Blog do Rafael Cortez

12/09/2007

Nara Leão

 

Quem me conhece sabe que eu sou muito fã da cantora Nara Leão. E que, desde a adolescência, tenho arroubos de paixonite crônica e enlaces amorosos “in memoriam” com ela. Que todo dia 19 de janeiro, penso que seria lindo se ela completasse aniversário viva. E que todo dia 07 de junho pra mim é um pouco mais triste, por ser o aniversário de morte da musa.

Pobre Nara. Na biografia dela – (mal) escrita pelo Sérgio Cabral – a gente fica sabendo que ela era toda preocupada com tudo. Não queria ser rotulada – nem como cantora, nem como nada. No começo, nem cantora queria ser. Pintava, tinha um pé no teatro e uma vontade de ser montadora de filmes. Quando já era famosa e consagrada, decidiu que queria ser psicóloga. Depois, se convenceu que queria ser cantora mesmo. Mas antes, passou pelo jornalismo, cinema, tv, foi modelo, mãe, o caralho a quatro.   

Ela era toda saudável. Nunca bebia nada alcoólico, e evitava gorduras e porcarias. Mal comia carne. Corria todo dia – com chuva ou sol – na Avenida Nossa Senhora de Copacabana. Fazia exercícios e era adepta da homeopatia. Com apenas 37 anos, descobriu que tinha uma merda de um tumor no cérebro e brigou 10 anos para viver. Não resistiu. Ou melhor, resistiu bravamente! Viveu produtivamente por muito mais tempo do que esperavam. Teve uma sobrevida de, pelo menos, seis anos.

A vida tem dessas coisas. Leva uma artista como a Nara e deixa um monte de porcaria viva para a gente consumir. Não me incomoda o fato de muita gente não gostar da Nara como cantora. Conheci um preparador corporal na Quatro na Trilha, o Samir, que a detestava. E vinha dividir isso comigo.

Eu mesmo sei que muita coisa que ela gravou é muito ruim. Tem umas três faixas dela no disco Romance Popular, de 1981, que eu nunca ouço. Não dá. E sei de umas faixas de seus discos de início onde é constrangedor ver como ela não consegue sustentar algumas notas musicais. E onde desafina. Ruim mesmo.   

Mas tem uma coisa: a Nara fez muito mais coisas boas que ruins. Em um contexto onde vemos os artistas levando vidas produtivas medianas, ver uma cantora com mais altos que baixos em uma carreira de quase 30 anos é uma dádiva.

Não podemos comparar a presença cênica da Nara com uma Bethânia, que é a maior cantora viva da nossa música. Para mim, depois da Maysa, a Bethânia é a maior artista que a MPB já conheceu. A Nara era intimista, ruim de rebolado em cena. A Bethânia entra no palco e dá show de presença, carisma e talento. Ela é de teatro. A Nara tinha voz pequena (apesar de dizer que podia quebrar janelas com seu agudo), enquanto a Bethânia é o próprio carcará. Mas a Nara ainda é a única cantora que te embala gostoso quando está escuro e você quer dormir acalantado.

E tem outra coisa: a gente não julga artistas exclusivamente pelo que fazem em cena. Não se pode analisar uma cantora ou um ator apenas pelo quanto rendem nos estúdios ou no palco. O bom artista é resultado de cabeça, engajamento e responsabilidade social, apesar do imbecil do Cauã Reymond (que não é artista) dizer que não pode opinar sobre coisas que transcendem a atuação – afinal, ele é só ator. Ator?

A Nara foi uma das artistas mais responsáveis que já tivemos. Primeiro, porque se respeitava acima de tudo. Não queria fazer parte de modismos, apesar de ter sido rotulada “musa da bossa-nova”. Dizia e fazia o que queria, ia e voltava, estava comprometida com seu próprio bom-senso. Dava declarações inteligentes. Pensava no que ia falar, e não se intimidava com censuras e idiotices alheias. Ela tinha caráter. E ter comprometimento com o próprio bom-senso, ter caráter, é tudo quando se é artista. Isso é o que impede que a pessoa se deixe levar pelo ridículo de posar no castelo de Caras ou mande a filha de 9 anos aparecer em capa de revista comemorando aniversário “ralando o tchan”. Isso é ter responsabilidade social. Ser formador de opinião. Semear valores e coisas inteligentes para colher.

Ontem à noite dormi ouvindo “Meu Primeiro Amor”, o disco infantil da Nara, de 75. Agora ela está cantando “Pedro Pedreiro”, do Chico, do disco “Pede Passagem”, de 65. Ela vai continuar cantando muitas coisas para mim ao longo da vida. Como retribuição, eu vou tocar muitas coisas bonitas em homenagem a ela, ao longo dos anos, como maneira de dizer o quanto a amo.

Por Rafael Cortez às 10h44

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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