Vai passar um especial sobre a Nara Leão na Globo, dia 26. A atriz que fará o papel da Nara é a Pérola Faria, uma menina jeitosinha e esforçada. Mas... Será que ela tem dimensão do papel que carrega? Será? Tem que ver pra crer. E quem é fã de Nara, como eu, conta os dias quando sabe que alguma coisa sobre “a musa” será passada na TV. O gostar de Nara é quase triste de tão profundo. Quem gosta mesmo – e não é pouca gente – compartilha de um saudosismo, de um sentimento de perda de identidade e de perda de alguém da família na figura hoje ausente da cantora. Acho que quem gosta da Nara é, isso sim, um privilegiado.
Por Rafael Cortez às 23h42
Três coisas foram muito marcantes nesse feriado. A princípio, elas podem parecer não ter muita relação entre si. Mas todas apontam para uma mesma reflexão.
Na sexta, dia 12, morreu o Paulo Autran. No sábado, dia 13, jantei com a Manô e uns amigos na casa do Vicente Barreto, o compositor. Ontem, domingo, eu e a Lia fomos ver “Piaf” no cinema.
Entre esses três episódios há o amor pela arte como elo. Há um louco e profundo amor por teatro, música e palco, sucessivamente.
Tudo que já foi dito sobre o Paulo Autran ainda é pouco para ilustrar o que sua partida significa. Tratava-se de um cara em extinção, praticamente. Um homem que amou o teatro com brilho nos olhos o tempo todo. E que não fez concessões para viver disso. Podia ter enveredado para a TV e ganhar mais dinheiro e popularidade. Não fez. Podia ter levado uma vida burra e chata como advogado. Preferiu ser ator. Colocou a própria saúde em risco muitas vezes para dar vida a personagens que vinham, em primeiro lugar, para atender seus próprios prazeres. Gozava dessa alegria imensa que deve ser fazer teatro de portas abertas, com mecenas, equipes e todos os recursos à mão. Por merecimento, e não por sorte ou politicagem. Porque ele era, antes de tudo, um apaixonado por teatro. Ele merecia tudo e ainda mais porque se movimentava em nome desse amor explosivo por palcos, coxias e cortinas. E olha... num contexto onde as pessoas fazem teatro por vaidade/ grana/ como forma de terapia/ etc/ etc/ etc, ter alguém legitimamente apaixonado no tablado é coisa rara!
Eu já falei outras vezes sobre o excesso de atores e atrizes... quando faltam tantos artistas. O Paulo Autran era coisa mais rara ainda, pois era ator e artista. Tem pouca gente como ele, entre as quais eu lembro do meu irmão – sendo que ele trabalhou com o Paulo e o descreveu com tanta admiração e carinho; de modo que a partida do maior ator do Brasil me fez pensar que quase perdi alguém da minha família...
O jantar na casa do Vicente Barreto foi uma grata surpresa. A Manô está com um amorzinho novo, que é filho do cara – chama Rafa também e é um doce de pessoa. E ela armou um mega-jantar para poucos na casa dele, onde o casal é que pilotou panelas (com maestria, por sinal). Cheguei lá e fiquei sabendo que o dono da casa era o Vicente Barreto. E, lá pelas tantas, sentamos e proseamos por um bom tempo. Fiquei admirado de conhecer um cara tão simpático e atencioso. E feliz de notar sua paixão pela música. Ele recebeu todo mundo e conversou com todos... mas sempre com um olho na TV, onde passava um DVD com um show em homenagem ao maestro Moacir Santos. E só dava o Vicente fazendo escalinhas com a mão e assobiando junto a melodia. O momento mais bonito, para mim, foi quando ele contou da alegria que teve ao saber que a Bethânia gravaria uma música sua. Os olhos dele se encheram de água e ele ficou como um menino. O que é isso, a não ser paixão?
E ontem teve o filme da Edith Piaf. Não é de hoje que sou louco por ela. Até porque, ser louco por Edith Piaf é uma premissa do artista. O bom-senso dita que gostar dessa cantora é parte integrante do nosso conhecimento musical-teatral-artístico. Porque ela foi a maior. Só por isso, entende?
Como cantava essa mulher. E como ela o fazia bem, de um modo que ninguém mais faz. Não se trata de técnica, mas de alma. Coisa que poucas pessoas tem hoje
Que vida trágica a Piaf teve! É o que mais se destaca no filme, e por uma opção arriscada do diretor. Mas vale enfatizar – e o filme enfatiza – que a música estava acima das dores da Piaf; acima de qualquer tragédia pessoal. Isso também é paixão. Assim como o é a magnífica interpretação da atriz Marion Cotillard. Não se faz o que ele fez sem amar profundamente o exercício da interpretação e seu personagem.
Enfim... esses três episódios mexeram muito comigo. Tanto que acordei hoje mais introspectivo que o normal... com mais medo de perder essas referências... quem vai ocupar o posto deixado pelo Paulo Autran, por exemplo?
No entanto, eu me dei conta de uma coisa: se houver esse amor legítimo pelo que é feito, muitos anjos da guarda nos acompanharão. Eles tratarão de nos colocar nos rumos certos, ao lado de nossa própria persistência e talento, desde que tenhamos sentimentos nobres e legítimos. É o nosso diferencial. Para mim é isso, completamente. Não pode ser da boca pra fora. Tem que ser visceral, como é o Léo. Como eu sinto que sou muitas vezes. Como foi tanta gente boa que se foi e como é tanta gente que esta aí. E que se foda o sistema e tanta galera medíocre que nele está.
Por Rafael Cortez às 12h41
Rafael Cortez, 32 anos, ator, jornalista e violonista.
Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.
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