Blog do Rafael Cortez

20/02/2008

EUROPA – PARTE 8 – RONDA E FINAL

 

 

Ronda foi incrível. Depois de Paris, foi a cidade mais bonita que conheci na Europa. Completamente diferente uma da outra, claro. Paris eh histórica, cosmopolita e elegante. Ronda eh provinciana, rústica e simples. Mas tem casas brancas em ladeiras arborizadas, mirantes com vistas inacreditáveis e muralhas de pedras mais antigas que os cacarecos de museus diversos. Trata-se de uma espécie de ALHAMBRA que se pode ver de perto: vc entra em todas as torres, passeia sem restrição entre todas as ruínas e se inspira em cada canto... sem turistas, flashes e “invasões bárbaras”.

 

O mal eh que, como o turismo não chegou “causando” ainda em Ronda, por um lado a cidade fica meio exclusiva... meio nossa... mais barata, mais “dada”, mais convidativa para um turismo sensato, respeitoso e introspectivo... mas a cidade também fica menos preparada para nossos anseios modernos e capitalistas: as pousadas são menos gostosas, as infras são menores e todas as ruas, praças e monumentos de Ronda estão bem sujos e deteriorados... havia muito cocô de cachorro em todo, mas todo lugar. Tive receio de que a cidade não vai ser a mesma em um curto espaço de tempo: ou se prostitui pelo dinheiro dos turistas e os assume de vez, ou morre sozinha e suja - e com a total deterioração de seu legado histórico.

 

Após um dia e meio de muitos suspiros em Ronda, voltei para Barcelona. Ainda curti muitas coisas boas na cidade nos três últimos dias de viagem. Fui com a Diana ver a igreja no pico mais alto da cidade, comemos uma Paella excepcional e fiz algumas compras rápidas. Meu primo me proporcionou uma despedida sem igual, com uma noitada de Tapas (as de comer, não as de dar na cara) e Cañas num lugar delicioso, cheio de amigos e carinhos.

 

Dali a pouco eu estava num avião voltando pro Brasil. Pisei em São Paulo e a Lia me esperava no aeroporto, cheia de sorrisos. Vinte e seis dias na Europa. Que tesão. Junto com a Lia, estava a promessa de um novo ano na minha cidade e de dezenas de desafios novos e ainda mais maravilhosos que os de antes (justamente os que eu vivo agora).

 

Enfim, tudo agora eh mais vibrante, intenso e interessante... afinal, depois da minha “descabaçada” européia, eu finalmente me sinto mais “cidadão do mundo!”.

 

FIM

Por Rafael Cortez às 22h38

EUROPA – PARTE 7 - GRANADA

 

 

Granada...

 

Essa cidade sempre esteve no meu coração e nos meus desejos de turista. Sempre disse a mim mesmo que era o lugar que eu mais desejava ver na vida – mais que Paris, mais que Veneza, mais que Roma e o caralho-a-quatro. Muito disso se deve ao fato de ser lá que existe a famosa Alhambra – local imortalizado por violonistas clássicos e compositores do instrumento. Foi lá que Segóvia gravou parte de seus melhores documentários, incluindo o “The Sound of the Guitar”. Foi para Alhambra que Tárrega compôs o famosíssimo e belo “Recuerdos de La Alhambra”. E Granada eh o nome da mais bela das canções de Albéniz na sua singela e impressionante Suíte Ibéria.

 

Quando cheguei em Granada fiquei muito orgulhoso de mim mesmo. Uma puta vitória, ir sozinho para lá, com a minha grana, de acordo com o que eu sempre sonhei, com meus recursos e toda minha iniciativa... ao contrário de tantos amigos “filhinhos-de-papai” que tenho e que desde cedo viajam o mundo, eu estava em Granada, puta que pariu! Sem ajuda de ninguém, com a minha grana. E tudo graças a mim e a Deus!!

 

Não gostei de Granada à primeira vista. Achei a cidade meio estranha, com uma energia meio pesada... não poderia ser diferente. Trata-se de um local onde os árabes viveram por muitos e muitos anos, criando raízes e solidificando sua cultura. Um dia, foram expulsos pelos espanhóis em passagens históricas que não nos chegam com suas descrições mais reais. O que esse povo deve ter sofrido... eh possível encontrar essa herança de dor no rosto das gerações que ainda se encontram por lá, e que te olham criando certa intimidação social. Bem, mas a primeira impressão deveria ser morta pela visita a Alhambra na manhã seguinte. Antes disso, na minha primeira noite na cidade, fiz um passeio bem turístico – com guia, ônibus e tudo – e vi um show de Flamenco numa gruta.

 

No dia seguinte, acordei umas 6 da matina. Tomei café na pousada, servido por um mal-humoradíssimo dono do estabelecimento. Fui para Alhambra a pé, num puta breu, e com chuva! O cara da pousada me emprestou um guarda-chuva meia-boca, que mais me molhou do que qualquer coisa.

