Blog do Rafael Cortez

12/08/2008

Breve tratado sobre a relação Público - Artista

Há algum tempo quero escrever sobre um assunto: a maneira com que as pessoas espectadoras de trabalhos televisivos, teatrais, musicais e artísticos de alguma projeção se comportam com quem faz parte dos mesmos.

Quem lê bem esse blog ou me conhece um pouco já sacou que tenho uma visão crítica acerca das pessoas que buscam a fama como finalidade, e não como conseqüência. Há quem saiba bem que uma das coisas que menos topo no mundo da mídia é o afã dos que querem ser famosos a qualquer custo.

Vcs já leram meus artigos sobre o povo que procura reality-shows na busca de uma vida fácil - à custa da promoção de trabalho artístico nenhum e bunda de monte. Já sabem que detesto a exposição desenfreada de egos nas festas populares, especialmente no Carnaval. E que sempre, sempre critiquei aqueles que chegam na grande mídia sem embasamento para contribuir com trabalho no meio; sem conteúdo, com cara bonita, corpo bom e nada mais.

Vcs sabem que sempre achei um porre as pessoas que estão no meio artístico sem ter nada a dizer – sem ter trabalho, sem ter cabeça, convencendo os outros que a vida no “show-business” é uma vida de glamour, de festas, de pegar geral e ganhar muita, muita grana (sendo que não é assim)...

Vcs sabem que acho que toda pessoa que passa a ser conhecida em rede nacional com um trabalho pretensiosamente artístico deve, antes de tudo, ser formadora de opinião. Que nos nossos tempos e na nossa terra é preciso se conscientizar que a maior parte da população não tem nada e vive na miséria... e que alardear uma vida de baladas, viagens caras e “bunda-lelês” de celebridades é um desserviço a muita gente – a menos que isso seja feito sob nova abordagem (de preferência crítica) .

Hoje parece que vale mais à pena tentar a vida no meio dos famosos do que cursar uma faculdade, levar adiante uma carreira de estudos, ser doutor ou ter uma excelente qualificação profissional. Ainda mais qdo há terreno para se fazer tanta apologia de fofocas, namoricos com gente gostosa, salários enormes e regalias mil, que é o que mais querem esses “artistas”... ainda mais quando a desigualdade social nesse país convence um pai da periferia de que seu filho pode ganhar muito mais jogando futebol profissional do que indo à escola... o que, de fato, não deixa de ser verdade.

Ainda que eu tenha críticas mil à mídia, ela é minha terra agora também. Aliás, antes de ser famoso eu já era jornalista. Formado e tudo. Logo, a imprensa já me é conhecida. E entendam: meu bode não é com a imprensa, ainda que parte dela não seja mesmo “do bem”. E, claro, por eu ser jornalista, tenho a tendência de defender a profissão e o meio. Não me irrita o segmento de revistas que fazem apologia de celebridades e sensacionalismo em cima dos egos – tenho amigos que precisam desses veículos para viver; eu mesmo já trabalhei com isso e sempre fui tratado com atenção e respeito por esses colegas... pq me coloco de forma atenciosa e respeitosa para conviver com quem me procura.

Para mim, o problema ainda é com as celebridades. Não com quem as divulga. Só existem veículos especializados em fazer apologia da vida besta de famosos porque há famosos querendo levar vidas bestas – e isso no Brasil, onde a vida do povo não é nenhuma brincadeira. O cara tem a opção de querer viver com princípios e cuidados ligados à própria imagem e ao público que o prestigia qdo chega lá em cima. E pode, sim, sobreviver com dignidade. Aliás, podem ver: os caras que mais permanecem ativos na profissão – e até mesmo na mídia - são os que sabem se preservar ou lidar maduramente com o meio. Mas há sempre a predominância do cara pop que não sabe ter bom senso como figura pública, querendo reproduzir a vida de astros internacionais sem ter a realidade dos países internacionais em sua própria terra.

Puxa, esse é o Brasil. É preciso ter cuidado antes de mostrar que se tem tanto e que se pode ser tão feliz, deslumbrado e esbanjador. Olha como as pessoas passam fome aqui, caracas!!!    

Em resumo, minha visão é a mesma. Antes de criticar a imprensa, de criticar o sistema, de criticar o governo, sempre critiquei o cara que se utiliza da vida pública para se fragilizar e fragilizar o bonito da profissão do ator/ músico/ artista. Nesse ponto continuo o mesmo. A diferença é que minha forma de criticar hoje se vale do que faço no meu trabalho. E a diferença é que agora a bucha é maior, uma vez que tbm virei um cara público. E chegou a hora de dar o exemplo e não cair nos mesmos erros. E é aí que fica difícil pra caramba.

Logicamente minha vida mudou. Logicamente tbm erro. Vcs podem dizer que tive ou vou ter ainda comportamentos deslumbrados e extravagantes na vida pública. Mas eu vou errando e me corrigindo, que é um direito meu. Só que sem perder o foco no que eu acredito – por isso esse texto hoje.

Retomando o rumo da minha reflexão: o que eu quero abordar hoje aqui é um pouco diferente. Não mais o cara na vida das pessoas, mas as pessoas na vida do cara – que ajudam a justificar o que ele se torna.

