Blog do Rafael Cortez

17/11/2007

Cria Cuervos - FINAL - Josefina Diaz

Quem procurar esse nome no google verá que não tem quase nada ligado a ele. Verá que se trata de uma atriz que, pelo histórico de filmes, teve uma carreira irregular. Fez um filme na década de 20 e só voltou a aparecer no cinema nos fim dos anos 40. Depois, filmou uma vez só na década de 60... e fez mais coisas nos anos 70, quando participou de Cria Cuervos em 75 e mais um filme em 76. Depois, nada mais aparece ligado a ela – o que nos faz crer que ela tenha morrido posteriormente, uma vez que já aparece senhora no filme do Saura. Pela inconstância de aparições na telona, somada à qualidade com que o faz, penso que ela pode ter sido uma grande atriz de teatro. Pena não saber mais nada dela...   

O fato é que, em Cria Cuervos, ela interpreta a avó de Ana. Uma mulher que não sai da cadeira de rodas e que passa o filme inteiro sem dizer uma só palavra. Mas que diz absolutamente tudo só com o olhar.

Ontem assisti várias vezes suas cenas. Para ver se eu aprendo algo com ela e com o que ela fez. Em uma das cenas mais bonitas, a pequena Ana a leva na cadeira até a sala onde fica o mural com fotografias da velha. Dá “play” no pequeno toca-fitas e deixa a nona ali, com os olhos vidrados em tantas recordações. Uma música muito antiga toca e a gente pode passear nas memórias da velha apenas com o brilho de seu olhar. Em um momento mais iluminado, a avó de Ana vê uma foto que a emociona mais e abre seu único sorriso de dentes à mostra. Durante todo o resto do filme, o que se obtém dela é um meio-sorriso resignado - paciente e ao mesmo tempo cândido, como costumam ser os sorrisos dos velhos que sabem que tudo é uma questão de tempo no irreversível processo de morrer.

Nesta mesma cena, Ana pergunta à avó se ela gostaria de morrer. E se gostaria de contar com sua ajuda para isso. Nos olhos da Josefina Dias você vê toda sua perplexidade e, em fração de segundos, sua entrega; a aceitação de que sim, quer partir. Depois, a dor de perceber o ponto a que chegou... contar com uma ajuda da neta, tão pequena, e já tão intensa em seu entendimento das coisas. E, quando a menina sai para buscar o que pensa ser um veneno, fica a Josefina Diaz mirando sua foto de jovem-bela. A respiração fica ofegante e um olhar marejado, fixo, te revela tudo que ela sente ao se dar conta de que a juventude acabou há tanto, e tão tristemente. Dá pra ver nos olhos da velha todas as viagens que ela teve e tudo que aconteceu e não volta mais. E repito: tudo sem dizer uma só palavra.       

Fiquei impressionado porque gosto demais de gente que me toca com tão pouco. Há tempos, escrevi neste blog sobre a emoção de ver uma cena linda do Gianfrancesco Guarnieri na minissérie “Anos Rebeldes”, da Globo. De como ele me fez chorar quando tremeu os lábios no relato triste de uma agressão dos militares. E quem ensinou aquele homem a tremer os lábios daquele jeito? E quem ensinou a Josefina Diaz a comunicar tantas coisas só com o olhar?

Ninguém ensina essas coisas. Isso é talento; é dom. É o que difere os artistas dos atores. Os artistas dos músicos. Os artistas dos demais.

Eu sempre acreditei muito que existem atores, atrizes, músicos, poetas e pintores demais. Mas a classe dos artistas é única, e não é todo mundo que faz arte que pode ser artista. Tem que ter aquele brilho nos olhos - aquele algo mais que não se explica. O que se pode fazer com muito pouco, mas que cria um impacto danado! Isso é privilégio de alguns apenas. Era privilégio do Andrés Segovia, que tocou muito menos violão – e com muito menos qualidade – que muitos jovens de hoje em dia. Mas que fez algo que eu gosto muito mais, que é respirar emocionadamente entre uma frase e outra de grande emoção. Isso está nos áudios dele e nem ele pensava nisso quando o fazia.

