Blog do Rafael Cortez

23/01/2008

EUROPA - PARTE 04 - BARCELONA

Comer em Barcelona era um desafio. A comida de lá não chega aos pés da brasileira. Tanto em qualidade como em fartura. Aliás, muita gente já me dizia, e agora eu entendo: não se come e bebe como em São Paulo.

 

Em Paris, enormes sanduíches salvavam a pátria ao longo do dia. Em Barcelona, como há muitos catalães, vc tem que se contentar com seus pratos medíocres e pouco substanciosos. E, em geral, a mais ou menos 15 euros no menu do dia (refeição completa). A bem da verdade, apenas no meu último dia comi fora muito bem (as refeições que o Rodrigo e a Fernanda faziam em casa eram magníficas): encarei uma Paella fantástica à beira-mar, aberta por umas lulas e um polvo com pimenta-do-reino. E, à noite, provei deliciosas “Tapas” com o Rodrigo, família e amigos. Ainda sobre Paellas: Em Besalú comi uma que era triste. Já em Granada, comi outra que quase me obrigou a ir atrás do cozinheiro pra perguntar se ele não tinha vergonha na cara... mas tive medo do sujeito ser catalão e engoli em seco a minha insossa refeição.

 

Sobre os catalães: eles estão em Barcelona, aos montes, com sua língua adaptada do francês e com um não-sei-quê de Portugal. Alguns são mais radicais, e querem uma separação da Espanha – e odeiam os espanhóis. Algumas pessoas mais desinformadas podem pregar que a Espanha está em Guerra Civil, mas não tem nada disso. Vc vê protestos isolados aqui e ali – faixas nas casas próximas ao Parque Güell falando mal dos espanhóis, por exemplo. E, vez ou outra se depara com um catalão mais exaltado, como o que cruzou meu caminho numa noite de balada. Ele estava bêbado e me xingou muito... só porque eu usava um casaco com a bandeira da Espanha, pode? Haha! Bem, em resumo: trata-se de um povo de temperamento mau-humorado, diferente dos frios franceses, com o saco mais cheio e uma boca bem suja. Eles falam bastante palavrão, mas isso já eh tão comum entre eles que parece não ter mais significado algum. E eh até engraçado ver como eles interrompem frases de uma conversa para praguejar coisas irreproduzíveis uns com os outros, ou para uma ambulância que passa com a sirene escandalosa (e eh INCRÍVEL como se ouvem sirenes de ambulâncias e viaturas policiais em Paris e em Barcelona – eu diria que eh o som oficial dessas duas cidades).

 

Mas quer saber? A mim eles não fizeram nada, e até me trataram bem. Não posso julgá-los, e até diria que eles são bacanas... 

   

No meu primeiro final de semana em Barcelona, conheci uma legítima baladinha local. E as pessoas falam tanto da vida noturna da cidade que até parece que eh algo fantástico. De novo a constatação: não há noite como a nossa, aqui de São Paulo. Eu, como legítimo morador da Vila Madalena e ex-produtor de algumas das melhores baladas do bairro (como o Calamenguê, Ultreyas e Renegados), sei bem do que digo.

 

Primeiro domingo na Espanha: Rodrigo me arma uma grande surpresa – uma ida a Girona e Besalú, duas belíssimas cidades vizinhas de Barcelona. Quem nos levou de carro foi uma amiga deles lá, a Sara. Uma portuguesa enigmática de olhos muito belos e que detesta ser fotografada. Bem, e que dirige um tanto mal, mas tá valendo. Sobrevivemos.

 

Girona impressiona por sua linda herança moura. Parece que vc está em Alhambra em alguns momentos. Tirei altas fotos lá. E Besalú... ah, que encanto... uma cidade medieval com uma ponte de mais de 1000 anos de construção... e um clima de cidade parada no tempo, ainda bem preservada e longe da rota destrutiva do turismo usurpador.

 

Os dias seguiram-se em Barcelona. Encontrei rapidamente a Carol Casella, que se formou comigo na PUC e chegou a ser bem próxima. Mas ela deve ter sentido o mesmo ao me ver lá: não teríamos muito que fazer ou conversar, dada a diferença de mundos e caminhos novos impostos. E revi a Diana Hue, irmã da minha mega amiga Júlia. Essa garota eu conheci criança e vi poucas vezes depois. No entanto, ela foi uma das companhias mais agradáveis que cruzou meus roteiros em “Barça”. Super cicerone, atenciosa, prestativa, companheira e legal. Ela e seu bom “namorido” Manu, um cara super gente-boa.

