Blog do Rafael Cortez

09/04/2007

continuação - Breve reflexão sobre o desejo das pessoas serem artistas à partir do programa Ídolos

Há uma propaganda nociva em torno da vida encantada que teriam os artistas. Uma propaganda enganosa a respeito de um cotidiano dos sonhos, cheios de oba-obas e muitos namoros e transas... com muitas viagens e grana fácil com publicidade. É só essa parcela de coisas que procura ser retratada por todo um segmento de imprensa irresponsável, que vende horrores falando da vida alheia dos pop-stars, de modo que ao consumidor final só chegue o bem-bom de cada artista. Sei de jornalista que tem que omitir coisas escandalosas que sabe dos ´globais´... que o galã tal compra cocaína na favela... que a apresentadora X namora a cantora Y.... que o bonitão da novela está sem um puto no bolso, que o outro não tem trabalho há tempos, que ciclano tem AIDS e o outro é alcóolatra... e por aí vai...

 

Ao abrir todos os dias as revistas e só ver uns poucos sortudos se dando bem na TV, Teatro e Música, pq um cara comum vai querer manter uma vidinha chata de escritório? Se a vida dos artistas parece tão mais interessante, pq viver a minha, desse jeito? É o que passam a pensar tantas e tantas pessoas, desiludidas com um cotidiano que, de fato, deve ser um saco. Aí, basta ter um pouco de alguma coisinha que pareça chamar a atenção dos outros – uma voz? um belo corpo? um rostinho bonito? – e pronto: já temos mais um candidato a celebridade! E essa pessoa vai para os guetos bregas de artistas expoentes (e são tantos!) e para os produtos detestáveis da mídia:  para o BBB, de onde o povo sai querendo a Playboy ou um programa de auditório só para si... ou para o Ídolos, onde dá para virar um Leandro Pica-Pau (aliás, onde ele está agora?).

 

Conheço alguns artistas. Nem todos são artistas, porque – como eu já disse neste blog – ser artista exige uma verdade, um estado de espírito, um perfil seletivo, de criação verdadeira e agitação emocional interna. O que conheço, e é aos montes, são atores, atrizes, músicos... bem, generalizemos para elucidar o raciocínio: conheço muitos artistas. Praticamente nenhum deles tem uma vida de deslumbramento e facilidade. É tudo ralador, do mais simples ao amigo que tem contrato com a Rede Globo. E todo mundo se ferrou e ainda se ferra muito. Mas, ao menos, a maior parte dos que são mesmo meus amigos não passa pelo ridículo de serem ridículos no Ídolos.                                       

Por Rafael Cortez às 15h57

Breve reflexão sobre o desejo das pessoas serem artistas à partir do programa Ídolos

Sábado à noite eu assisti um pouco daquele programa detestável – mas um tanto risível! – que passa no SBT : Ídolos. Digo que ele é detestável porque se propôe a aliciar o sonho das pessoas iludidas, de modo que elas pensem (mesmo) que podem se transformar em novas celebridades do mundo pop-musical. E com toda aquela pompa que a mídia burra acredita que deva existir em torno dessas celebridades; ou seja – paparazzis em volta, fofocas idiotas, relacionamentos com modelos que só servem para posar para a Playboy,

revista Caras, etc, etc.

 

Por outro lado, digo que o programa Ídolos é risível porque ele, de fato, o é. Quer coisa mais patética do que aquele bando de gente idiota, sem a menor noção do ridículo, soltando o gogó na frente de jurados igualmente ridículos, mas com algum poder de veto? É um show de horror, mas diverte.

 

A maior parte das pessoas que vi no programa de sábado ficou surpresa quando recebia a reprovação ali, na lata, perante os jurados. É aí que mora o problema: o pior das pessoas ridículas é quando elas não sabem que são ridículas. Vi um monte de caras e de meninas ruins, ruins de doer, cantando coisas péssimas, xulas e carregadas de recursos caricatos de mau gosto: os garotos, com pouca voz, pouca afinação, talento zero... e apojaturas demais e a recorrente pose de modelos-gostosos. As garotas, com todas as coisas já citadas nos caras, mas com o agravante de posar de tchutchucas, com a insistinte rebolada das putas.

 

Eu baixo o nível quando falo de gente imbecil. Esse povo tem que se fuder mesmo. Os momentos mais legais do Ídolos ocorrem quando os candidatos que se encaixam neste padrão citado são bem esculhambados. E quando recebem um feedback de que são, sim, ridículos. Ruins, desastrosos, que não tem talento algum. É muito bom ver que alguém está dizendo uma verdade, mesmo que seja um dos jurados de Ídolos (que tbm são ridículos, pois se prestam ao papel idiota de iludir uma massa de gente com sonhos de um mercado ingrato, de mentira, outorgando-se poderes de decisão na vida desses bobos).

 

No entanto, é preocupante o que cada um dos excluídos diz à camera em seguida, nos comentários que fazem depois de serem rodados : são sempre vítimas. Nunca concordam com o que foi dito. Foram injustiçados. São profissionais do ramo musical. Todos tem mais de 15 anos de carreira. Os jurados é que estão errados.

 

É assustador ver gente sem nenhuma auto-crítica e nenhum bom-senso. O pior é que – como essa orla de gente ruim  não aprende nada sendo humilhada na frente do Brasil inteiro – não raro nós voltamos a lidar com eles. Pois os ruins sempre voltam e sempre resistem: seja em formações musicais com refrão xulo e pegajoso, seja na TV, seja onde for.  

 

Gosto muito das pessoas que brigam por seus sonhos. Isso pode ser contraditório perante tudo que eu disse, se a gente pensar que muita gente que vai se expôr no Ídolos está, justamente, brigando por seus sonhos. Mas me refiro às pessoas que fazem isso de modo sensato, com um mínimo de bom-senso. Uma pessoa correta, se quer mesmo alcançar seus objetivos, vai, no mínimo, procurar se conhecer primeiro. Se quer ser cantora, essa pessoa vai saber - antes de qualquer coisa – se tem talento para isso; se tem voz, se é afinada, se tem algum diferencial... ou se sabe reproduzir bem o que existe à sua volta. Não tendo o material necessário para se expôr e competir num mercado musical, a pessoa sensata vai fazer o caminho das pedras. Tortuoso, mas necessário. Vai estudar, vai aprender coisas, aprender a se ouvir, a ouvir os outros, a se reciclar. Depois de tudo isso, vai para os circuitos amadores. Vai trocar idéias e fazer as primeiras exposições da própria cara e da própria voz. Vai ouvir muito, colher os primeiros acertos e tomar as primeiras bordoadas. Depois de muito arroz e feijão – e de alguma garantia (sensata) de que pode dar um passo mais ousado – a figura pode dar mais a cara a tapa. Se ela for sensata o suficiente, isso significa não participar do Ídolos. Ou ela pode ir para o programa querendo um atalho para uma carreira que só decolaria muito mais tarde (ou nunca?)...            

 

O grande problema é que a maior parte das pessoas pensa na arte como uma ferramenta de colher, a curto prazo e sem nenhum esforço, grandes louros. A mídia bombardeia a gente com uma idéia falsa de que a vida de atores e músicos é uma delícia, regada a altos rangos na Ilha de Caras e festas com todo o elenco da Rede Globo na casa da Narcisa Tamboridegui, ou sei lá o que. E com muito pro-seco e o som de Fábio Assunção nas pickups! Deste modo ilusório, todo mundo quer ser artista, do mesmo modo que todo menino pequeno (e grande tbm) quer ser jogador de futebol. (CONTINUA) 

 

Por Rafael Cortez às 15h56

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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