Blog do Rafael Cortez

14/05/2007

Maysa

Ontem terminei de ler a biografia da cantora Maysa: “Só numa multidão de amores”, de Lira Neto. A obra faz jus a todas expectativas criadas em torno de seu lançamento: a editora Globo criou um clima especial, trazendo o livro no ano em que se completam 3 décadas da morte da cantora. Um blog foi criado pelo escritor. Nele, com constância, eram colocados trechos do livro e alguns relatos sobre a concepção do mesmo, com espaços para novidades, fotos e curiosidades que ficaram de fora do projeto final. Enfim, um monte de coisas que só despertaram mais e mais a vontade de ler logo o trabalho sobre Maysa. 

 

Quando o livro já estava pronto para ir às livrarias, um pilantra de marca maior furou o lançamento e mandou uma bomba para as prateleiras das livrarias. É o péssimo “Meu Mundo Caiu – a Bossa e a Fossa de Maysa”, do sofrível Eduardo Logullo. Ele se aproveitou do aniversário de 30 anos de morte de Maysa e “escreveu” essa obra, muito ruim... muito desprovida de pesquisa... muito autoral... muito chata! No livro, o cara toma o papel de escritor-poeta e, na falta do que dizer verdadeiramente sobre os episódios na vida da cantora, se mete a fazer combinações baratas de frases-feitas, falar dos olhos da cantora, da manhã que vai, da tardinha que cai, etc... ele chama isso de “jornada interpretativa”, e justifica seu uso como uma opção estética no tratamento da obra. Mas é clara e assumidamente uma forma de mascarar as muitas lacunas de sua pesquisa, por vezes preguiçosa, por vezes inexistente.

 

Foi preciso esperar um pouco mais para ver o excepcional livro de Lira Neto nas livrarias. Com obra ruim de Maysa furando o cronograma de lançamento da obra boa, só em abril é que a gente pôde, enfim, comprar o livro do Lira.

 

Confesso que me surpreendi muito com esse jornalista. Já li muitas biografias, é o que eu mais gosto de ler. Mas ele superou todas minhas expectativas. Não o conhecia, e isso torna a leitura mais desconfiada. Uma coisa é você pegar uma biografia que foi escrita pelo Ruy Castro ou Fernando Morais. Já se sabe quem são os caras e só espera coisa boa. E ai deles se fugirem às expectativas! É o que aconteceu, por ex, com o Sérgio Cabral, que escreveu a biografia da Nara Leão, minha maior musa. É ruim. Feita com pressa, com cara de quem quer acabar logo. Com uma editora sem-vergonha (a Lumiar) deixando o material cheio de erros graves e acabamento vagabundo. Uma decepção. Outra coisa é se deparar com um jornalista que você não conhece, predisposto a contar a história de uma vida inteira de alguém. Eu, ao menos, não conhecia esse Lira Neto. Ignorância minha, pois depois descobri que ele já trabalha bem há algum tempo. Buenas, mas ele já tinha minha simpatia desde que começou a responder meus posts no orkut, em sua página pessoal e na comunidade da Maysa...

 

É preciso ler a biografia da Maysa escrita por esse cara para entender o que eu digo. As críticas tem sido unânimes em apontar o livro como um trabalho primoroso. A obra já figura na lista das mais vendidas nas livrarias, e merece esse luxo. O jornalista não teve preguiça nenhuma em fazer a apuração dos fatos, e traz pesquisas minuciosas sobre a vida dessa cantora excepcional. Nem que, para isso, tenha de publicar as versões que contradizem uma mesma história (ao contrário de entender uma como certa e dá-la logo ao leitor). Fora que ele escreve muito bem. Tem uma maneira impressionante de ser claro, objetivo, emocionado e imparcial quando bem quer. Conhece a língua portuguesa muito bem. Sabe conduzir o leitor às histórias que apresenta. Faz suspense sem ser brega e consegue fazer chorar sem ser meloso. Grande cara!

   

Biografia é um alento. É um meio de ver uma vida inteira passar diante de seus olhos, numa questão de dias, semanas ou horas. Lendo sobre a vida inteira de uma outra pessoa, torna-se possível ver que determinadas coisas chatas que acontecem na nossa própria vida não ganharão mais que um capítulo no relato de nossa vida inteira. Se hoje a gente vive perrengues mil, com coisas que a gente detesta, ou dificuldades que parecem insuportáveis, isso é reflexo de uma fase em que a vida ESTÁ SENDO, e não como reflexo do que uma vida É. Eu costumava falar muito disso para minha prima Claudia, por ex. Mas, às vezes, a gente só tem a dimensão dessa verdade quando lê biografias e mais biografias.

 

A história de Maysa é excepcional. Dói demais ver como ela sofreu com tanta coisa, mas dói ainda mais pensar que não há mais espaço para personalidades fortes e genuínas como Maysa. O que ela faria nos dias de hoje, se estivesse viva? O que ela faria em um meio onde as individualidades sucumbem à padronização chata e idiota dos meios de comunicação - e onde artistas como ela, cheia de espírito, livre, artista!, precisam sempre de jabás e prostituições para sobreviver? Neste sentido a vida foi sábia. Nos levou a maior cantora do Brasil enquanto ainda era grande, mesmo com as adversidades que enfrentava. Ficará grande sempre, como acontece com quem morre sem definhar em si mesmo.

Por Rafael Cortez às 12h04

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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