 

Eu não sabia ao certo o que faria com cerca de duas semanas livres ainda. Quando comprei minha passagem para a Europa, em junho de 2007, sabia que iria para Paris – porque eh obrigatório, e o Zeca me descolou a Madame Rumbaud a um preço legal... e porque eu encontraria amigos, etc. Sabia também que ia para Barcelona ver o Rodrigo e ficar com ele. Havia a comodidade da hospedagem e a saudade do primo, claro. Agora, quanto ao resto da viagem? Estava livre e desimpedido; pronto para visitar Portugal, que eh do lado, ou arriscar um pulo em Londres (mais pelo tesão dos outros do que pelo meu, uma vez que nunca simpatizei com a cidade e com o terrorismo que criam em cima dos brasileiros). Tinha Roma, que preferia um pouco mais... ou, quem sabe, dar um alô na África? Não, não... sabia, de certo modo, que queria ir pra outro lugar... e os amigos pilharam, o Rodrigo incentivou... entrei em sites mil e comprei a passagem aérea inicial: era o start para minha visita solitária à Andalucia. Mas isso eh material para um novo e intenso relato neste blog...                

     

 

Por Rafael Cortez às 15h17

EUROPA - PARTE 3 - BARCELONA

Barcelona. Que cidade incrível.

 

Saí de Paris dia 02 de janeiro, após visitar o Cemitério Pere-Lachaise. Lá, vi o túmulo do Chopin, do Balzac e da Edith Piaf, que ficou feliz de me conhecer.

 

Cheguei em Barcelona e me virei muito bem. Esse foi um êxito da viagem: sempre estimulei minha independência e tentei ir aos lugares pelas vias comuns – metrô, ruas e trajetos mil. Só peguei táxi duas vezes (eu gosto muito de táxis, pois não sei dirigir): uma, quando precisava chegar na rodoviária de Granada em 10 minutos; outra, quando precisava ir ao aeroporto de Barcelona de madrugada.    

 

Em Barcelona fiquei no apartamento do Rodrigo, meu primo. Ele eh uma figura à parte. Tem seus 30 e tantos, mas eh um roqueiro adolescente. Conserva uma alma sempre jovem, apesar de se sentir velho. Eh um cara ultra-carinhoso e atencioso, cheio de talento musical e louco pra fazer uso disso. Mas, há alguns anos, passa o tempo em trabalhos que não gosta – como forma de sobreviver, logicamente. Aos poucos ele está se munindo da coragem necessária para virar o artista que tanto quer e precisa ser. Enquanto isso, vive embalado pelo som de Morrissey e Billy Bragg – cujas músicas canta no banho, com um inglês perfeito. E, como está morrendo de saudades do Brasil, anda ouvindo mais sambas (Cartola, em especial) e MPB. Enfim, eh um primo-irmão mesmo. Querido, doce e carinhoso, meu grande anfitrião espanhol e amigo para sempre.

 

Rodrigo está morando com a mulher. Trata-se da Fernanda, uma mineira muito doce. Ela fez um caldinho mineiro e um espaguete delicioso durante minha estada. Conversamos pouco. Mas ela – como típica representante do melhor povo do Brasil – se mostrou carinhosa, meiga e gentil. 

 

Tia Martucha, a mãe do Rodrigo, também estava lá passando férias. Essa mulher eh uma figura: Tem o sorriso mais bonito do mundo, e está sempre sorrindo. Ninguém sai tão bem em fotos quanto ela. Acho que eh a mulher mais fotogênica que já conheci. E não perde o bom-humor: mesmo quando comenta da ventania lá fora, do perigo de ser assaltada ou da “batucada” da obra no apê ao lado. Típica carioca, vem de uma linhagem muito fina da família. Filha da Tia Odila, que era a senhora mais elegante e fofa de seu tempo. Que saudade dela! Tia Martucha está com a saúde mais debilitada agora, e tem uma tosse insistente. Mas come bem e eh fortona, e adora uma boa caminhada. Acha tudo lindo, gosta de tudo e pergunta de todos. Eh cheia de beijos e abraços. Isso faz dela uma das pessoas de que mais se tem gosto amar. Ficou brava comigo algumas vezes, porque dei umas caminhadas sozinho e a deixei “às traças”, como ela diz. Em um dia específico, estava furiosa porque dei um cano mesmo: saí para tomar um café e disse que voltaria para apanhá-la depois. Mas esqueci da vida e me perdi pela Rambla Catalunha. Voltei só no fim do dia. Ela não queria papo! Mas se rendeu quando lhe dei um Halls preto, que ela ama, e quando a gente se abraçou e eu enfatizei o meu carinho. Mas não me poupou de um olhar fulminante e cheio de ternura horas mais tarde quando, no sofá, me chamou de “fujão”.       