Esse dom é privilégio da Bethânia, que sabe erguer uma mão no tempo certo durante um show – coincidentemente, na hora em que você vê a voz dela se elevar para Nossa Senhora, que a protege e tem sua estima total. É privilégio do Nigel North, que tocou a Chaconne de Bach no Alaúde e chorou na mesma hora em que todo mundo chorou, no SESC Consolação, em 2007 – e eu tava lá também. O que explica isso?

Fica a dica para vcs assistirem ao Cria Cuervos... com isso, poderemos discutir depois esse encanto a que me refiro. Ou a gente combina de apenas concordar que a Josefina Diaz fez mesmo um excelente trabalho como atriz (e eu percebo que eu gosto muito mais de teatro e atuação em geral quando me deparo com uma pessoa boa assim. Volto a ter aquele tesão que a gente não pode perder jamais!).

Por Rafael Cortez às 20h16

Cria Cuervos - parte 1

Ontem revi um dos filmes da minha vida: CRIA CUERVOS, uma das obras-primas do grande cineasta espanhol Carlos Saura. Digo “uma das” porque ele tem outras pérolas no portifólio: a trilogia do flamenco (“Bodas de Sangue”, “Carmen” e “El Amor Brujo”) tem seu lugar garantido. Bem como o recente “Ibéria”, que é bonito pra dedéu. Mas, para mim, Cria Cuervos está em primeiro lugar.

Lembro de ter visto esse filme pela primeira vez ainda adolescente. E que o aluguei em VHS justamente pela capa. Nela, se via o olhar meio angustiado de uma menina – a um só tempo terno, a um só tempo aflito. E a Geraldine Chaplin ao lado. Claro: se eu soubesse ali de tudo que a Geraldine Chaplin é capaz de fazer com uma câmera fitando-a, eu já alugaria no ato. Mas, na ocasião, aluguei porque estava vidrado em filmes europeus com crianças. Tinha acabado de sacar esse potencial dramático e belo do cinema utilizar crianças em tramas igualmente dramáticas e belas. E essa fórmula de contar uma bonita história com personagens inocentes é uma das maiores sacadas do cinema mundial. E, em geral, rende bons frutos. É o caso do “Au Revoir Les Infants”, do Loius Malle, e – mais recentemente – “Cinema Paradiso”, do Giuseppe Tornatore. 

Cria Cuervos é lindo assim que começa. Os créditos iniciais aparecem em uma montagem muito sensível, onde um álbum de retratos da protagonista é folheado. Vemos fotos de Ana ainda criança. Fotos de sua mãe e irmãs, família... e com umas anotações feitas à mão. Tudo isso embalado por uma música triste e muito forte – a Canção, de “Canção e Dança número 5”, de Federico Mompou. Essa é uma música tão bela que eu fiz um arranjo para violão-solo da mesma. Passou a ser uma das peças mais bonitas do meu repertório.

Tem muitas outras coisas especiais no filme. A música que todo mundo passou a conhecer: “Por que te Vás?”, com a Jeanette (gravada posteriormente pelo Pato Fú); a direção do Saura; a excelente protagonista Ana Torrent – uma criança que nasceu atriz pronta – e, claro, a Geraldine Chaplin... bem como a Florinda Chico, que é uma das grandes damas da encenação na Espanha. Nesse texto não pretendo fazer uma resenha do filme. Não cabe a mim dizer que ele deve ser visto por todos os motivos que todo mundo já conhece, uma vez que não sou crítico de cinema e há outras opiniões mais valiosas do que a minha nestes cyber-meios.

O que eu quero destacar é algo que me levou a escrever hoje no meu blog. Algo que já tinha me chamado atenção logo na primeira vez que vi o filme. Algo que me deixou desconcertado ontem, quando revi a película no tão esperado relançamento em DVD. Falo da atuação sem precedentes da atriz Josefina Diaz. (CONTINUA)

Por Rafael Cortez às 20h16

15/11/2007

Desabafo

Ontem saiu o resultado do PAC número 09 da Secretaria Estadual de Cultura. Visava contemplar alguns projetos na área de música, com destaque para gravação de CD, circulação de espetáculos musicais e Festivais de música. Um milhão de reais dividido entre cerca de 30 projetos, subdivididos nessas categorias citadas.

Entrei no site todo esperançoso e pedi à Thais que fizesse figas comigo. Mas não rolou; eu não fui selecionado.

