Blog do Rafael Cortez

23/10/2007

Gravação de Comercial - Final

Finalizando, foi só depois de 11 horas que entrei no estúdio para gravar alguma coisa. Nisso, me pediram para ficar vestido de jovem. Fiquei feliz, pois significa que devem me achar bonito... Meu papel foi o de ficar numa fila com outros pseudo-jovens. Andávamos até o balcão e lá recebíamos uma bandeja com um lanche, dada por uma sorridente atriz feia vestida de funcionária. Esse momento até que foi engraçado. Quando gritavam “gravando!”, alguém da equipe soltava uma ópera! Sim, uma ópera! Naquele contexto, com as pessoas exaustas fazendo um trabalho burro, parecia um campo nazista – onde os judeus eram recebidos ao som de Strauss, por capricho e crueldade de diretores da SS.

 

Além da ópera, que encobria todas as vozes, não havia captação de áudio. Exceto uma ou outra fala, dada sempre por um modelo tapado, e nunca por um ator. Isso obrigava a equipe a repetir mil vezes cada cena e estender ainda mais a espera de todos. Um simples pedido de hambúrguer virava uma epopéia. Vi o diretor dar uísque para um cara de uns 28 anos que era muito ruim, mas extremamente bonito. Ele só conseguiu fazer a fala depois de uma boa dose, e ainda assim o fez mal. E todo mundo vendo, que chato... 

 

Os figurantes podiam falar e fazer o que quisessem entre si durante a gravação da cena. Eu, que era um deles (apesar da minha briga para NUNCA fazer figuração), chutei o pau. Quem assistir ao comercial com atenção talvez perceba o quanto um rapaz da fila do balcão ri de modo destemperado. Ou perceba que há alguém tendo espasmos ao morder a batata. E, se fosse possível ter acesso a um áudio eficaz, assuntos como gonorréia, as idiossincrasias e o niilismo alemão seriam ouvidos.

 

Quinze horas depois, fomos todos dispensados. Gravei ainda outra cena como figurante. Nela, apareço muito ao fundo de um grupo de adolescentes lindos e idiotas. Como batatas e gargalho como um alucinado. Isso não era mais interpretação. Já estava meio louco, e as batatas murchas de um dia todo de estúdio criaram uma química sinistra no meu cérebro. Ainda mais com a Coca-Cola quente e sem gás. Não vou esquecer de uma atriz sentada na mesa do lado. Nas gravações, ela colocava uma mão no queixo e comia suas batatas tristes como se soubesse que morreria dali à uma hora. Ríamos muito disso, ela e eu.

 

Antes de ir embora, serviram um jantar daqueles. Comi ainda mais e quase fiz um marmitex, mas me contive. Voltei para casa exausto e indignado. Quinze horas disponível para duas figurações e pouco mais de 200 reais no bolso daqui a um mês (o valor deve aumentar um pouco por conta das horas adicionais. Êêêê!!!).

 

Jurei a mim mesmo – e reitero isso aqui – que nunca mais trabalharei para essa produtora e para esse cliente. Mais ainda: que nunca mais vou me submeter a qualquer tipo de trabalho em condições parecidas. E que, ao contrário do que fazem os atores como eu, vou cumprir isso. Ah, se vou.

 

Enfim... ainda que eu seja radical e até perca algum dinheiro ou oportunidade com isso, vcs acham mesmo que alguém vai se importar? Se eu não quero, muitos outros querem. Se eu dispenso, muitos outros aceitarão. E assim vão os atores, cada vez mais humilhados, cada vez mais submissos, ganhando mal mas curtindo a comida, reclamando agora para aceitar sorrindo depois.  

 

Por Rafael Cortez às 14h20

Gravação de Comercial - parte 02

É preciso fazer uma pausa na descrição desse dia para contar uma coisa: como as pessoas se rendem facilmente por comida!

 

Não é de hoje que os sets de filmagem são lotados de comidinhas, bebidas, guloseimas, etc... e que lá são servidos almoços e jantares deliciosos! E não só nos meios de gravação a comida serve como estímulo essencial. Pode notar que todo mundo que vai a essas chatíssimas convenções empresariais só espera pela hora do coffe-break. E este deve ser farto, para agradar ao estômago e causar uma boa impressão. E as pessoas vão embora dos lugares dizendo que foi tudo sacal, chato, uma bosta... bem, mas o rango era irado!!!

 

Na gravação de ontem não faltava comida. Acho que engordei uns dois quilos nessa brincadeira. Como havia ócio demais para a maioria, restava comer, ler ou ver TV. Revi “Tropa de Elite” e “Os Simpsons – O Filme”. Ambos em cópias piratas, exibidos com o consentimento de uma produtora de filmes publicitários e cinematográficos. Pode?