 

O apartamento do Rodrigo eh inacreditável: aconchegante e relativamente grande para os padrões europeus. E no centro de tudo. Metrô Poble Séc, linha verde, a cinco minutos (a pé) de tudo que interessa. Demais.

Na primeira noite, ele me levou para conhecer a famosa Rambla principal de Barcelona. Em seguida, nos metemos pelo Bairro Gótico e suas vielas, que ele conhece muito bem. Nas esquinas, vendedores de cerveja nos paravam para oferecer latinhas a um euro. E as prostitutas bagaceiras também ofereciam suas latarias escanquilhadas em ruas específicas de meretrício, mas essas a gente não consumia, haha...   

 

Engraçado como Barcelona parece fácil de se percorrer. Se vc está com alguém que conhece a cidade, tudo se torna ridiculamente perto e acessível. Mas, sozinho, com referências brasileiras e de Paris na cabeça, nada feito. Me perdi horrores lá no meu primeiro dia de reconhecimento. Como o Rodrigo e a mulher trabalhavam o dia todo, cabia a mim e à tia Martucha aproveitar o dia com nossos passeios – juntos ou cada um por si. E, no meu primeiro dia solto por lá, voltei irritado e exausto para casa após não entender nada do caminho que fiz.

 

Depois, aos poucos, fui me encontrando mais e entendendo melhor a cidade. Mas nada tira da minha cabeça que as sinalizações de ruas e mapas de Paris e Barcelona são um tanto difíceis. Os mapas são bem abrangentes, mas omitem nomes preciosos de ruas e avenidas. E as placas que indicam endereços são pequenas e ficam em locais de difícil visualização nos prédios e fachadas. Um saco. O lance, em ambas cidades, eh fazer todo seu percurso com base nas linhas de metrô. E os metrôs sim... são um show de funcionalidade e um sucesso em si. (CONTINUA....)

Por Rafael Cortez às 15h16

21/01/2008

EUROPA - PARTE 2 - PARIS

Para minha sorte, em Paris encontrei muitos amigos. A melhor companhia foi, sem dúvida, a da Neusa Andrade. Ela foi minha chefe por uns 5 anos, acho. Comi o pão que o diabo amassou quando era assistente dela nas produções teatrais do Tuca, VentoForte, Empório Cultural e outros lugares por onde passamos. Mas ela me ensinou milhares de coisas nesses anos. E, passado o tempo, estávamos juntos de novo. Dessa vez em Paris, terra que merecemos depois de tantas ralações.

 

Com a Neusa, estava o Caio, seu filho. Ele desenhava vampiros e super-heróis para mim quando tinha 4, 5 anos. Passado o tempo, tornou-se um homenzarrão de 20 e poucos anos. E um tremendo gente-boa, apesar de um ar mais introspectivo e estranhão.

 

Com a Neusa e o Caio (esse às vezes), fui a diversos lugares incríveis. Foi com eles que vi a elegantíssima Champs Elisée, que é linda e um pouco mais incrível do que dizem. Foi com a Neusa que fui a Montparnasse, vi a Notre Dame, Sacre Couer, Pampilon, Arco do Triunfo, etc, etc. Em pouco tempo descobri porque Paris eh tudo isso que dizem: eh uma cidade com uma arquitetura uniforme das mais elegantes, e com séculos de bela história em cada canto. Com umas mulheres chiquérrimas, senhoras imponentes, arte em todos os metrôs (vi uma orquestra de câmera em uma estação!) e gente do mundo todo transitando livre e calmamente em cada esquina. Em cada estação de metrô vc pode ouvir um pouco de francês, italiano, inglês, português, árabe, japonês, mandarim e o que mais for... e tudo ao mesmo tempo. Eh uma cidade onde vc deixa de ser brasileiro para ser cidadão do mundo!