Eu havia inscrito um projeto que bolei e que deu o maior trabalho para colocar no papel. Entre agosto e final de setembro deste ano, fiquei às voltas com telefonemas mil, gastos mil, escritas aos montes e tardes, manhãs e noites dedicadas ao projeto. E olha, era um projeto legal... do qual me orgulhei muito... e que conseguiu reunir algumas pessoas em torno dele... tinha foco no social, era inteiramente relacionado com o violão solo e me faria feliz por, pelo menos, oito meses de 2008.

Passada a frustração de não ser contemplado, veio o questionamento. Pô, afinal... o que esses caras que fazem parte das comissões selecionadoras culturais querem? Qual é o critério que devemos adotar para competir com êxito nesse mercado de artes cada vez mais inchado e medíocre? Como conseguir viabilizar projetos pessoais – que são fruto da nossa paixão, investigação e trabalho – numa cidade como São Paulo, com tantas cartas-marcadas, panelinhas e gente ruim de todo lado?

Nem estou falando do PAC de música. Sinceramente, não conheço quase ninguém lá entre os contemplados. Isso deve ser bom. Falo das políticas públicas para o meio teatral, por ex, onde os mesmos grupos pegam Fomento ao Teatro, Petrobrás, Caravana Sesi, Mirian Muniz e até mesmo alguns PACs.

Já estive nos dois lados da moeda. Como integrante de grupo que fui, peguei e não peguei projetos. Mas percebia que tínhamos mais sucesso nas nossas aprovações quando éramos mais políticos, por ex. O Festival de Inverno de São João Del Rey, que fui com a Quatro na Trilha: nossa papelada já chegou indicada na comissão. Pegamos. O PAC de música: não conhecia ninguém do júri. Nem eles a mim. Não peguei.            

 

Sinceramente, eu queria ser mais profundo nesse texto. Discorrer com mais conteúdo sobre a pobreza do nosso mercado cultural... sobre a discrepância existente entre políticas de incentivo e projetos de qualidade a serem incentivados... sobre o jogo de interesses, artimanhas políticas do meio cultural, panelinhas, “quem indica”, etc, etc... mas tô muito frustrado agora para fazer uma crítica fria, sóbria, inteligente. Além disso, tem uma coisa: não quero fazer o papel de vítima, do coitadinho que não teve oportunidade. Até porque – em relação a algumas pessoas que conheço – sou um tremendo privilegiado: sempre tenho trabalho e Deus nunca me abandona. Eu faço por merecer, é verdade.

  Porém... em mim, neste momento, há aquela revolta de quem viu o próprio projeto naufragar antes mesmo de começar. E ele ainda nem está pago. Tenho que arcar ainda com as despesas de cartório da proponente que o inscreveu comigo. Que saco isso. Que saco ter de ligar daqui a pouco para a Mayra e dizer que rodamos...     

.................................................................................................................................

 

E, no entanto, como das outras vezes, como aconteceu nas outras ocasiões de outros “nãos”....

Eu vou recomeçar tudo, mais uma vez. Vou ficar empolgado de novo com outro edital. Trabalharei para ele como se não houvesse amanhã. Terei mil esperanças, como tive agora pouco. E vou levar mais um monte de “nãos”.

Mas um dia alguém vai dizer sim. E aí é que as coisas começarão a acontecer de verdade.

Por Rafael Cortez às 13h58

12/11/2007

Um Violinista no Telhado

    Ontem estive em Itapetininga com o grupo de teatro da ADID. Um monte de jovens fazendo Um Violinista no Telhado, musical de sucesso da Broadway em especial adaptação de meu irmão - o diretor do grupo. Tudo fica mais interessante nessa narrativa se for dito que o grupo teatral em questão é composto por pessoas com Síndrome de Down.

    Eles são muito carinhosos e eu já gosto de cada um de uma maneira muito singela, especial. Do talento específico de uns e do jeitão de outros. Da "cara-de-pau" do Fezão, que é um barato, e das fofocas com a Zezé, que foi a paixonite do Luis Antônio, irmão do Betão. E de como a Flávia me arrepia quando chora de verdade na cena da despedida com o pai. A isso somam-se os papos com todos sobre minha semelhança física com o Léo e um monte de outras particularidades: papo sobre a Joana, prima do Antonio, que é minha amiga de faculdade. Risos sobre o namoro da Jú e do João, que estão vendo estrelinhas... a seriedade da Fernanda, que é atriz nata... e por aí vai.

