Blog do Rafael Cortez

03/05/2008

Nara está viva!

São quase 11 da manhã e só agora Nara Leão chega à entrevista. Ela está atrasada. Tudo estava marcado para as 9 horas. Rapidamente ela se desculpa, tira os óculos de sol e critica César Maia: a culpa é do trânsito do prefeito. Onde já se viu, agora o Rio tem trânsito!

A senhora de 66 anos que senta na poltrona agora é bem diferente da moça que exibiu os joelhos e cantou desafinada em 1967. Nara Leão está acima do peso - o que ela mesma destaca. Mas a culpa é dos netos que não me deixam mais fazer exercícios, diz. A grande satisfação da senhora Nara agora são os filhos de Francisco e Isabel. Há dias inteiros de passeios e brincadeiras com as crianças no Leblon ou no parque do apartamento que a musa ocupa hoje ao lado do parceiro de três décadas, Marco Antonio Bompet. Os netos do Chico (Buarque) às vezes se juntam na farra, conta ela.  

Nara não vê Chico há alguns meses. Aliás, há algum tempo ela não vê Caetano, Bethânia ou a turma da Bossa-Nova. Quem não sai de casa mesmo é o Menescal e a Iara. A cantora se refere ao parceiro de uma vida inteira, Roberto Menescal, e sua esposa. Contatos que a velha Nara ainda preserva em meio à nova vida de psicanalista e cantora nas horas vagas, como ela mesma diz.

O alvoroço em torno do show está uma brasa!, brinca ela, imitando Erasmo Carlos. Não é pra menos. Até então reclusa em seu novo cotidiano, Nara abriu uma exceção no jejum de 19 anos sem gravar Bossa-Nova. Por ocasião das 5 decadas de comemoração da música que mudou o Rio de Janeiro e o Brasil, atendeu ao apelo direto de João Gilberto (sou uma das poucas que ele ainda deixa visitar em seu flat, diz) para gravar um novo disco de canções do movimento que a imortalizou. "Novas Saudades em Tempo de Bossa" ainda nem foi lançado, mas já é um sucesso. A regravação de "Chega de Saudade" (homenagem à pioneira Elizeth Cardozo, como ela destaca) não pára de tocar nas rádios. Por conta desse sucesso, o tão sonhado show de Nara voz e violão foi marcado. E em poucos dias, na frente do Copacabana Palace, nas areias da Avenida Atlântica (onde papai tinha o apartamento onde começamos tudo, lembra) Nara fará sua volta triunfal à música de Tom, Vinícius, Carlinhos e tantos outros.

Hoje é mais fácil me apresentar, apesar de ser cada vez mais raro. Naquele tempo, quando a turma era mocinha, havia mais ingenuidade, mais medo. Não sei porque. Acho que agora que sei usar internet e tenho telefone celular fiquei menos bicho-do-mato e mais solta. É a idade também, né? Nara não se ilude. Sabe que os tempos são outros e que ela é também reflexo de seu tempo e de sua longa carreira. Na verdade, ela está mais madura.

Não é pra menos. A artista que teve um tumor no cérebro, ficou em coma e viu a morte de perto, tem muito o que comemorar. Ganhei uma nova chance, filosofa. O dia 07 de junho de 89 foi um marco na minha vida. E foi mesmo: depois de dias inconsciente, foi nessa data que Nara teve uma parada cardio-respiratória grave. Teve gente que mandou coroas de flores antes da hora, brinca. Mas, milagre ou não, ela se safou. Milagre ou não? Foi milagre sim! - defende a cantora. Vinte e cinco dias depois de muita vigília na UTI e de diversas operações delicadas, Nara saiu da clínica de Botafogo renascida. O tumor nunca mais voltou, conta orgulhosa. Mas eu nunca mais dei trela também, e não largo a homeopatia por nada desse mundo! Após contar isso, ela faz uma pausa e toma 15 gotinhas de um floral que descobriu recentemente e virou uma nova paixão; aliás, agora Nara adotou os florais também, viu?