 

O povo parisiense deve detestar essa orla de gente de fora na cidade. Ao longo dos anos, eles se deparam com todo tipo de gente em seu quintal. Eh de se entender porque eles acabam sendo um pouco malas. E são mesmo. Menos estúpidos do que falam por aí, mas absolutamente práticos e diretos. Vc não entra em uma loja parisiense só para olhar as coisas ou pedir que o funcionário te explique como eh tal e tal produto. Vc entra e já vem alguém até vc perguntar o que vc quer. Se vc se interessar por algo e apontar, o funcionário já pega o tal item e diz quanto custa. E vc compra e leva pra casa embrulhado (ou não) num pedaço de papel. E paga-se antes, direto, para uma pessoa muito indiferente à sua mau-acostumada relação com o amável tratamento comercial paulistano.

Esse papo de que os restaurantes franceses são chiquérrimos, por exemplo. Balela. Esse conceito do garçom elegante que te atende fazendo biquinho existe nos restaurantes franceses de São Paulo, não em Paris. Vc eh atendido por pessoas muito diretas e meio impacientes. Elas correm de um lado pro outro e falam alto. Meio que jogam as coisas na sua mesa e trazem a conta junto com o prato. E vc paga dando gorjeta e quase pedindo desculpas. Ah, e ninguém deve levar em conta os banheiros dos tais estabelecimentos ou a cozinha em si como representantes da higiene local. Coma e não pense se isso eh limpo ou não. Provavelmente não é. Claro, devem existir restaurantes e estabelecimentos que te atendem de modo francês estereotipado. Mas eu só freqüentei lugares onde podia pagar até 15 euros por uma refeição completa...

 

Do jeito que escrevo, parece que detestei Paris. Mentira. Amei. Eh uma cidade que tem cheiro de madeira velha em toda parte... aquela aura de casa da avó, com tudo meio velho, mas muito interessante... e que respira arte em cada canto.

 

Amei ir ao Invalides ver o túmulo de Napoleão. Ou ver a tão falada Torre Eiffel – que eh linda mesmo, ainda mais à noite. A cada virada de hora noturna ela pisca centenas de milhares de luzes. As pessoas que estão em volta dão gritinhos de contentamento! Mas eh impossível encarar a fila para subir na danada, ainda mais na época em que eu fui.

 

Adorei ir ao Louvre duas vezes. Uma com a Fernanda, amiga que está lá e que foi deliciosa companhia. Ela mereceria um relato à parte. Na outra vez que fui ao gigantesco museu, acompanhei o máximo de coisas em parcas duas horas de visitação. Isso me obrigou a correr muito em um labirinto de artes onde vc se perde a todo instante. Mas vale cada centavo.

 

Aliás, se perder... nessa viagem européia eu me dei conta que meu senso de direção eh uma merda... todo mundo enaltece o quanto eh fácil se locomover em Paris e Barcelona. Em ambas, o metrô eh eficaz e cobre tudo. E em ambas vc se guia através de pontos chaves, como o Rio Senna e o Monjuic, respectivamente. Bem, mas eu me perdia de modo a não entender mais sequer quem eu era... perdi muitas, muitas horas na tentativa de me encontrar nos lugares. Mas ria muito disso e me gabava de estar só nessas ocasiões. Isso estimulava meu senso de independência e reforçava meu vigor físico. Poucas pessoas bancariam um ritmo de caminhadas e corridas como as que tive pela Europa. Percorria dezenas de coisas a pé em um só dia, em questões de horas, sem frescura e com muita agilidade. Mas isso me conferia um mar meio louco. Eu saia a milhão pelas ruas, fotografando tudo e falando sozinho... e inventando altos sons na minha cabeça, a ponto de compor o hino “Desolée” em Paris e o hit “Pero que Si, Pero que No”, em Barcelona. Sons pirantes que eu fazia pra mim mesmo e que cantava muitos nas minhas jornadas engraçadas e solitárias.       

 

Era muito legal acordar em Paris e comprar um croissant puro e um pão au chocolat em qualquer boulangerie. Elas funcionam como joalherias lá: vitrines magníficas, com produtos incríveis. Pães absolutamente fabulosos. No começo, sentia falta das padarias. Não entendia como ninguém tinha pensado em abrir uma... para vc chegar, sentar e comer uma coxinha... mas dane-se! Cultura eh cultura e em Paris vc compra uma baguete, um queijo e um bom vinho e vai pra casa feliz. Aliás, como são baratos e magníficos os queijos e vinhos de lá... nhãmi!