 

Logo após enchermos o bucho no café da manhã, todos fomos à sala de figurinos. Lá, houve uma seleção por tipos físicos. Se vc é bonito, roupa de jovem: esporte, leve. Se vc é meio velho, roupa de executivo: calca social, camisa e gravata. Se vc é feio, roupa de funcionário do fast-food. E “passe a mão na brejaúva”! 

 

Uma vez vestidos todos voltamos à sala de espera. A cada duas horas, mais ou menos, uma pessoa da equipe de produção entrava lá e fazia uma escolha a dedo: vem vc, vc e mais vc. E os levava ao estúdio. Não que isso significasse que vc iria gravar... uma vez dentro do estúdio, eram as figurinistas, o produtor, os assistentes e o próprio diretor os responsáveis por determinar se vc serviria ou não para a cena. E os critérios para isso se apegam no mesmo princípio: quem é mais bonito, fica. Que não é, sai. Ou vai ser figurante.

 

Eu mesmo dei sorte e entrei na primeira gravação do dia. Sentei numa mesa com duas garotas lindas e muito maquiadas. Já estranhei, porque ninguém tinha me maquiado e elas eram bem mais bonitas que eu. E estávamos em primeiro plano! Garantia de cachê melhor!

 

Bem, não demorou muito e a figurinista implicou com a minha gravata. Um assistente chamou a atenção para as minhas olheiras. Troquei de gravata. Implicaram com a gola da minha camisa. Em seguida, entrou um garoto lindo, quase de cera, e ele sentou no meu lugar. Fui trocado por um modelo e voltei para a sala de espera. Humilhante.

 

Umas 4 horas depois, me pediram para ir ao estúdio. Eu e mais 8 caras vestidos de executivo. O diretor em pessoa – um homem com jeito pedante, como sempre – veio até nós e fez uma seleção de dedo, sem olhar muito na nossa cara: quero ele, esse, aquele, ele e mais o outro. Eu não entrei. Foi um pouco mais humilhante e sinistro. Por um momento, me lembrou um campo de prisioneiros. Um cara arrogante seleciona os que vão comer. Os que rodam podem ir para os trabalhos forçados.

 

Rolou um puta almoço lá pelas 15 horas. A essa altura do campeonato, já foi possível conhecer algumas pessoas e ouvir suas mesmas reclamações: isso é um absurdo, esse esquema é uma bosta, eu tenho uma carreira a ser respeitada, vou chutar o pau, etc, etc, etc... mas todos se calaram com comida e foram cordialmente degustar de parte da remuneração do dia.

 

Passaram-se exatas 11 horas do dia e eu não tinha feito nada. Não só eu. Das cerca de 40 pessoas presentes, umas 10 ou 8 gravavam muito tempo no estúdio. Às demais, só cabia esperar, ver filmes, dormir, comer ou reclamar. A maior parte preferiu reclamar.

 

Conheci umas mulheres lindas. As lolitinhas maravilhosas que a gente só quer comer. Mas que abrem a boca e vc pede trégua. Não tem nada na cabeça, o que é natural da idade. A isso, some-se um deslumbre excessivo com a carreira de atriz e modelo de publicidade. Um porre. Em torno delas, sempre havia um grupo de caras. E na publicidade, sempre existem os “cabeças” do grupo: os caras divertidos, que zoam os outros, fazem o jogo dos contentes e dão risada para as produtoras – para, em seguida, reclamar delas e do trabalho como os outros. São uns “fanfarrões”, como diria o capitão Nascimento, de Tropa de Elite.

 

Eu poucas vezes me senti tão fora de um grupo social. Perguntei-me muitas vezes o que fazia ali, com aquela gente tão diferente (e ao mesmo tempo tão parecida). Tentei bater uns papos aqui e ali, mas muitas vezes desisti. Levei “A Vida Como Ela É”, do Nelson Rodrigues. Li a Veja, os jornais, cochilei e escrevi um poema. Mas fiquei de olho em tudo, me perguntando o que querem essas pessoas, por que elas são assim, por que todo mundo topa isso, e por que tem tanta gente atrás de um conto de fadas moderno. Certamente nisso mora um problema sério de valores e de consistência. Um sério desapego com paixões fundamentais pela arte e por si mesmo. A vaidade burra pela vaidade, e olhe lá. (CONTINUA)

Por Rafael Cortez às 14h19

Gravação de comercial - parte 01

Quero relatar uma experiência que tive ontem e que dá vazão a uma série de reflexões.

