Blog do Rafael Cortez

26/01/2009

Machado na Fnac - Continuação

É, fica difícil tocar com tanto barulho...

Não ganhei nada para fazer o lance na Fnac. Nunca ganho nada para divulgar os audiolivros e promover meu encontro com o público em torno desse trabalho. Minha motivação, nesse caso, é promover o Machado. É falar de valores concretos, de boa literatura, incentivar a moçada a largar um pouco os Harry Potter da vida e valorizar o que temos de melhor. No entanto, quero só que os lugares que me convidam tenham um pouco de cuidado e atenção comigo.

No caso da Fnac Paulista, o maior problema foi o som. Independente da qualidade dos microfones e de terem liberado a platéia para sentar antes mesmo da minha passagem de som, o que pegou lá foi algo estrutural. A Fnac Paulista, que propagandeia o filão cultural, que promove encontros entre público e artistas, projetou um palco ao lado de um movimentado café. Isso não atinge só a mim, mas a todo e qualquer cara que queira mostrar sua arte alí.

Há uma regra clara para mim no que se refere à relação artista-público. Tenho alguma experiência para poder dizer que arte não pode ser misturada com comida, a menos que haja consentimento de ambas as partes - tanto por parte do artista quanto por parte de quem vende/ consome.

Uma coisa é tocar em restaurantes, bares, choperias e churrascarias. O músico já sabe que as pessoas estão alí para comer. A comida é a atração, não o som e a arte. Se o cara se queixar demais disso ele tá errado. Eu toquei por seis meses num restaurante badalado aqui da Vila Madalena. Reclamei muito porque achava que meu som estava sendo humilhado pela falta de educação das pessoas. Elas falavam alto, me ignoravam, propunham brindes no meio dos meus Villa-Lobos e riam alto quando eu começava a tocar uma peça minha. Eu estava errado. A proposta alí era inserir a música como trilha para a refeição, o que em nada está equivocado - desde que seja claro para todas as partes envolvidas que assim é que se dá o papo.

Mas... um espaço cultural como a Fnac Paulista... receber artistas que querem expor, a convite da própria rede, seus trabalhos ligados à literatura, música e produção de idéias... num lugar em que as pessoas assistem a tudo sem nenhuma separação de um mal-ajambrado e barulhento café... isso me parece tão, mas tão equivocado!!

Como um local que fala de arte e cultura - e vende arte e cultura - sujeita esses elementos a essa experiência? Como justificar o fato de que construíram um café do lado de um palco onde haverá tanta exposição de idéias e produções? Não sabem que, com isso, jogam os artistas na área de risco? Que o músico, ator, escritor, poeta, cineasta, sei lá, ele sempre vai perder para a comida?

Alí era para termos uma troca de idéias. A proposta do local é permitir a apresentação do artista, não soterrá-lo com operações sonoras gastronômicas e recados de ofertas apitando nos ouvidos de todos através de alto-falantes. Me parece uma falta de cuidado com quem topa trabalhar artisticamente de graça, pela troca de idéias, pela oportunidade de apresentar e comercializar um trabalho que dá, quase sempre, tão pouco retorno...

Fiquei bem triste com isso. Parece um episódio isolado e, para alguns de vcs, um exagero meu... um ataque de estrelismo, talvez? Mas não.

Há algum tempo me incomoda muito perceber como artistas não são respeitados e como ainda parece haver um comportamento de mercadoria em cima da gente.

Há cada vez mais espaço para a apresentação de estudiosos de diversas artes. Há um potencial enorme de público para muitas delas. E, no entanto, cada vez mais discutimos que o PÚBLICO tem problemas, que ele não compreende isso e aquilo, que ELE não vai ao teatro ou não entende nossas músicas. Para mim, o maior problema é encontrar algozes das nossas próprias desgraças. Somos artistas de palco num contexto em que produtores e espaços não nos respeitam devidamente e comprometem o potencial de venda daquilo que temos a oferecer para sobreviver. Mas a briga com os caras do poder e com os locais de exposição é pesada e ninguém compra. Sobra pro espectador pagar o pato pela relação mal-resolvida. O artista sente que o espaço em que se apresenta é mal concebido e isso o prejudica... e, não raro, ele sai de lá puto com tudo, mas descontando em quem não deve. Ainda por cima faz a média e sorrí mentirosamente para os produtores e técnicos locais agradecendo pela oportunidade.