Era muito legal ver os peixes nas feiras de rua: do peixe espada que a gente aqui só conhece do livro do Hemingway até os tubarões... e as lagostas? Cada uma maior que a outra. A gente não vê os caranguejos, escargots e lagostas de lá aqui... tampouco os compra a preços tão acessíveis.

 

Era muito bom andar com o CD Player tocando Edith Piaf e Francis Lay pelo Jardim de Tuleries... ou percorrer toda a Champs Elisée e pé para se refestelar num aconchegante e caro café parisiense. Foi demais ter ido ao cemitério de Père-Lachaise ver os corvos sinistros perto da tumba de Edith Piaf. Foi bom demais rever o Zeca e o Ale, que me acompanharam por dois belos dias no Marrét... para depois me servir um salmão defumado com dois deliciosos vinhos brancos na noite de reveilon...

 

Uma última coisa sobre Paris. A noite de ano-novo: as pessoas vão em peso para a Torre Eiffel. Eu, como todos, também fui. Mas começa que esse papo de ver o povo de branco na virada do ano eh coisa nossa mesmo. Ninguém usa. As pessoas vão normalmente, e foda-se. Há gente do mundo inteiro amontoada. Pouca gente arrisca levar uma garrafa de champanhe ou vinho para brindar a meia-noite. Bem, eu levei. A polícia francesa fica aos montes na rua, armados até os dentes. Eles tem a instrução de retirar as bebidas dos fanfarrões e apreender a mercadoria. Assim, pouca gente fica de fogo e diminui-se o risco da famosa DESFORRA francesa: eh quando o povo descarrega os males do ano e suas revoltas na meia-noite de 1 de janeiro... para quebrar tudo e dar uns sopapos uns nos outros. 

 

Bem, a meia noite chega e vc acha que vai ver a queima de fogos mais linda do mundo, não eh? Afinal, vc está em Paris, com gente do mundo todo debaixo da Torre Eiffel... e vai ser do caralho! Mais uma balela. Rola a virada e estouram-se uns pífios rojões. O povo se abraça, mas não sai aos gritos e pulos vibrando mais um ano. E, poucos minutos depois, todos se mandam pra casa e entopem os metrôs. E é só no dia seguinte, ao ver algumas vitrines e telefones quebrados, que vc percebe que houve alguma energia no evento em si. Mas ver, vc não viu nada. Nem balada e nem quebradeira.

 

Enfim, oito dias depois de muita Paris e de suspirar a cada esquina, fui para Barcelona. Começava aí mais uma etapa dessa grande viagem, a descrever em um novo e longo relato. Aguardem...  

Por Rafael Cortez às 16h16

EUROPA - PARTE 01 - PARIS

Voltei de viagem. Vinte e cinco dias na Europa, pela primeira vez na vida. Que dizer?

 

Vi tanta, mas tanta coisa... impossível traduzir isso em palavras... quanto mais nas 1.284 fotos que tirei em meio a 09 cidades diferentes, entre Paris e Espanha... impossível contar direito coisas que só os olhos e o coração sabem absorver bem... pois é, é meio impossível, mas vou tentar descrever algo. Vamos lá:

 

Paris

 

Saí de São Paulo dia 25-12. Direto do almoço de Natal da família Cortez (que não foi dos melhores) para o aeroporto. Betão, fiel amigo, me levou. Lá, encontrei – por acaso – a Carol Bonfante e a Ju Gonçalves. Boas meninas.   

 

Falam muito do cagaço que eh entrar na Europa ultimamente. Ainda mais depois dessa merda de 11 de setembro... ainda mais quando vc eh brasileiro e, possivelmente, um potencial fujão da pátria. Uma pena que a verdade só reforce o preconceito que existe por parte dos europeus – que herdaram isso dos norte-americanos.

