de toda a minha vida). Vamos muito ao Tivoli, aqui pertinho, que tem o melhor Macarrão à
Carbonara que já comi até hj. Nem em Veneza provei um igual. Lá eles fazem combinações muito doidas de pastas com carnes: comi um fettucine ao curry com
caranguejo que foi de molhar os beiços (expressão da minha avó), ainda que tenha sido muito difícil quebrar aquele bicho. No Tivoli tem um prato campeão de
pedidos do CQC, que é o Milano: vem macarrão ao molho Alfredo com carne de um lado e frango do outro. E, claro, temos o Mcdonald´s e as pizzas finas e
congeladas: recordistas de consumo entre os CQC´s, em especial na ala do Felipe, Pedro, Max e Tutu (que se mostrou, tbm, um devorador do KFC).

Buenas, mas pensem comigo: tudo que eu descrevi gastronomicamente até agora é deveras calórico, não é? Macarrão, T-Bones de 500 g, molhos, cremes, Burgers... ganhou quem apostou que estamos ficando rechonchudos. EStamos mesmo, e não há muito o que fazer. Em SP, corremos, vamos à Academia, comemos seletivamente e nos cuidamos. Aqui, não temos opção. Comemos o que dá, e o que dá nem sempre é o melhor. E não temos como queimar nada do que acumulamos direto. Vcs pensam que podemos ir à Academia? Nem tem no nosso hotel, e se tivesse não iríamos por falta de tempo e saco. Duas vezes aqui, em duas diferentes ocasiões, consegui correr nas ruas próximas ao hotel, e foi bem penoso. Em uma, eu estava desaquecido e preguiçoso. Na outra, fazia um frio dos Alpes, e cada golfada de ar que eu inalava congelava um pouco mais o meu pulmão. Enfim, muito ruim.

Falei das sobremesas? Tudo de gordo. Creme Brulé, Mousse de Chocolate, Brownie com sorvete e o famoso Cheese-Cake, que tem sido o nosso predileto. Mas nada de Salada de Frutas ou coisas leves. Não tem jeito, povo. É vinho tinto toda noite, e gordelícias todos os dias. E, pra matar de vez o corpo, saibam que
vivemos numa abstinência sexual compatível ao de um convento. E nem o "Cinco Contra a Um" rola, pq dividimos o quarto! Hahaha!

Um abraço a todos e até o próximo encontro...

Rafa  

Por Rafael Cortez às 18h54

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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