De 1989 para cá, a carioca nascida em Vitória, no Espírito Santo, fez de tudo um pouco. Casar com o Bompet foi o primeiro passo. Ele foi o companheiro que segurou a barra mais pesada, lembra. A volta à Psicologia foi outra iniciativa. Ela só lamenta o fato de ter tido de prestar vestibular de novo (minha matrícula na PUC caducou, conta rindo). Hoje Nara tem sociedade em uma clínica em Laranjeiras. Mas não atende. Gosta de ler, de escrever sobre o assunto e fazer a consultoria do espaço onde a amiga de sempre, Helena Floresta, colocou a filha para trabalhar. Para Nara, ela sim é "fogo na roupa".

O lado artístico, de 89 para cá, seguiu a mesma linha de sempre. E eu lá sei fazer as coisas de modo diferente?, pergunta indignada. Nara parou um pouco e chegou - de novo - a anunciar o fim da carreira. Só voltou a gravar de novo em 1992, quando lançou o excelente "Nara canta Caetano". Estava devendo um disco desses para ele, ressalta. A crítica gostou. O mesmo não aconteceu com o CD de 1995, "Outras Canções". Qual o mal de homenagear Aguinaldo Timóteo e outros compositores populares? Até hoje Nara não se conforma. Quando lancei o disco só com músicas de Erasmo e Roberto, foi o mesmo barulho. Mas naquela época, as pessoas eram melhores, mais abertas. Em pouco tempo o disco pegou. Hoje a turma tem mais preconceito. Bem, é o que a indignada Nara diz.

Foi preciso esperar até o ano 2000 para ouvir o excelente "Nara" (mais um disco só com seu nome), repleto de músicas pops. Foi um prazer gravar músicas dos Engenheiros do Hawaí, Renato Russo, Rodrigo Amarante, Skank, Pato Fú e outros ídolos da moçada. Nara destaca também a alegria de ter a participação dos Los Hermanos em seu álbum. Me sentí moçinha de novo, gargalha. Fernanda Takai, do Pato Fú, gostou tanto de gravar uma faixa com Nara Leão que dedicou, oito anos mais tarde, um disco inteiro à cantora capixaba. Nara gostou? Não ouví ainda inteiro, mas não publica isso não, por favor! Desculpe Nara, eu publiquei...

Nos últimos oito anos Nara cuidou mais dos netos, da casa e do marido. Coloca aí que eu lí muito, ela pede. Nara leu muito. Seus shows tornaram-se cada vez mais raros - os do Japão eu parei mesmo, conta. Eles só querem saber de Bossa-Nova... fora que não aguento mais andar de avião e comer peixe crú! Na verdade, o que Nara não conta é que não pode mais arriscar a saúde em longos vôos japoneses. Os orientais não se conformam.

Meio emocionada, Nara enfatiza o prazer que teve ao abraçar os novos projetos de sua carreira. Foi gratificante parar um pouco com os discos para batalhar pela pesquisa com células-tronco, lembra. A Fundação Nara Leão, criada pela cantora, defende até hoje projetos de lei ligados ao tema. Fora o nosso empenho em estudar e tratar casos familiares de pessoas que, como eu, tiveram algum tipo de tumor. Nara fala disso com mais alegria do que quando fala de música.

Sobre o Brasil e o Rio de hoje, Nara tem pouco o que dizer. Tudo piorou muito, não é? Mas a política me aborrece demais. Ela, que já fez campanha para o Brizola no passado, vê com ressalvas o governo Lula. Mas seria pior se ele tivesse ganho em 89, quando eu estava bem doente, diz. Eu via tanta estrelinha na época que podia muito bem ser uma militante petista! Nara não perde o bom-humor.

