Blog do Rafael Cortez

15/07/2008

Philipe Levy

Domingo último eu reencontrei grandes amigos que atuaram comigo em uma peça que fiz no ano de 2003 – Francisco e Clara, o Musical.

 

Algumas pessoas já me perguntaram aqui e no orkut porque ainda não comentei dessa peça. Vale o fato de que não tenho muito a dizer sobre ela... ela era o produto do tesão de muito mais gente do que eu só, e não consegui me relacionar com tudo o suficiente a ponto de criar uma identidade  grande com a mesma ou a ponto de valer um relato completo nesse blog.

 

Fora que tem outra... não falo muito para preservar alguns dos grandes amigos que fiz em cena com o trabalho - uma vez que - é fato, e eu sempre assumi - não gostava da encenação como um todo. Já coloquei que sempre achei o texto fraco, a direção incompleta, vazia, e as atuações – minha inclusive – sofríveis. Mas de nada adianta ficar falando mal artisticamente do trabalho, uma vez que ele cumpriu muito bem tudo a que se propôs realizar – agregou pessoas, comoveu muito a Melhor Idade e fez nascer amizades enormes, daquelas que a gente não esquece. Bem, e parte desses bons amigos se reuniram para um jantar daqueles na véspera da segundona.

 

Aí me contaram o seguinte: o Philipe Levy morreu.

 

Coitado do Philipe. Ele era um ator das antigas mesmo; daqueles que começou a carreira qdo eu nem estava no saco do meu pai ainda (como diria o Rafinha Bastos). Nenhum de vcs deve saber quem ele era. Mas se vcs verem uma foto dele, certamente dirão: ah, tá! Eu o conheço! E pode ser através dos Trapalhões na década de 80 e algumas reprises da década passada... pode ser através da série televisiva Bronco, que ele fez ao lado do Golias e da Nair Belo. Ou talvez quem se lembre mesmo dele sejam seus pais – algum deles deve ter visto uma das dezenas de atuações do cara entre os anos de 1971 e 1999 (que são os que foram mapeados pela wikypedia, onde ele aparece com o nome de Felipe Levy e nem consta ainda que ele já faleceu). Em resumo, o Philipe fez coisa pra caramba na TV, Teatro e Cinema. E eu atuei com ele e posso dizer: ele se amarrava nisso.

 

Quando eu o conheci, em 1998, ele já estava cansado, velho e um pouco esquecido. Um pouco não. Bem esquecido. E justiça seja feita – quem lhe dava trabalho e ainda resgatava sua dignidade era o diretor e ator Evê Sobral.

 

O Philipe tinha um quadro de piadas dentro de um programa de TV do Evê que ia ao ar pela Rede Mulher e TV Gazeta. Era engraçado. Ele contava as piadas e as terminava com uma cara séria e meio incrédula. E eu e outros estagiários da produtora tínhamos de ficar no estúdio rindo de tudo, pra reforçar o coro de risadas que ia ao ar. Nada maus o trabalho. Mas o Philipe terminava de gravar e ia embora ainda mais sizudo, ainda mais introspecto. Parecia um ser mal-humorado demais. Mas era um cara amável qdo conhecido de perto – e um tanto calado e sério porque já tinha tomado porradas demais na carreira de ator.

 

Um cara como ele, que viu as coisas no apogeu, que viveu o cinema de pornochanchadas da década de 70, foi um quinto ou sexto Trapalhão, conviveu com os grandes da Sétima Arte no passado, etc, etc... era natural vê-lo sempre um pouco frio, amuado e rancoroso com a realidade de seu esquecimento. Ele sempre foi uma prova viva de que tudo na carreira de um ator passa – e pode passar rápido. Que todo glamour vivido na base do reconhecimento do público pode esvair-se em questão de poucos meses ou anos depois. Basta que a poeira da mídia baixe. O ciclo do artista entra em outro movimento.

 

É com base na história de pessoas como o Philipe que sei que não posso me deslumbrar com nada; que não posso acreditar em nada – e que sei bem que poucos de vcs estarão aqui comigo quando eu mesmo entrar na outra fase do meu ciclo de ator para, em seguida, voltar à atual... e assim por diante, como sempre foi na nossa profissão.

 

O Philipe fumava muito. Isso o envelhecia demais. Mas ele não parecia ter muitos prazeres além desse e além de encenar. Era colocá-lo pra gravar ou subir em cima de um palco e a coisa mudava de figura.