 

O fato eh: se vc eh negro ou tem feições árabes, vc eh suspeito. A imigração vai querer saber onde vc vai, qto tem, qdo volta, etc, etc. Mas se vc eh branco e tem feições delicadas como eu, passa tranqüilo por um desinteressado oficial que mal olha seu passaporte. Entrei facilmente em Paris e em Barcelona. E estava tão preocupado com as histórias que ouvi, de sabatinas policiais nos aerportos, que levei caralhadas de documentos, cartas-convites e papéis absolutamente desnecessários. Cheguei a fazer uma reserva daqui de São Paulo em um hotel de Paris, para depois cancelar tudo, só para chegar na imigração com uma reserva de hospedagem... tudo desnecessário.

 

Peguei um vôo pouco confortável e longo demais. Mas cheguei são e salvo na friorenta e nublada Paris. E me virei sozinho para chegar ao apartamento da Madame Rumbaud, francesa que me hospedou sem sequer estar em casa. No inverno ela se muda para o sul da França e aluga o apê para turistas ou estudantes, mesmo sem jamais ter visto essas pessoas. Vc fica o tempo combinado, pega a chave com a zeladora e, no último dia, deixa o valor acertado na gaveta do móvel da sala. Uma relação de absoluta confiança, que jamais funcionaria no Brasil (apesar do fato da sem-vergonha ter aumentado o meu valor quando eu já estava lá). 

 

O apê da Madame Rumbaud fica numa travessa da Av. Bretoil, um dos lugares mais chiques (e caros) da cidade. Metrô Sevres-Lecourbe.Tem três quartos e dois banheiros. Eh consideravelmente grande para os padrões franceses. E caro. Deve valer um milhão de euros, pelo menos, segundo as contas da própria madame.

 

Fiquei desesperado ao chegar no apê. Não havia zeladora nenhuma no prédio. Sabia que um tal Sammie estaria no apê. Consegui entrar no prédio e tocava ambas campainhas – a da funcionária e a do Sammie. E nada.

 

Uma hora depois, mais ou menos, consegui pegar a chave e entrar. Foi bem estranho. O lugar estava com malas e camas desfeitas em todos os quartos. E ninguém dentro. A impressão que tive eh que haviam diversos estudantes hospedados lá. Já me imaginei numa república estudantil e tive calafrios... dividir quarto e banheiro com estranhos, roncos no meio da noite, cada um chegando numa hora diferente, uma algazarra juvenil... argh, e eu não tenho mais idade nem saco pra isso!

 

Horas mais tarde descobri que havia toda uma família lá dentro. O tal Sammie, um jovem de 23 anos, e seu pai, mãe e tia. E todos nascidos no Irã, mas residindo na Holanda. O Sammie estava na Madame Rumbaud desde setembro, estudando letras em Paris. Trouxe os familiares para o Natal e ano-novo. E, para minha sorte, os persas eram amabilíssimos e muito, muito legais. Só o Sammie falava inglês, e era ele minha via de contato com todos. E toda noite eu chegava dos meus passeios e eles insistiam para que eu me sentasse à mesa com eles para o jantar repleto de queijos, batatas, vinho e pães. Eles ficaram horrorizados ao me ver comer camarão – iguaria que me serviram e que provavam pela segunda vez na vida. Pode?

 

Meu primeiro dia em Paris foi desesperador. Após entrar no apê e não ver ninguém ou entender nada, saí para um reconhecimento local. Fiquei noiado ao descobrir que não existem cyber cafés lá como existem aqui. Como estava num bairro rico, presume-se que as pessoas tenham computador em casa. Não conseguia ligar nos orelhões porque desconhecia os cartões com créditos em euros e senhas. Não conseguia falar com as pessoas porque desconheço o francês e tampouco sabia o que perguntar (e como). Cheguei a ligar para minha irmã no Brasil, através de meu celular - que funcionava lá! – para reclamar.

 

À noite me acalmei, conheci a família do Sammie e descobri que tinha todo um quarto com banheiro só para mim – coisa rara nessa terra.

 

Por falar em banheiro, um adendo: eh uma tarefa de morte tomar um bom banho lá. Talvez isso explique a fama de porquinhos desses franceses. Meu banheiro tinha um pequeno tanque no centro. E uma duchinha direcional, muito da vagabunda, pra fazer as vezes de chuveiro. Era bem engraçado eu, todo grande, ficar desengonçado e friorento naquele cubículo com aquela água cheia de cal da França... tanto era ruim que adotei o banho a cada dois dias apenas. Um pouco porco, mas dane-se. (CONTINUA...)  

Por Rafael Cortez às 16h13

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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