São quase 13 horas e Nara tem que ir embora. Ela explica: a Isabel precisa de uma mãozinha... o Bial tá viajando e a avó aqui vai domar as feras. Como Nara não dirige mais desde 1988, é o repórter aqui quem pede o táxi. A cantora é levada até o hall do prédio sem ter tomado toda a xícara de café que pediu. Antes de entrar no veículo, já de óculos escuros de novo, puxa os mesmos até a ponta do nariz, dá uma piscadinha marota e pede, com cumplicidade: olha lá o que vc vai escrever, hein?

O carro leva Nara. O sol continua brilhando forte em meio ao doce azul do céu carioca repleto da vida ganha que Nara Leão desfruta senhora.    

Por Rafael Cortez às 16h10

02/05/2008

Valeu galera!

Quero aproveitar o momento para agradecer todos os posts carinhosos aqui e no orkut... e dizer que ando em falta com vcs, já que não tenho conseguido responder a todos... mas que prometo que vou tentar fazer isso com mais calma ainda neste feriado, ok?

Quero enfatizar que me orgulho de ver o blog cheio de comentários e discussões inteligentes... que admiro muita gente nova que passei a conhecer por aqui e que tenho muito respeito pelo carinho de quem me quer bem e torce por mim!

Pensando em vcs é que publico uma foto que foi tirada em uma pauta e enviada a mim - ela sintetiza com alegria esse momento do CQC. Nada mais justo senão dividir com vcs!

 

A propósito,a foto é de William Volcov, da Ag. News Free (notem a marca d`água). Grande pessoal!

Por Rafael Cortez às 01h13

30/04/2008

Reflexão

Não tenho a menor dúvida do que realmente fica na vida da gente. Parece brega dizer, mas é só a paixão legítima que permanece. Aquela que vc pode ter por um filho, por uma pessoa com que dividirá a vida, por um parente... no meu caso, eu tenho cada vez mais claro que a minha paixão que nunca vai esmorecer é a minha pela música e pelas artes em geral. Assim como o Léo, meu irmão: trata-se de um cara que nunca será desamparado porque tem seu teatro - seus textos, suas peças, seus alunos e seu enorme amor por tudo isso. Eu tenho uma sorte parecida porque fiz um pacto com meu violão e com toda forma de expressão cênica e artística decorrente dele ou onde o mesmo possa estar inserido.

Não quero dizer com isso que eu não me casarei ou não queira ter um amor mais etéreo... mas acho que até as pessoas passam, ainda que a gente tenha umas mais especiais...

Eu sei quem vai permanecer comigo sempre, mas tbm sei o quanto eu sou sozinho - e isso não me deixa frustrado, relaxem. Sei só que ví nas minhas paixões culturais uma fidelidade e genuinidade que ainda não encontrei em mais ninguém, só isso.   

O CQC um dia vai passar pra mim. Tomara que demore muito, é claro, uma vez que estou amando tudo isso (como diria o McDonald´s). Do CQC eu preciso viver tudo, aprender muito e me doar de corpo e alma pra ficar cada vez melhor. Tenho feito isso com muito prazer, é claro! Mas muita gente que já me conhecia antes - e até umas pessoas que me escrevem agora, me conhecendo da TV (ou nem me conhecendo) - questionam se estou deslumbrado, se vou mudar, se ficarei metido ou se tenho medo de voltar a viver como "antes".

O que eu digo é que o CQC é o máximo - é o meu trabalho e amo ele. Mas eu sei plenamente que é um trabalho - talvez o mais especial até hj, é claro. Mas que já foi precedido de outros e que tbm precederá novos que virão. E que eu sei com clareza que no Brasil, em São Paulo especialmente, o que não falta é ator e atriz querendo trabalhar. A esse povo, uma vida cheia de altos e baixos está prevista... uma vez que o mercado é instável, de memória curta e ingrato. Como estou na fase das vacas gordas, me cabe agradecer a Deus todo dia e fazer muito bem o meu papel, sem me acomodar jamais. E acho que tenho feito minha parte nisso tudo.

Mas aí, quando acabar, eu vou fazer tudo de novo, como sempre foi. Com a diferença de que estarei com um sorriso maior no rosto e sempre com a certeza de quem eu sou e do que me acompanha de verdade.  