 

Bem, alguns de vcs que lêem meu blog sabem que estou fazendo incursões na área de TV... que comecei a fazer mais testes, que tenho participado do Canal Ideal, que gravei um viral, blá, blá, blá.

 

Ok, o que ocorre é que ontem gravei um comercial para uma grande rede de fast-food. Não vou citar o nome do cliente e nem da produtora que viabilizou tudo. Por questões éticas. Mas vou te contar... foi foda!

 

O pior que um ator pode fazer na vida está ligado, logicamente, à publicidade. É um meio mesquinho e vazio para quem faz teatro, por exemplo. Não tem nada pior que a hipocrisia das conversas, do que o “puxa-saquismo” constante que se deve fazer com produtoras de casting, diretores, etc. Fora o contato com os “colegas” e o vazio da relação com aquele bando de modelos e atores com não sei quantos anos de carreira. Sim, porque nas salas de teste das produtoras e nos sets de gravações, sempre se torna possível descobrir que fulano e cicrano ao lado (que vc nunca viu mais gordo) tem, sempre, uns 10 anos de carreira e uma puta experiência nessa área. É nesses locais que se faz a mais descarada e infundada promoção pessoal.

 

Buenas, fiz um teste quinta-feira passada. Não recebi cachê-teste, o que é errado e já deu uma brochada... mas vamos em frente. O teste até que foi sossegado e sem muito mico para pagar. Já fiz testes onde tinha de dançar freneticamente ou discutir com o Detecta, da Telefônica. Em geral, eu nunca passo. Por N motivos: pareço mais novo do que pedem. Sou muito velho para o que pedem. Não sou bom. Destôo. Estou muito feio em relação aos demais candidatos. Sou teatral demais. Não estava à vontade no teste. Todo mundo me adorou menos o cliente... e por aí vai.

 

Passei no teste de quinta-feira! Soube disso mais tarde, no dia seguinte. Aí é que começaram os problemas. A produtora me contou seu método de trabalho: fui selecionado para a gravação pela própria equipe de casting da produtora, e não pelo cliente. Deste modo, a coisa funciona assim: todas as pessoas selecionadas vão para a gravação – e lá sim, há a seleção final das caras que realmente aparecem no vídeo. Todos os indivíduos chamados para a gravação concordam em receber o que eles chamam de “diária de risco”. Duzentos reais – a pagar em 30 dias - para ficar disponível o dia todo. Se o cara der sorte de ter uma fala no comercial ou aparecer em primeiro plano, beleza! Ele passa a ser um dos principais e tem direito a remunerações melhores – entre mil e duzentos reais, dois mil, etc (o que também é pouco). Se o cara nem aparecer no vídeo, ficar de figurante ou sequer ser convidado para entrar no set, deve se contentar com os duzentos reais... e “passar a mão na brejaúva”, como diz a minha mãe...

 

O maior culpado pelas situações degradantes que o ator vive em sets de filmagem, produtoras, teatros e demais locais onde ele é humilhado com cachês ridículos e condições absurdas é, sempre, o próprio ator. Sim, porque ele sempre é informado de como as coisas serão... e ele sempre topa!!! Depois, reclama e se indigna. Mas aí já é tarde, pois ele já aceitou. Comigo, obviamente, não foi diferente. Eu sabia que estava indo para um troço de risco, para um mico. Mas topei. E o fiz porque tenho topado absolutamente tudo que aparece, salvo raras exceções. Acredito ainda nesse modelo de juntar o máximo de experiências para, aí sim, ser seletivo depois. Fora que vou para Barcelona no final do ano e preciso de grana.  

 

Bem, a princípio eu gravaria domingo... e, talvez segunda. Me organizei para ter o domingo livre e passei o sábado à espera da confirmação de horários e endereço. Lá pelas 20hs do sabadão, me ligam da produtora dizendo que fui dispensado da gravação do dia seguinte: venha só na segunda. Já foi desrespeitoso, pois – naquela altura do campeonato – eu já tinha desmarcado coisas e organizado diferente o meu dia. Mas beleza...

 

No domingo à noite fui informado do horário e endereço da gravação de segunda. Me pediram para chegar às sete horas da manhã no lugar combinado... o que me fez acordar ontem às cinco e meia da madruga!!! Argh!

 

E foi assim que a coisa se deu: cheguei na gravação e descobri que tinha cerca de 40 atores e modelos selecionados “no risco”, como eu. E que a coisa não tinha hora para acabar. E a isso seguiu-se um looooooooooongo dia, com muita gente, e muita comida pra encher o bucho – bem como uns DVDs piratas para ver na sala de espera (lotada de revistas, sofás, colchonetes e mesas). (CONTINUA)

Por Rafael Cortez às 14h19

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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