Blog do Rafael Cortez

20/06/2008

Menos é mais

Hoje recebi um e-mail de uma garota no meu yahoo. Ela falou diversas coisas bacanas sobre mim, o CQC, etc, e me mandou um vídeo de uma cantora sensacional. É a Nathalia Mello, integrante do grupo Trash Pour 4. Ela achou legal me mostrar o trabalho dessa artista, sem saber que eu já a conhecia. Trata-se de uma amiga de amigos, residente no mesmo bairro que o meu, cuja banda principal é produzida por um colega, e por aí vai...   

 

Sem querer entrar no mérito de julgar o trabalho da Nathalia, lembrei que ela suscita em mim uma reflexão legal: menos é mais.

 

Vou explicar pra vcs. A tal Nathalia não me conhece pessoalmente, apesar de estar rodeada de amigos meus. Talvez agora, como muitos de vcs, ela saiba que sou um dos CQCs, que tbm toco violão e coisa e tal. Mas a moça em si nem sabe como ela foi importante pra mim um dia.

 

Em meados de 2006, eu tocava violão as segundas e terças num bistrô francês super elegante aqui de São Paulo, na Vila Madalena. Coisa fina. Ganhava três reais por pessoa que topasse pagar o couvert artístico. Era pouco. Nem todo mundo pagava, e o lugar comportava no máximo umas 45 pessoas por noite. Eu tocava das 20 às 23:30, mais ou menos, e mandava tudo que eu sabia: de Sor a Villa-Lobos, de Tom Jobim a peças minhas. Às vezes, tocava duas vezes o mesmo repertório na mesma noite, pegando a primeira e a segunda leva de clientes. Levantava raramente e destrinchava o violão quase até fazer bolhas nos dedos ou perder uma unha da mão direita. Depois, lá pelo último cliente, descia até o salão – exausto! – e tomava uma taça de vinho (do bom, pelo menos).        

 

O problema do lugar era – e ainda é - o público. Apesar do chef do bistrô ser um cara amável e muito gente-boa (e da comida sempre ter sido o forte do local), os clientes eram entojados. Uns caras muito ricos, meio metidos demais. Esnobes a ponto de sequer olhar pro músico ou bater uma palminha. E, qdo se trata de música, há que se ter respeito. Aliás, respeito é o que mais se deve ter por qualquer tipo de manifestação artística.

 

Eu sempre achei um absurdo as pessoas que não tem educação com músicos, atores e demais expoentes artísticos. Não que eu quisesse tocar no bistrô francês e obter o silêncio de todo mundo presente. As pessoas iam lá pra comer, não pra me ouvir. Mas achava revoltante notar que gente tão rica pudesse ser tão ignorante, tão pedante... ao não olhar na sua cara; ao não manerar na gritaria no salão onde alguém toca Bach; ao não pagar o couvert. Quem é músico sabe do que estou falando. E, sinceramente... estou falando de um bistrô francês onde só a gente mais rica de São Paulo come.

 

Voltemos à Nathalia, a cantora. Um dia ela foi jantar lá com uma amiga. Eu a reconheci de cara: a garota do Trash Pour 4. Começa que ela imediatamente me notou na sacada do salão, local onde eu tocava. Tudo já foi diferente com ela a partir daí. Soube fazer silêncio nas passagens onde eu tocava algo mais melódico - da mesma maneira que teve a delicadeza de falar mais baixo o tempo todo e de aplaudir entre uma canção e outra. Mais: no fim de tudo, após pagar a conta e o couvert, ela ainda veio me dar parabéns. Fiquei tão comovido com isso que nunca esqueci.

 

Por isso que menos é mais. Essa cantora sequer deve lembrar de qualquer coisa desse dia. Sequer deve saber que eu a respeitarei sempre, gostando ou não do trabalho dela. Isso não importa. Ela pode não ter curtido o meu som, mas foi tão educada e sensível comigo que ganhou meu respeito. E naquela fase era tudo tão duro, tão sem horizontes... e eu fazia parte da turma que quase pedia desculpas antes de mostrar alguma coisa do próprio trabalho.

 

Menos é mais. A Danuza Leão, irmã da Nara, conta na auto-biografia que nunca vai esquecer do dia em que pediu uma carona para um diretor de TV com que trabalhava lá pelos finais da década de 80. Ela estava esgotada na vida, tinha perdido a irmã, filho, pai, ex-marido, tudo isso, em um intervalo de poucos anos. Tava na merda total. Matando um leão por dia. E, numa daquelas tardes chatas, depois de mais e mais trabalho, tudo que ela queria era uma carona pra ir pra casa, e só. O cara disse “não vai dar”. E ela relata que tem poucas coisas que nunca se esquecem na vida. “Essa é uma delas”.