Por Rafael Cortez às 18h10

27/04/2008

Saltimbancos e O Mágico de Óz

Como fiquei gripado justo no final de semana da Virada Cultural aqui em Sampa, nem ví nada da programação. Uma pena. Quem foi me disse que tava ducaralho, bem cheio mas bem organizado... e que até mesmo a cansada Gal Costa mandou muito bem!

Buenas, mas eu peguei essa merda de gripe. Reação do meu corpo à vacina contra a Febre Amarela. Tive que tomar na quinta de manhã. A Marina foi comigo e deu uma de mãezona quando eu ví a agulha. Mas beleza, doeu um pouco mas é para o meu bem. Assim posso ir ao Perú pelo CQC cobrir um encontro de chefes de Estado. Bom, não?

Acontece que, como fiquei mega-ocioso em casa - nem trabalho do CQC tive, já que vou dar um gás amanhã no Rio de Janeiro, desde muito cedo - passei muito tempo em frente ao computador. Fuça daqui, fuça dalí, e achei no Youtube dois trailers de peças que fiz até o fim do primeiro semestre do ano passado.

O primeiro trailer é de "Os Saltimbancos". Eu sou o cara grande que aparece fazendo o Jumento. Essa peça era demais de fazer, apesar da exaustão física e do figurino e maquiagem que me faziam perder quase um quilo por apresentação. Tudo ao vivo, com muito gás - músicas no gogó, manipulação de marionetes e partituras corporais pesadas... mas foi, sem dúvida, a melhor peça que fiz. Tanto é que passei 4 anos da minha vida com o grupo, num total de 165 apresentações. E eu saí, mas eles continuam por aí com o espetáculo. Ainda com o mesmo gás, novo ator e muita energia. Todos deviam assistir se pudessem. É um grande trabalho.

O segundo trailer é de "O Mágico de Óz", também do mesmo grupo de teatro - a Cia. Quatro na Trilha. O trailer é bem curto, e eu apareço no papel do Mágico, meio irreconhecível, apesar de ter feito na peça a Bruxa Má do Oeste e outros personagens.

O "Mágico" foi um pouco mais complicado. O espetáculo não chegou ao nível de excelência do "Saltimbancos" e, por isso, era mais penoso do que prazeroso de ser feito. E isso aconteceu porque foi uma encenação levada à exaustão em seu processo de ensaios e construção - um ano e meio de trabalho frenético para montar uma peça que pecou pelo exagero, pela quebra com o ideal de simplicidade - marca registrada da trupe. Sabe quando menos é mais? Nos "Saltimbancos" tudo funcionava bem porque era legitimamente mambembe, como sempre sugeriu a trama do Bardotti. Com o segundo espetáculo, eu sentia que o peixe era maior que a frigideira na hora de ser frito... 

No entanto, o espetáculo teve mil méritos pra mim. Me levou a perceber o que eu queria fazer mais na vida. Deixou claro que meus limites corporais e artísticos são outros, e muitas vezes desconhecidos; que posso explorar novas potencialidades... com o Mágico, eu participei de um processo teatral cheio de nuances e altos-e-baixos... mas que eu banquei até onde deu. Tocava violão com uma mão, arrumava cenário com a outra, dava texto em meio a canções altamente partiturizadas (mas nem por isso afinadas) e usava roupas sobre roupas, marcadas por trocas cronometradas e energia de louco!

O grupo ainda está com o espetáculo por aí. Deve estar bem mais redondo agora, por conta da estrada e de mil outras experiências... devem ter ensaiado mais e deixado tudo mais redondo. Conheço eles: são perfeccionistas, talentosos e não se acomodam! Um dia eu quero rever e saber como está... no que deu tanto trampo... como é ver isso de fora, etc. É um trabalho que tbm vale muito a pena ser visto. Fiquem de olho se souberem que a Cia. Quatro na Trilha está em cartaz e comprem o ingresso, ok? Vcs não se arrependerão.

 

Por Rafael Cortez às 21h41

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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