 

Só foi amanhecer em Alhambra lá pelas 10 da matina. E choveu o tempo todo! Fiquei encharcado da cabeça aos pés. Descobri que o tênis que ganhei para a viagem à Europa era totalmente permeável. Fui tentar secá-lo depois na pousada usando uma estratégia nada inteligente de colocar lâmpadas acesas dos abajures dentro de cada um... com isso, derreti a língua de ambos e provoquei uma fumaceira de borracha que por pouco não deixou o mau-humorado dono da pensão ainda mais mau-humorado.

 

Apesar da chuva e do tempo feio, foi gostoso conhecer os locais de Alhambra que eu até então só conhecia dos vídeos do Segóvia. Criei rituais bem bregas lá: andava pela fonte do Palácio onde o mestre tocou “Astúrias”, do Albeniz... ouvindo “La Maya de Goya”, do Granados, no CD Player, tocado magistralmente pelo Pepe Romero. Depois, passeava pelos jardins onde Segóvia caminhou 30 anos antes e ouvia “Gran Jota”, do Tárrega, também com o Pepe Romero. O mal eh que, a todo tempo, grupos enormes de japoneses apareciam para cortar o clima com flashes mil, em meio a caricaturas turísticas diversas...

 

O mais louco: assim que botei o pé para fora de Alhambra, o céu ficou azul e o sol surgiu. Eis a Lei de Murphy...

 

Na minha última noite em Granada, assisti a um show de um velhinho-cantador de flamenco num bar apinhado de gente. Ele era a maior das simpatias; um legítimo “show-man”. E se apresentou com um bailarino muito, muito bom, e um violonista que foi o melhor dos que conheci em toda a viagem. Ah, e nessa mesma noite tive – finalmente! – um papo com uma legítima pessoa da Europa: falei horas com uma tia muito louca de Madrid que, ao lado de uma pseudo-namorada (também muito louca), tentou, a todo custo, fazer minha cabeça sobre o fim do planeta Terra e o mau uso de nossos recursos naturais.

 

De Granada para Ronda. Antes, dei uma rápida passada em Bobadillo, apenas para trocar de trem. Almocei na cidade e a incluí na lista das visitadas, só pra constar na minha lista de lugares visitados na Europa.

 

Meu primo Rodrigo tinha me falado de Ronda. Além dele, outras pessoas tinham  reforçado os méritos da pequena cidade: um local ainda não atingido pelo turismo desenfreado, palco de acontecimentos históricos marcantes da civilização moura; pico cheio de ruínas seculares e construções arquitetônicas de tirar o fôlego, como a imensa ponte que divide o lado comercial e o habitacional da cidade – erguida sobre um penhasco que lembra algo visto em Jurassic Park, do Spielberg (mas sem os dinossauros). (CONTINUA)

Por Rafael Cortez às 22h38

EUROPA – PARTE 6 – SEVILLA E CÓRDOBA

 

 

Continuemos o relato da viagem. Passei duas noites em Sevilha. No dia completo de atividades que me esperava, aproveitei cada momento. Ah, como me senti bem por ter tanta liberdade, por estar tão em forma e por ter uma cidade inteira para desbravar! Rodei por muitos e muitos lugares, sempre só e pirando em músicas e papos que eu bolava comigo mesmo e que acabava extravasando em voz alta, meio que assustando as pessoas... fui no Museu do Flamenco, de Cristina Hoyos (meio mico), na Catedral de Sevilha, na Girona, no Alcazar da cidade, com seus fabulosos jardins, na Praça de Espanha, Hospital dos Velhinhos, Jardim de Maria Luiza e um monte de outros lugares que sequer sei o nome agora.

 

Na minha segunda noite nessa cidade, fui a um “barzão” de lá chamado “Los Tarantos”. Li num guia de mochileiros que levei que seria o pico ideal para ver um flamenco mais amador e tomar uma “caña”, ou seja, uma cerveja. Fui só, claro, mas logo fiz amizade com um japonês-figura, que mora em Londres e eh baterista profissional. Ele me mostrou o vídeo que gravou no master-classe de palmas e ritmos flamencos, e ficou tentando acompanhar os sons daquele jeito engraçado dos japas, haha... fora que ele riu muito quando falei que em São Paulo nós temos “Temaky Express”. Bem, depois o cara sumiu e acabei sentado numa mesa com duas chilenas malucas, mochileiras e meio lésbicas... elas me ensinaram a tomar cerveja com tequila e ficamos os três bem breacos, a ponto da chilena mais doida ser advertida umas 4 vezes pela bailarina flamenca da noite de que NÃO PODE FILMAR A APRESENTAÇÃO. ME RESPEITE!!       

 

Cheguei na minha pousada muito bêbado... isso foi bem ruim, porque no dia seguinte queria ir para Córdoba bem cedo, mas acordei numa ressaca do cão... e só peguei o ônibus às 13hs, bem depois do que eu queria.

 

É incrível isso: quando vc passa dos 28 anos e chega aos 30, seu corpo não perdoa mais nenhum excesso... comeu demais, engordou. Bebeu demais, fudeu! Minha ressaca da noite com as chilenas só foi acabar lá pelas 20hs do dia seguinte, em Córdoba, depois de rodar a cidade meio que em marcha lenta.

