Blog do Rafael Cortez

11/08/2007

Apresentação

Ontem me apresentei na Paidéia, em Santo Amaro. Foi a primeira vez em que acompanhei ao violão a contadora de histórias e escritora Rosane Pamplona. Ela é mãe da Manô, uma das minhas melhores amigas. Só por isso já tem muito crédito. Ah, pesa muito o fato de que ela é boa no que faz. Logo, o duo começou bem.

 

O engraçado é que a gente teve dois encontros apenas. Um na segunda que passou, onde toquei umas coisas para ela e ela me contou o que queria fazer na apresentação... outro na quinta, quando – sem combinarmos nada – resolvemos fazer um corrido, na intuição mesmo, para ver no que dava. E foi aí que a coisa rolou bem.

 

E ontem a gente se apresentou juntos, pela primeira vez e depois de apenas 2 encontros. E fluiu bem, com jogo, com sensibilidade. Parecíamos ter ensaiado bem mais, ou sermos parceiros há mais tempo.

 

O trabalho com ela é bem diferente do trabalho que eu realizava com a Alejandra Pinel. A Alê não é só contadora de histórias. É atriz também. Logo, resolvemos fazer um duo de contadores onde as histórias caminhavam por veias mais teatrais. Interpretávamos as histórias, cada um em um personagem, e quase tudo de improviso. Ela deixou a boneca de ventriloquia e eu larguei o violão nesse duo. Teríamos ido mais longe se optássemos por continuar trabalhando juntos, mas fomos sensatos e vimos que não dava mais, por “ene” motivos.

 

No trabalho de ontem, “Uma Noite na África”, a Rosane contava histórias envolvendo entidades africanas. E eu acompanhava tudo no violão, intercalando temas instrumentais (não africanos) entre um conto e outro. E mandando uns improvisos em trechos diversos da narrativa.

 

O barato de acompanhar contadores de história é sacar onde e como se torna possível jogar um acorde, um arpejo ou um trecho de música. E qual trecho casa melhor com a passagem X ou Y da história. Em geral, quando a coisa é ensaiada demais, fica “fake”, marcadinho, mas sem verdade. Com o violão eu acredito 100% na intuição, no que nasce espontaneamente. Sou bem mais o que rola na raça, no “façamos!” do que o que rola depois de mil combinados. É preciso que existam esses tais combinados, mas em momentos pontuais. E acerca do que serve ou não para o que se propõe casar com o violão. O resto tem que ser verdadeiro, e é um barato quando de fato o é.

 

Ontem aconteceu uma coisa especial quando a gente começou a apresentação. Tocaram os três sinais – e eu sinto uma saudade louca de ouvir mais vezes os três sinais! – e a platéia ficou naquele silêncio sepulcral. Eu tinha que entrar primeiro que a Rosane e tocar uma música sozinho. E, sem que eu tivesse pensado em nada, fui pela lateral do palco bem devagar. Andei muito lentamente, contornado um tecido que colocaram no centro do palco. O violão estava abraçado comigo na altura dos ombros. Sentei na minha cadeira ainda mais vagarosamente, ajeitei o instrumento na perna e, sem avisar nada com a minha respiração ou qualquer acorde preliminar, comecei a tocar. E ali, naquele momento, senti uma energia boa, forte, e admirei que a música estivesse tão bonita. Foi então que eu lembrei que estava em um desses belos momentos em que, através da arte, você pode fazer parte de uma esfera elevada de pensamento, com tantos espíritos de luz ao lado, te dando suporte e energia. 

Por Rafael Cortez às 13h06

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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