Blog do Rafael Cortez

02/06/2007

Casamento desfeito

Deixar um grupo de teatro onde se trabalhou tanto é como encerrar um casamento. Quem já passou por isso sabe, e eu – em outras ocasiões – vi amigos saindo de trabalhos, vi parcerias desfeitas e a mágoa que fica de um lado e de outro. Dessa vez aconteceu comigo.

 

Posso dizer que foi muito, muito bom por um lado. Eu era uma pessoa antes de fazer as peças que fiz com meu ex-grupo. Foi possível ganhar muita experiência, conhecer pessoas intensas, outras maravilhosas, outras muito neuróticas... Mas ninguém passou batido. Pisei em palcos que eu não imaginava. Percorri lugares por onde não me via passando. Viajei, trabalhei muito, muito e muito. Superei limites que eu duvidava e vi em mim uma potência grande de coisas legais, criativas e que transcendem uma porrada de coisas. E ganhei grana, dei muita risada, percorri muito chão.

 

Por outro lado, me deparei com uma linguagem que questionei muito, do começo ao fim. Tive que aprender a lidar com as diferenças de estilo e de pensamento. E assim segui até perceber que eu não sei lidar tão bem quanto eu gostaria.

 

Eles me deram muita coisa, mas eu ofereci muitas outras para os trabalhos também.       

 

Descobri com esses trabalhos e com o grupo que os conduz, que o teatro pode ou não ser um bicho de sete cabeças. Depende de como se lida com ele, e em qual aspecto.

 

Foi surpreendente descobrir como eu posso fazer, sim, uma mesma peça 165 vezes, descobrindo uma coisa nova a cada dia. Foi bom demais estrear um espetáculo provando para mim mesmo que eu conseguia chegar até seu final sem ter saído do palco uma única vez para um único gole d`água. Foi bom sacar que o limite está na nossa cabeça, e não no corpo. Que é possível “morrer” em cena, para fazer uma cena viver intensamente. Você se fode, dorme exausto e fica zoado por dias... mas faz o espetáculo.

 

Depois, foi legal perceber como pude, sim, fazer parte de um processo exaustivo e contínuo de nascimento de espetáculo. Foi bom ver de perto tudo que possibilitou que um novo trabalho esteja aí, e fique pelo tempo que for. Ele leva o meu nome também. 

 

Carrego muita coisa disso tudo. Mas quero, agora, dar segmento ao teatro que eu acredito. Acredito em mais prazer do que disciplina. Acredito mais em teatro que interage inteligentemente com seu público do que no teatro que tem virtuosismos técnicos de montes. Quero fazer menos coisas ao mesmo tempo numa peça, para gastar este mesmo tempo olhando mais no olho e gostando mais de quem me vê e de quem contracena comigo. Não quero o teatro que nasce da exaustão física. Não quero o teatro técnico, com partituras corporais escancaradas e em regências teatrais repletas de exigências, se isso não fizer sentido para o ator. Se não fizer sentido para mim, como eu vou convencer quem me assiste?

 

Acima de tudo, agora, quero trabalhar feliz. Levando comigo, com gratidão e carinho, o que eu acumulei em 3 anos de convívio com duas grandes peças e uma turma de parceiros. Ainda que, no final de tudo, os parceiros se desliguem magoados.

Por Rafael Cortez às 19h46

Argh!

Até agora, em 2007, tivemos 21 finais de semana. Com este agora, o primeiro de junho, são 22. E, contando com o dia de hoje, sábado, tivemos 160 dias já corridos. Destes, trabalhei em 19 finais de semana completos. E, dos 160 dias do ano, trabalhei exatos 154 dias. Meu último dia sem NADA para fazer mesmo, pra poder ficar de papo pro ar, pensando só em ir a um cinema ou preencher o dia todo com lazer, foi a quarta de cinzas do carnaval. Todos os demais dias, incluindo feriados, todos, eu trabalhei. E, em muitos dias, fiz jornada dupla. Duas sessões de teatro, uma de cada peça. Ou tripla: ensaio, peça e trabalho para a Abril em casa, depois. Caracas!!!

 

Agora minha vida aponta para um ritmo mais tranqüilo. Saí do grupo de teatro, não faço e nem farei mais as peças que fazia com eles. Trabalho de casa para a Abril Digital. Posso organizar bem minhas entregas e cronogramas, a ponto de ter dias de folga e os finais de semana de volta para mim.

 

Mas eu não consigo ficar “calmo”, ou normal. Já me meti em um monte de coisas novas. De integrante de duo de contadores de história a ator de áudio-livros. Já quero marcar um recital de violão novo, tocar o CD que tava meio parado, freelar para Deus e o mundo e fazer teatro-empresa aos montes. E, em breve, reunir meus poemas, tentar escrever um livro e integrar outro grupo teatral. Antes disso, quero viajar pra perto, pra mais ou menos perto e pra bem longe! Quero tudo ao mesmo tempo e agora, e em intensidades diversas! Por quê eu não sossego o facho???

 

Nisso, a idéia de conhecer minha futura esposa e ser o pai da Nara, que um dia nascerá do meu sangue, fica cada vez mais distante...

              

Por Rafael Cortez às 19h45

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

Histórico