 

Lembro quando atuamos juntos no Francisco e Clara. O Philipe já tinha envelhecido ainda mais, e precisava de bengala pra andar. Tinha os gestos trêmulos, os passos lentos, um cansaço existencial. Mas na cena em que contracenava com o Joilton Costa – ator de 23 anos de idade – era ele que parecia moleque. Corria, se equilibrava, fazia caras e bocas e arrancava risos de todo mundo – até mesmo dos mais críticos e mais chatos, como eu.

 

Era impressionante a vitalidade dele em cena. Lembro que vi “O Avarento”, última peça do Paulo Autran, já beeeem velhinho... e lembrei do Philipe. Que danado o teatro! Como ele pode fazer com que as pessoas rejuvenesçam tanto quando sobem em seus metros de tablado... de onde vem essa energia que transforma os corpos cansados em acrobatas quando há uma platéia?

 

O Philipe adorava improvisar. Era um barato – mas ao mesmo tempo arriscado para ele. Em pouco tempo, sua capacidade de criar cacos e propor novas situações começou a ofuscar alguns egos em cena e a criar inseguranças no elenco: o que esse cara é capaz de fazer? Pode comprometer o texto e o andamento da peça...

 

Um dia ele fez uma coisa maluca: sem prévio aviso, em plena cena que fazia com o Joilton, trocou de personagem com ele. Pegou o microfone do cara e cantou sua música. O Jô, que sempre foi bom ator e era espirituoso, entrou na brincadeira. A platéia veio abaixo, e o elenco tbm. A gente correu das coxias para o canto do palco e ficou assistindo e rindo. Que genial o Philipe!

 

Mas a brincadeira custou caro para ele. Teatro é coisa séria e tem regras; foi nessa que o Philipe dançou. Ele já vinha se indispondo com a direção e acabou saindo da peça. E a gente, do elenco, ainda tomou uma carcada geral do diretor no day-after da brincadeira. Forma de evitar novas criatividades mal-vindas ao longo da encenação.

 

Lembro que um dia o Philipe foi sozinho ver a gente. Ele já não estava no elenco, e sequer havia sido convidado a assistir lá no dia. Sentou na primeira fileira e criou uma sensação hiper tensa para todos nós. Ele está no teatro, está triste, que fazer? E o cara que o substituía então? Que barra para ele. Fomos orientados a agir naturalmente e dar até uma ignorada no velho ator, uma vez que tudo parecia ser uma forma de chantagem emocional dele para com a direção da peça. Mas foi bonito, porque nós todos – elenco e músicos da peça – combinamos de fazer o espetáculo daquela noite para ele, ainda que não pudéssemos textualizar nenhuma forma de homenagem. Foi lindo, porque cada fala de cada personagem – exceto um ou outro – procurou por ele na fileira A do Teatro, de onde ele assistia tudo com lágrimas nos olhos. Em uma ou duas vezes, principalmente na cena do seu solo, ele chorou de verdade.

 

Depois disso eu tbm saí da peça e nunca mais soube do Philipe. Exceto o que sempre nos vinha à tona: o Philipe está desempregado, sem grana, e agora está com problemas ligados a um dos filhos. Nem cabe comentar aqui. É fofoca, e é menor do que a grandiosidade do que aquele ator podia ser. Menor do que ele era quando mostrava que podia ser um menino travesso no palco. Tudo era menor quando o Philipe atuava porque ele amava demais tudo aquilo – ele só queria, como qualquer um de nós, seu devido respeito e reconhecimento.

 

Aprendi coisas bonitas com o Philipe Levy. Quem diria, ele? Tinha tudo pra ser encarado só como um fanfarrão. Como o cara que ficava brincando de gemer atrás de mim na cena mais triste e silenciosa da peça, onde todos atores estavam em cena e era preciso mostrar uma tristeza fora do comum. E eu parecia sempre o mais afetado com a situação, já que vivia chorando compulsivamente. O que ninguém sabe é que eu estava tendo crises homéricas de riso, já que o filho da mãe do Philipe ficava gemendo e cochichando coisas atrás de mim só pra me fazer rolar de rir. Logo, eu disfarçava as gargalhadas histriônicas com falsas crises de choro, haha!

 

Pobre Philipe Levy. Um beijo grande pra vc e mil palcos mais na imensidão do seu céu de ator!     

 

Por Rafael Cortez às 19h39

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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