Blog do Rafael Cortez

14/03/2007

Paixão

As pessoas estão muito loucas. Hoje de manhã vi um cara andando na calçada. Ele agia como um guarda de trânsito, e comandava um tráfego imaginário. E isso numa rua bem vazia. Ontem, andando em Pinheiros, uma tia velha não conseguiu passar entre eu e outro cara na rua. Entrou no meio de nós dois, quase nos derrubando, e gritou : EU QUERO PASSAR, CARALHO! QUE MERDA! A gente ficou sem ação.

 

Mais tarde, no ônibus, uma mulher brigou com o cobrador. Ninguém entendeu nada, nem ele, mas tudo indica que ela se irritou com algo que ele teria insinuado, de conteúdo adulto, mas que ele jurou não ter feito.

 

Além desses episódios isolados, dessas situações cotidianas, tem a loucura das pessoas à nossa volta. Que contribui para a nossa. Todo mundo correndo contra o tempo, arranjando sarna pra se coçar, querendo discutir relação. Gente fazendo das coisas que deveriam ser as mais ternas as mais sacais. Gente enlouqucendo a gente por ter neurose demais e bom senso de menos.

 

Há também a loucura violenta, que é o mal do século. Aquela que ainda não bateu na minha porta ou na sua, mas que está cada vez mais perto. Falo da loucura que leva os caras a arrastarem um menino até  a morte no Rio de Janeiro. É a mesma que se vê quando uma família inteira é incendiada num carro, depois de um assalto, sem razão nenhuma para isso (e há alguma coisa que justifique botar fogo em alguém?). Loucura que se nota nas balas perdidas aqui e ali, na impunidade, na gratuidade da violência.

 

Pesa muito o fato das pessoas viverem sem paixão. E paixão, para mim, não é a que se alimenta entre um homem e um mulher – até porque até essa paixão acaba um dia.

 

A paixão a que me refiro, ainda que isso soe piegas e clichesco, é a paixão por alguma arte. Por tocar um instrumento ou motivar uma vida no palco. Sei que isso pode parecer idiota para alguns, ou um tanto inocente. Mas digo por mim e por algumas pessoas muito próximas, que sei que só estão de pé ainda porque tem outras motivações. Mais etéreas.

 

Eu acredito piamente que não sucumbi às minhas tristezas e às coisas duras que me atingiram por ter sempre ao meu lado o meu violão. E ainda acho as horas que passo com ele a melhor terapia.

 

No entanto, as pessoas querem levar aquela vidinha burra, chata e administradinha. De casa para o trabalho, do trabalho para casa, na sexta o happy hour da empresa, e nos finais de semana alguma redenção. Sem algo estrutural mesmo para garantir a sanidade, em breve ela se vai. Até porque o mundo está pior, e o homem também. Quem não tiver uma paixão por uma arte, seja ela qual for, e independente de atingir os outros, vai sucumbir.

 

Pobres das pessoas que não tem paixão.

Por Rafael Cortez às 11h04

Esse texto foi escrito pelo meu irmão, Léo, no seu blog. É tão bom que precisei copiar e colar aqui no meu. Dá-lhe, manolo!  

Querido Bush:

Espero que você tenha aproveitado a estadia aqui na nossa humilde cidade. Sei que não somos grande coisa comparado à Nova Iorque, mas a gente se esforçou ao máximo. Se soubéssemos com mais antecedência da sua visita de repente até dava pra desapropriar algumas favelas que você deve ter  reparado que existem no caminho do aeroporto. Sinto muito pelo aspecto desgradável da paisagem no trajeto. Tentamos compensar pintando as guias lá da Berrini, escurraçando gente pobre da região e proibindo qualquer manifestação contra você no entorno. Não foi fácil, mas dizer que era tudo pela sua segurança foi uma boa desculpa pra gente aplicar todo o know-how repressivo adiquirido durante a ditadura. Obrigado também por isso. Estávamos com saudades de botar tropa de choque dando cacete em manifestante chato.