   Ao carinho grande desse pessoal, que sempre me acolhe com um monte de abraços, une-se um time de primeira: tem a Glau, que é minha cunhada e amiga. A Ana, que ri horrores comigo. O Jacó, que é um violinista sério de verdade e a Regina, que tem lido meu blog e recebe aqui um beijão. Aliás, ela toca muito bem, é muito gente-fina e ontem tocamos lindamente juntos - cada um num violão, sem combinar nada no momento mais singelo, sob a estrutura da melodia triste do Jacó. Foi muito bonito!

    Nem preciso dizer o quanto tenho orgulho de meu irmão ao pensar que ele une essas pessoas todas em um trabalho tão dedicado e cheio de amor. Foi um prazer ter tocado em quatro belas sessões dessa peça. Aprendi mais do que pensava, e guardo esses momentos com alegria no coração.

Por Rafael Cortez às 11h32

Power-Stars e Big-Brothers

Todos os dias eu abro meu e-mail e espero alguma surpresa agradável: Rafael, tenho um trabalho para você! Rafa, eu te amo! Ou Rafa, sou eu, um amigo... e passei pra te dar notícias, etc, etc, etc.

Mas todos os dias eu excluo uma porrada de e-mails inúteis. Eles vão do tradicional texto de auto-ajuda, com frases feitas, até correntes inúteis, alarmes-falsos de exclusões de perfis de orkut, textos de direita, fofocas de famosos e outras imbecilidades mil.

No entanto, nada é mais triste que a grande parcela de e-mails onde os autores imbecis pedem ajuda para ficar ainda mais imbecis. São os caras que escrevem pedindo ajuda para ser um Big Brother ou um Power Star. Eles pedem só um minutinho de nossa atenção – é só entrar no site tal e votar em suas figuras em estereótipos de felicidade. Com sorte, e muita adesão popular, essas caras podem estar na nossa telinha em janeiro e fevereiro do ano que vem... puxando ferro, falando de inutilidades à beira da piscina, criando conflitinhos tôscos e fazendo apologia do ridículo como ideal de vida. E tome Big Brother na veia, porque depois as vagabas vão posar nuas e tentar fazer carreira como apresentadores de TV... e os pit-boys farão o possível para atuar na TV!

Já é triste que existam tantos programas de TV com formatos idiotas. E que eles tenham tanta audiência. Isso revela vários problemas sociais que já discorri em outros textos desse blog. Mas, ainda mais triste, é perceber como eles transcendem os limites do bom-senso. Viraram motivadores sociais. Agregam as pessoas meses antes de suas exibições. Viraram modelo de vida, conduta de comportamento e manual de sobrevivência dos sonhadores sem chão. Os que tem pouco talento e medo demais sabem que só poderão sobreviver como “artistas” se passarem por um reality-show. E isso não é verdade. Sei de um monte de gente muito boa que sobrevive de teatro, música e outras artes sem enfiar a bunda num fio-dental e rebolar na frente das câmeras. Mas, claro, me refiro às pessoas que tem dignidade e talento.      

Agora todo mundo quer ser artista facilmente. Quer aparecer logo, ganhar uma grana rápida e aumentar os castings das agências de atores. Antes, a fama era uma conseqüência de um trabalho árduo. Agora, a fama é o propósito de qualquer feito preguiçoso. Isso é tão louco que chega a contagiar. Eu mesmo, muitas vezes, me pego bem mais vaidoso que músico... bem mais egocêntrico que ator. Mas eu sempre levo uma boa porrada da vida nessas horas ou sou recuperado pelo que resta de bom em mim – pelo meu bom-senso, gente que me ama e por um pouco de “pedigree” que ainda tenho.

Minha resposta às pessoas que querem ser Power-Star ou Big-Brothers nesse país onde os valores legais já foram pro saco é essa: primeiro, meu desabafo e repulsa dominantes. Depois, minha total indiferença. Nunca assisto nada desses reality-shows. E adoro excluir todos os e-mails dos pretendentes ao posto de idiotas. 

Por Rafael Cortez às 11h12

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

Histórico