Blog do Rafael Cortez

14/12/2007

Desrespeito

Até quando as pessoas vão desrespeitar atores?

Esse mercado de trabalho já descobriu que a raça teatral é miserável sim, composta de "atores-mendigos", como diria meu primo Tamayo, a ponto de topar qualquer negócio... mas humillhar é um pouco demais.

Já relatei aqui nesse blog como foi revoltante passar 15 horas, em outubro, à disposição de um comercial de sanduíches - para gravar duas cenas de figurante e ganhar pouco mais de 200 reais. E, ao longo desse ano e de outros, sentí na pele uma série de humilhações que eu já sabia por outros que existiam.

Falo do descaso do pessoal da Uni-Nove, que me selecionou para um piloto e desapareceu sem dar satisfação... do povo do Metrópolis, da Cultura, que tomou meu tempo e pediu muito de mim - mas sequer se dignou a me dar um retorno honesto e com tato acerca do trabalho... falo de micos que tive de pagar e de granas que demoraram horrores pra sair - de testes que fiz sem receber o cachê-teste, de horas que passei esperando um cara ficar livre 5 minutos para me pagar menos de 50 reais, de cachês irrisórios para grandes constrangimentos, das enrabadas que tive de levar de diretores narcisistas e neuróticos, etc, etc, etc.      

Isso tudo está na minha pauta agora porque me irritei muito quarta: fiquei preso no trânsito, desci do ônibus em seguida, andei da Henrique Schaumann até a Dr. Arnaldo à pé (na chuva), disponibilizei meus horários, me cansei à beça... para chegar numa gravação e receber a notícia óbvia de que ela seria cancelada por causa da chuva! E eu tinha mandado e-mail antes e ligado ao menos 2 vezes para me certificar de que a EXTERNA (sim, era externa!) ia rolar mesmo na chuva fina INCESSANTE que caiu na cidade por toda quarta. Por quê os atores só são informados de que se fuderam na última hora, e da maneira mais fria e covarde?

Detalhe: o cachê que eu recebo por esse tipo de coisa é irrisório. Sai após mais de um mês da gravação, e vem com descontos.

A resposta para a questão que levantei é meio óbvia. Atores que só se fodem e se deixam humilhar nesses mercados mil são vendidos e medíocres. Topam qualquer coisa, levam um monte de enrabadas e se ferram por uns míseros trocados. Depois, reclamam de tudo nas panelinhas - mas vão puxar o saco dos algozes o tempo todo, com "querido" pra cá e pra lá, bem como aquele sorriso besta e o hábito de fazer piada de tudo!

Um dia eu ainda vou fazer parte do time de atores que são respeitados de verdade. Mas até lá tem chão. Resta agora minha revolta, meu desabafo e minha consciência. 

Por Rafael Cortez às 10h44

Ballét

Terça estive no Teatro Artur Azevedo, na Móoca, com a turma de alunos e alunas da Escola de Ballét Aracy de Almeida. Estive lá a convite do Guivalde Almeida, diretor da escola e meu amigo, para fazer a narração do espetáculo de encerramento 2007 - intitulado "A Magia do Ballét".

Com essa apresentação, totalizamos 03. As outras duas tinham sido em 30/11 e 01/12 no Teatro Itália. Foi legal porque eu interpretei um Trovador, todo pomposo, que passeava pelo palco com um livrão (cheio de colas de texto) e contava que tipo de dança se veria a seguir - bem como curiosidades acerca de cada coreografia, época e estilo. E o barato foi que resgatei - lá do meu baú - algumas coisas do finado Trovador que interpretei em 2003 no Francisco e Clara... peça que era uma bomba, mas que foi divertidíssima!

O melhor, no entanto, foi sentir de novo a energia desse pessoal do ballét. Eu já sabia dessa garra deles porque toquei violão no Duas de Uma Só, onde a coreografia da Andrea Thomioka (Para Todo o Sempre) era feita em cima de peças minhas. Nisso, me envolvi muito com o pessoal e descobri uma arte que eu não conhecia.

"A Magia do Ballét" foi feito inteiramente por alunos e alguns profissionais mais conhecidos como convidados. Foi mais humano porque tinha mais gente errando, eu inclusive. E foi um tesão porque reuniu crianças, jovens e adultos, democraticamente, num mesmo gás de subir no palco. Foi motivante ver a dedicação dessa turma - aliás, o rigor e esforço do pessoal de dança clássica não se compara ao que vejo no teatro. Os atores são muito mais indisciplinados e preguiçosos. Vejo por mim, por exemplo.

Foi gratificante ver como as pessoas torcem umas pelas outras no ballét - seja vc da área ou não. A moçada vibrava por mim em cena. Ria horrores de algo engraçado ou comemorava junto um momento bom (como quando falei certo a pelavra "fouettes"). Isso sem falar no tesão que dá, sempre, em ouvir os três sinais e fazer um espetáculo para uma casa cheia e super afim... que aplaude muito no final.

Gostei demais de um Pas-de-Deux que vi com a Ammanda Rosa, bailarina caprichosa que só tem 17 anos. E de tantos outros números com gente tão mais nova... mas já tão envolvida. Que bom seria se tudo que se faz no palco nascesse da mesma graça e envolvimento...     

 

Por Rafael Cortez às 10h22

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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