Reservamos pra você o hotel mais americano que tínhamos à disposição numa  região onde as ruas tem nomes americanos e todos os prédios são inspirados na mais moderna arquitetura americana. Me arrisco a dizer que você se sentiu em casa. A gente pensou em trocar todas as funcionárias mestiças do hotel por modelos louras e siliconadas, mas alguém disse que a Dona Laura podia ficar com ciúme. Fica pra próxima, garanhão! Faço votos de que você tenha apreciado a vista pro rio e que não tenha se incomodado com o cheiro de bosta e com os pernilongos. Eu sei que você é um homem sensível e que certamente o serviço de inteligência deve ter lhe comunicado que boa parte da população da nossa cidade foi prejudicada com os desvios no trânsito e com os bloqueios que foram feitos em nome da sua comodidade. Não se preocupe com isso e saiba que enfrentamos os congestionamentos de bom grado, na certeza de que o bem-estar da maior autoridade do império deve sempre vir antes das nossas mesquinhas obrigações cotidianas. Você é o presidente da nação que nos deu  a Coca-Cola, o MacDonald´s e o Forte Apache, que eu te disse, foi o meu brinquedo preferido na infância. Proporcionar a você toda essa tranquilidade é o mínimo que podemos fazer pra retribuir. Não ligue pra passeata de repúdio à sua presença lá na Paulista. Foi um movimento isolado, promovido pelos estudantes, que, coitados,  estudam no Brasil, são submetidos à nossa política educacional e justamente por isso não gozam de uma boa educação. Temos certeza , no entanto, que o seu serviço de inteligência aprovou o uso que fizemos do gás pimenta. Você tem razão. Ele funciona mesmo. Obrigado pela dica.

Adorei ter te conhecido, George. Achei super legal que você tenha achado engraçada a piada que eu te contei do motel e do buraco do metrô. Por aqui não acharam graça, o que comprova que os americanos sim é que sabem apreciar uma boa comédia. E desculpe-nos por esse nosso calor insuportável e pela poluição asfixiante. O efeito estufa está aprontando das suas por aqui. Temos certeza que com o Etanol a coisa toda vai melhorar e que depois que todo mundo estiver usando o nosso combustível (nosso, do Brasil e dos EUA) a concentração de gás carbônico vai diminuir, fazendo com que aquela bobagem toda do protocolo de Kioto seja esquecida pela História. Estamos sempre à disposição pra negociar contigo a nossa cana de açúcar a preço de banana desde que isso te deixe satisfeito, meu querido. Você está super certo de não abaixar a taxa de importação. Só você sabe o quanto é difícil zelar pelos lucros trilhardários. E falando nisso, pode deixar que hoje mesmo eu vou comprar o livro que você me recomendou: "Pai Rico, Pai Pobre". Adorei nossos papos sobre literatura e não vou esquecer do seu presente, pode ficar tranquilo. Vou te enviar por SEDEX uma boa tradução do "Alquimista" que eu te disse que é o melhor livro do Paulo Coelho e que fala justamente dessa coisa importante que é acreditar nos próprios sonhos. Ah! Tava quase esquecendo: espero que você tenha apreciado a compota de goiaba que a gente te deixou em cima do travesseiro. Pode levar que é de brinde. E volte sempre que quiser. Toda sua simpatia e a simpatia da dona Laura compensam,  com sobras,  o rombo financeiro que acontece quando a cidade pára como hoje. Não se sinta culpado. Estamos acostumados a levar prejuízo, já que com qualquer chuvinha e a coisa é bem pior, acredite.

um grande abraço, já com saudades,  do seu amigo de sempre

Kassab

PS 1- Eu tentei agendar um recital na Sala São Pedro, mas o Lula falou que pegava bem você assistir a batucada dos Meninos do Morumbi. Desculpe pelo barulho. Aquilo é um tipo de música rudimentar que eles dão muito valor. Espero que você compreenda e dê um desconto. Afinal, foram vocês que inventaram o Carpenters e a gente não reclamou (brincadeirinha...).

PS 2- Que pena que você não pôde ficar mais um pouco. Poderíamos interditar o Ibirapuera inteiro para que você pudesse dar uma olhadinha na exposição da OCA sobre o corpo humano. Você deve ter visto um bocado de cadáveres no Iraque, mas a vantagem é que na exposição da OCA os mortos não cheiram mal...

PS 3- É verdade que seu pai tá catando a namorada do Super-Homem? (brincadeirinha de novo...)

Por Rafael Cortez às 10h42

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

Histórico