 

Se todo mundo fizesse sua parte na sociedade, tendo o mínimo de bom-senso, cuidado com o próximo, carinho com quem está trabalhando ou que não anda bem, etc, etc, tudo isso seria bem melhor. Aliás, se as pessoas ao menos cumprimentassem umas às outras, já seria incrível. Eu lembro bem quando a opinião pública crucificou uma personalidade política recentemente, em plena campanha eleitoral, pelo fato dela ser “arrogante”. “Essa pessoa é uma grossa, tem o nariz em pé, trata mal os outros, etc, etc”, diziam. Engraçado isso. Quem travava esse discurso sequer fazia sua parte. Era a mesma gente que não dava nem oi para o porteiro do prédio, bom dia para o cobrador do ônibus ou para o lixeiro que passa o tempo recolhendo as nossas merdas. Pra muita gente essas pessoas sequer existem.

 

Gozado como a gente passa o tempo corrigindo os outros sem lembrar de fazer nossa própria correção. E quando eu falo que menos é mais, garanto que me refiro que são das coisas mais triviais que passamos às mais nobres. Mas desde quando essa série de cuidados com as pessoas, educação no dia-a-dia e bom-senso social fazem parte das coisas mais triviais na nossa sociedade? Isso dá pano pra manga pra mil novas reflexões. Mas isso é pra outra ocasião... 

Por Rafael Cortez às 18h49

17/06/2008

Contato

Juro que queria postar alguma coisa hoje aqui... como forma de manter esse blog ativo; de honrar as visitas de todos vcs, junto a tantos e tantos comentários postados... e nunca respondidos...

Mas não tenho nenhuma inspiração para escrever agora. Aqui em casa é bem mais frio do que no resto da cidade, e eu só penso em correr pra sala e me enfiar debaixo das cobertas pra ver Seinfeld, hehe.

Sei lá... pode ser uma foto?

 

Abraços!        

Por Rafael Cortez às 22h52

16/06/2008

Socorro!

Não sei o que está acontecendo comigo. Desde ontem, qdo voltei do Rio, até agora, toda vez que ligo esse computador eu entro no Youtube e fico fazendo minhas coisas ao som de uma música que baixo de um dos vídeos.

Nisso, passam-se horas. Respondo e-mails, falo no orkut, leio os recados desse blog, fuço em sites, baixo fotos, etc, etc... tudo ao som da mesma canção.

Muita gente pode achar que estou ouvindo algo do Yamashita, ou o Concerto de Aranjuez, Nara, Badi, irmãos Assad, alguma música minha, etc. Mas não.

Pensei até em pedir ajuda, ligar pro Danilo Gentili - ele entende dessas coisas - ou procurar um profissional, sei lá... ou tentar parar, de alguma maneira! Dar stop no vídeo, desligar a caixa de som do meu PC, desligar o computador de novo, essas merdas. Mas não: dá um minuto e eu preciso ouvir essa pôrra de novo. Lá vai mais um play no vídeo e aqui vou eu de novo a suspirar com a melodia. E dá-lhe o Rafa aqui tentando decorar a letra pra cantar em voz alta no banho. E lá vou eu de novo pensar que é muito, muito brega... mas que eu tô viciado na música a ponto de achá-la muito, muito bonita.

Disso me nasce a consciência de que tem mil coisas que a gente acha cafona, etc... mas que a gente curte escondido e nem assume. Eu, como todo viciado em uma bagaceira, tbm me escondo. Minha irmã entra aqui no escritório e eu finjo que nada acontece. Corto o vídeo e me refugio em meu pseudo-intelectualismo, em minha erudição fake e pretenciosa. Mas mal ela sai e eu dou play de novo no vídeo - mais feliz ainda, pois poderei ouvir tudo mais uma vez, do começo!

Tem sido assim faz tempo. Ajudo cada vez mais o vídeo brega em questão a ter mais e mais acessos. Me penitencio pois sei das minhas raízes musicais. Mas, diacho, os caras são bons, porra! E a melodia me agrada. Esse jogo de vozes, essas notas agudas, esses falsetes na voz, essas oitavas misturadas, tudo junto. Lá vou eu de novo dar replay no youtube.

E, com isso, continuo escrevendo aqui ao som de "Sapato Velho", com o Roupa Nova.   

Por Rafael Cortez às 23h20

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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