Relações são construídas o tempo inteiro entre pessoas públicas e entre o grande público. Há um peso enorme no papel que o povo desempenha na vida dos que estão em evidência – esses mesmos que eu disse que podem ou não optar por um caminho sem inteligência, da fama pela fama, da extravagância e insensibilidade social.

Logo, o público tbm é responsável por construir seu artista. Público raso constrói artista raso. Público inteligente constrói coisa inteligente. Portanto, quero muito pedir aos amigos que já passaram a fazer parte da vida desse blog que reflitam sobre isso tbm. E, para tanto, vou dar dois exemplos de acontecimentos recentes que mexeram muito comigo.

Primeiro: há muito tempo uma garota me escreve no orkut, yahoo e aqui. Ela começou com essa coisa de “eu te amo”, “vc é lindo”, etc, etc. Confesso que acho esse papo meio estranho e não topo viver desse culto. Pode até me fazer bem às vezes ou fazer bem ao meu ego, mas não mexe comigo... não permite nascer uma amizade e enfraquece meu potencial de auto-crítica e ilude minha auto-estima. Eu não posso ficar “me achando”, e nunca criei uma relação que valorize o chaveco... há espaço para chavecos sim, uma vez que isso é da minha pessoa e eu sou um cara solteiro, emancipado e tbm quero curtir. Mas tem horas em que a gente saca se o santo bateu ou não... e parte pra outra, não é?

Bem, essa garota me escreve todo dia. Sempre as mesmas coisas. Um dia eu parei de responder o de sempre – “valeu”, “obrigado pelo carinho”, “um beijo” – e lancei outra frente de relacionamento: coisa do tipo – “olha, não vai rolar... mas podemos ser amigos. Me conta de vc? Eu sou assim, assado, gosto disso, vamos falar de X e Y, etc, etc”... ou seja, dei abertura para que pudéssemos ser amigos. Vcs pensam que ela mudou? Acho que ela sequer leu o e-mail. Tanto que até hj não mudou uma vírgula. Continua agindo daquela maneira que convencionou como a mais ideal para ela – bajula, manda frases feitas, baba ovo, etc. Nunca mais respondi e nem leio mais. Me perdeu. E olha que coisa: eu dei abertura para mais que o que ela queria. A gente podia ser próximo, como hj de fato sou de algumas pessoas que conheci pelos cyber-meios e CQC. Tem quem possa hoje freqüentar as minhas rodas e contar com a minha cumplicidade. Mas tem gente que, assim como essa garota, não quer nada além da relação vazia da tietagem e das frases feitas.

E é justamente essa relação que prepara o terreno para o cara exposto ter uma postura de futilidade e descaso com seu papel de formador de opinião. Há um consenso de que as pessoas devem se comportar de maneira fanática algumas vezes, um tanto superficial em outras. O que une uma coisa a outra é uma trava em se criar mais do que o que todo mundo conhece nos contatos que foram ditados por alguém, um dia, não sei quem nem como e qdo, mas que valem como regra de conduta com gente pública.

 

Percebem? Onde começa o problema? Pq eu devo querer dar mais à garota que só quer me dizer frases feitas qdo eu quis abrir outra frente de relação? Outro cara pior pode se aproveitar muito mais disso do que eu... e é aí que começam os comportamentos criticados por mim.

O outro caso. Outra menina. Escreveu várias vezes, foi um dia ao CQC, tiramos fotos juntos, etc. Passamos a ter mais contato via orkut. Tava indo bem, conquistando um pouco mais minha confiança, etc. Ontem brigamos por e-mail porque ela leu coisas de mim que divergiam das que queria receber. Expôs-me um problema e eu dei minha opinião. Respondeu me dizendo que estava decepcionada, que não esperava aquela resposta... que eu parecia uma pessoa legal.

Aí escrevi uma resposta longa e contundente dizendo que ela precisava parar com essa história de idealizar... de idealizar a relação que a gente poderia ter, por eu ser da TV... de idealizar o homem e amigo que deveria me tornar para lhe dizer apenas as coisas que ela quer ouvir. E disse mais: que tenho certeza que enquanto eu tiver toda a paciência do mundo com as pessoas e fizer o que elas esperam de mim, lindo. Eu sirvo. Mas qdo entrar com minha opinião, contestar algo ou não me tornar disponível para algo, correrei o grande risco de ser muito mais lembrado como o cara ruim do que como alguém que tentou se impor tbm – ou mudar o trivial dessa relação empobrecida que se cria nos limites artista – público.

O problema é: existe uma expectativa idealizada em torno de algumas pessoas que parecem “inatingíveis”. Deve ser terrível ter de mudar sempre a opinião só para não magoar aqueles que acham que o cara só deve ser agradável, demagogo, solícito e simpático.

Se acredito tanto no papel de formador de opinião que defendi aqui, faço a minha parte pensando que posso ajudar a formar um pouco as pessoas. Através do meu trabalho, hoje com visibilidade... ou mais intimamente, com vcs desse blog, no orkut, no mundo da net. Poderia não ter gasto todo o tempo que gastei para escrever essas linhas e toda essa reflexão. Mas penso que o tema é bem propício pra se debater e que eu não poderia ficar em paz comigo mesmo se não fizesse meu papel. Espero que isso nos ajude a construir relações melhores daqui pra frente. E isso é mais abrangente do que o estabelecido nos limites desse blog.

 

Um abraço!

 

Rafa

Por Rafael Cortez às 21h35

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

Histórico