 

Córdoba foi linda também. Que fenomenal a bela ponte que divide a cidade em duas partes – e como ela eh fotogênica! Fica bonita nas fotos tiradas de dia e de noite, com chuva ou sol. A Mesquita da cidade mereceria uma descrição à parte. Como contar a vcs sobre a igreja católica construída dentro da igreja dos mouros, sem mudar nada da arquitetura original? Como falar da “floresta” de colunas árabes, da beleza dos mármores e das fachadas deslumbrantes?

 

Em Córdoba fiquei na melhor hospedagem de todos meus 26 dias de Europa. Uma deliciosa suíte a uns 17 euros. Mas em Córdoba comi a pior Paella da minha vida, a 9 euros. Quase levantei para dar umas bolachas no cozinheiro, mas fiquei com medo dele ser catalão...           

 

De Córdoba para Granada. (CONTINUA) 

Por Rafael Cortez às 22h37

EUROPA – PARTE 5 - ANDALUZIA

 

Ah, como eu queria ter tempo para deixar as informações deste blog em dia... escrever, por exemplo, a última parte do meu relato da viagem à Europa muitos dias atrás, antes do assunto ficar ultrapassado – como de fato está. E como eu queria compartilhar logo uma novidade legal que ainda não pode ser dividida, ARGH! Mas pra tudo na vida se encontra o tempo certo – e o meu tempo de contar do resto da viagem eh esse agora, e o tempo de dividir a novidade legal virá em breve.

 

Europa. Onde eu parei mesmo? Ah eh, a viagem à Andaluzia. Do caralho.

 

Essa eu fiz inteiramente só, na cara e na coragem. Peguei um vôo de Barcelona a Sevilha, e penei muito ao chegar em Sevilha para encontrar a pousada em que havia feito minha reserva. Me hospedei no Bairro de Santa Cruz, um lugar fascinante da cidade.... com centenas de ruelas minúsculas e lindas, formando um labirinto de arquiteturas simples, elegantes e tipicamente espanholas.

 

Logo na primeira noite fui a um show de flamenco. Custou caro, e depois eu entendi que teria de pagar caro sempre para ver o bailado, canto e violão flamenco na Andaluzia. Eu realmente achava que essa arte era mais acessível nessas terras, que as pessoas cantavam e bailavam nas ruas, passando o chapéu... que seria possível ver os caras ensaiando e fazendo umas “jan-sessions” nas praças e portas de igreja, como parte indissolúvel da cultura local. Doce ilusão...

 

O flamenco na Andaluzia eh bom pra caralho. Forte, legítimo e visceral, com bailarinas lindas, bailarinos ultra-virís, violonistas monstruosos e cantadores de alma. Mas eles sabem valorizar a própria arte e cobrar por ela, num mundo capitalista onde a japonesada quer reproduzir tudo em suas filmadoras e câmeras digitais... logo, se vc quer flamenco na Andaluzia, prepare-se para desembolsar algo entre 12 e 22 euros... e eh preciso fazer como fiz em todos os lugares: chegar antes, reservar ou torcer para ter lugar.

 

Em Sevilha, o flamenco tinha uma esfera mais de espetáculo. Era tratado como tal, com público acomodado antes e recebido com diversas instruções: não fotografem antes de ser autorizado, eh proibido filmar, não fumem, não falem durante a sessão, não tentem acompanhar o ritmo com palmas (quase todo mundo tenta, e ninguém consegue – isso só atrapalha os artistas), etc... Já em Granada, vi flamencos mais “ruts”, mais de raiz... a ciganada mesmo, o povo mais embrionário do flamenco... mas lá as apresentações me pareceram menos “ritualizadas”; ou seja, com menor esforço de inserir o público em um contexto de espetáculo... recebiam-se as pessoas e, sem menor aviso, os artistas entravam e começavam tudo... e mal olhavam para as pessoas, salvo para reprimir alguma palma ou conversa indevida... e buscavam se divertir uns com os outros, entre eles, como num ensaio aberto, sabe? Fiquei com a sensação de estar diante de um flamenco mais rústico e pesado, onde a Globalização trouxe a indesejada invasão de turistas não muito queridos, e onde os artistas precisam se divertir muito mais entre eles para tentar ignorar a “submissão” desta arte ao povo do mundo todo, que quer fuçar a grama de um quintal milenar de artes... 

 

Em Granada, para “exorcizar” essa crise que descrevi no parágrafo anterior, essa revolta, os artistas (as mulheres, em especial) dançavam com muita, muita raiva... com uma energia fora do comum, como se pudessem mostrar ali o sentimento de séculos de opressão de um povo; por seus antepassados, por toda a ira de ver a cultura dos mesmos ser banalizada em tíquetes comerciais e máquinas digitais desrespeitosas. Sei lá, mas lá fiquei com a sensação de que as mulheres bailarinas pareciam meio escravas do negócio de dançar para os turistas... uma sessão atrás da outra nos finais de semana – e isso porque fui na baixa temporada! O tesão deve esvair-se um pouco, não? Ainda assim... vão ser boas desse jeito aqui em casa!!! (CONTINUA)

Por Rafael Cortez às 22h37

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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