Blog do Rafael Cortez

19/10/2007

O gostar triste

Vai passar um especial sobre a Nara Leão na Globo, dia 26.

A atriz que fará o papel da Nara é a Pérola Faria, uma menina jeitosinha e esforçada.

Mas...

Será que ela tem dimensão do papel que carrega? Será?

Tem que ver pra crer.

 

E quem é fã de Nara, como eu, conta os dias quando sabe que alguma coisa sobre “a musa” será passada na TV. O gostar de Nara é quase triste de tão profundo. Quem gosta mesmo – e não é pouca gente – compartilha de um saudosismo, de um sentimento de perda de identidade e de perda de alguém da família na figura hoje ausente da cantora.

 

Acho que quem gosta da Nara é, isso sim, um privilegiado.  

Por Rafael Cortez às 23h42

15/10/2007

 

Três coisas foram muito marcantes nesse feriado. A princípio, elas podem parecer não ter muita relação entre si. Mas todas apontam para uma mesma reflexão.

 

Na sexta, dia 12, morreu o Paulo Autran. No sábado, dia 13, jantei com a Manô e uns amigos na casa do Vicente Barreto, o compositor. Ontem, domingo, eu e a Lia fomos ver “Piaf” no cinema.

 

Entre esses três episódios há o amor pela arte como elo. Há um louco e profundo amor por teatro, música e palco, sucessivamente.

 

Tudo que já foi dito sobre o Paulo Autran ainda é pouco para ilustrar o que sua partida significa. Tratava-se de um cara em extinção, praticamente. Um homem que amou o teatro com brilho nos olhos o tempo todo. E que não fez concessões para viver disso. Podia ter enveredado para a TV e ganhar mais dinheiro e popularidade. Não fez. Podia ter levado uma vida burra e chata como advogado. Preferiu ser ator. Colocou a própria saúde em risco muitas vezes para dar vida a personagens que vinham, em primeiro lugar, para atender seus próprios prazeres. Gozava dessa alegria imensa que deve ser fazer teatro de portas abertas, com mecenas, equipes e todos os recursos à mão. Por merecimento, e não por sorte ou politicagem. Porque ele era, antes de tudo, um apaixonado por teatro. Ele merecia tudo e ainda mais porque se movimentava em nome desse amor explosivo por palcos, coxias e cortinas. E olha... num contexto onde as pessoas fazem teatro por vaidade/ grana/ como forma de terapia/ etc/ etc/ etc, ter alguém legitimamente apaixonado no tablado é coisa rara!

 

Eu já falei outras vezes sobre o excesso de atores e atrizes... quando faltam tantos artistas. O Paulo Autran era coisa mais rara ainda, pois era ator e artista. Tem pouca gente como ele, entre as quais eu lembro do meu irmão – sendo que ele trabalhou com o Paulo e o descreveu com tanta admiração e carinho; de modo que a partida do maior ator do Brasil me fez pensar que quase perdi alguém da minha família...

 

O jantar na casa do Vicente Barreto foi uma grata surpresa. A Manô está com um amorzinho novo, que é filho do cara – chama Rafa também e é um doce de pessoa. E ela armou um mega-jantar para poucos na casa dele, onde o casal é que pilotou panelas (com maestria, por sinal). Cheguei lá e fiquei sabendo que o dono da casa era o Vicente Barreto. E, lá pelas tantas, sentamos e proseamos por um bom tempo. Fiquei admirado de conhecer um cara tão simpático e atencioso. E feliz de notar sua paixão pela música. Ele recebeu todo mundo e conversou com todos... mas sempre com um olho na TV, onde passava um DVD com um show em homenagem ao maestro Moacir Santos. E só dava o Vicente fazendo escalinhas com a mão e assobiando junto a melodia. O momento mais bonito, para mim, foi quando ele contou da alegria que teve ao saber que a Bethânia gravaria uma música sua. Os olhos dele se encheram de água e ele ficou como um menino. O que é isso, a não ser paixão?

 

E ontem teve o filme da Edith Piaf. Não é de hoje que sou louco por ela. Até porque, ser louco por Edith Piaf é uma premissa do artista. O bom-senso dita que gostar dessa cantora é parte integrante do nosso conhecimento musical-teatral-artístico. Porque ela foi a maior. Só por isso, entende?

 

Como cantava essa mulher. E como ela o fazia bem, de um modo que ninguém mais faz. Não se trata de técnica, mas de alma. Coisa que poucas pessoas tem hoje em dia. Arrisco dizer que a Bethânia é a nossa Piaf, e uma das últimas representantes de uma espécie rara de artista visceral.

 

Que vida trágica a Piaf teve! É o que mais se destaca no filme, e por uma opção arriscada do diretor. Mas vale enfatizar – e o filme enfatiza – que a música estava acima das dores da Piaf; acima de qualquer tragédia pessoal. Isso também é paixão. Assim como o é a magnífica interpretação da atriz Marion Cotillard. Não se faz o que ele fez sem amar profundamente o exercício da interpretação e seu personagem.

 

Enfim... esses três episódios mexeram muito comigo. Tanto que acordei hoje mais introspectivo que o normal... com mais medo de perder essas referências... quem vai ocupar o posto deixado pelo Paulo Autran, por exemplo?

 

No entanto, eu me dei conta de uma coisa: se houver esse amor legítimo pelo que é feito, muitos anjos da guarda nos acompanharão. Eles tratarão de nos colocar nos rumos certos, ao lado de nossa própria persistência e talento, desde que tenhamos sentimentos nobres e legítimos. É o nosso diferencial. Para mim é isso, completamente. Não pode ser da boca pra fora. Tem que ser visceral, como é o Léo. Como eu sinto que sou muitas vezes. Como foi tanta gente boa que se foi e como é tanta gente que esta aí. E que se foda o sistema e tanta galera medíocre que nele está.

Por Rafael Cortez às 12h41

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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