Isso vira uma bola-de-neve. O público se dispersa em locais que não atendem direito às necessidades dos artistas. Passa a não compreender o trabalho de quem admira porque não conseguiu prestar atenção como devia. Logo, o cara sai da apresentação com a sensação de que não sacou o que o artista tinha a dizer - ou, pela falta de interação completa, imagina que viu algo torpe. Logo, devolve com sua insatisfação. Isso deixa o artista ainda mais irrequieto e desgostoso. Começam os ruídos de comunicação e as culpas passam a ser distribuídas. Como em geral falta bom-senso de ambas as partes, são os produtores e os locais de realização dessas produções que costumam sair impunes.

Quero tocar, quero falar do Machado, quero apresentar peças, fazer Stand-Up, o que for. Sou um cara antenado com produções culturais e sempre serei. Tenho muito que aprender, muito para experimentar, muito pra viver... mas já tenho alguma coisa para mostrar.

Vou continuar fazendo meus lançamentos de audiolivros em todos os lugares em que for convidado. Mas não posso mais submeter o que eu preparo com tanto amor e afinco às incompatibilidades dos locais que me convidam. Daqui pra frente só vai rolar lançamento dos meus audiolivros e recitais de violão comigo se as coisas estiverem do jeito certo. Com o mínimo de cuidado comigo, com meu público e com tudo que eu investi.

Se vcs conhecem um pouco do que eu penso e muito do que já coloquei nesse blog, certamente vcs entenderam o que eu disse.

A todos que compareceram à Fnac Paulista no último dia 22, muito obrigado mesmo. Vcs foram a melhor coisa daquela noite. E mil desculpas também... prometo que farei minhas apresentações com ainda mais esmero... e exigindo que os locais dêem a vcs o respeito e qualidade que vcs merecem sempre.

 

Quanto a Fnac... espero que entendam bem o teor da minha crítica e o meu desabafo. Ainda sou cliente e amigo de vcs. Tenho propostas para fazer o lançamento dos meus audiolivros nas Fnacs do Rio e em Campinas, e vcs sabem que eu já topei. Mas façamos a coisa de modo certo e agradável para ambas partes. E, se meu texto ajudou vcs em alguma reflexão e cuidado maior com que gosta de se apresentar por aí, já valeu. Sei que vcs são bacanas e podem ajustar os pontos negativos... certo?

Um abraço grande a todos

Rafa

 

Por Rafael Cortez às 15h04

Machado na Fnac

Eu na Fnac na última quinta, dia 22... podia ser tão melhor...

Na última quinta, dia 22, me apresentei na Fnac da Avenida Paulista, aqui em São Paulo. Reuni a galera por conta do lançamento na loja em questão dos meus audiolivros do Machado de Assis. Tive o meu maior público em torno de um projeto como esse. Foi, evidentemente, gratificante. Quem diria que, em pleno janeirão, a gente teria tanta gente presente?

Para a ocasião, preparei algo diferente. A cada apresentação minha ligada a esses audiolivros, sentia que faltava alguma coisa. Uma amarração maior com música, certamente... mas o que?

Encontrei o que eu procurava. Me dei conta que uma das peças que toco há mais tempo no violão – “Nessa Rua”, com arranjo de Isaías Sávio – retrata bem o que penso do Machado de Assis. Há um tema infantil apresentado logo de início. Para mim, esse é o escritor. Ele surge, infantilizado, porque o nossa primeiro encontro com ele se dá justamente na infância. Depois, esse mesmo tema é subdividido e fica difícil. No arranjo do Sávio, a melodia se encaixa como pano de fundo em uma série de escalas. Para mim, é o Machado que a gente consome adulto. Ainda é o mesmo cara, o mesmo escritor... mas a gente o aproveita melhor. Ele fica mais complexo, mas rico em nuances e significados. Natural que a música seja a mesma, mas se complique estruturalmente. Em seguida, o arranjo de Isaías Sávio privilegia o mesmo tema... mas tocado de um modo mais maduro, mais sério, sóbrio. É o Machado consolidado, bem resolvido. Aquele que a gente ainda vai encontrar no caminho quando estiver preparado. Quando estivermos velhos, talvez? Por fim, a música volta a apresentar o tema inicial – do jeitinho que o conhecemos antes, sem tirar nem pôr. Para mim é o Machado de Assis de volta mostrando que, durante todo esse tempo, era ele mesmo – o mesmo. Nós é que o adaptamos na nossa vida de acordo com o modo que vivemos e amadurecemos. (“Atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a adolescência”... de Bentinho, em “Dom Casmurro”... faz algum sentido para mim nesse contexto.)

No caso da minha execução de “Nessa Rua”, ainda coloquei um ingrediente novo: uma introdução que não está na partitura do Sávio, criada por mim, com uma certa dissonância de acordes. Ela visa mostrar que algo desconhecido se apresenta em breve; algo enigmático e talvez difícil. Ora, não é assim que assimilamos Machado de Assis logo de cara, na escola?

Outro dia contei na Bienal do Livro que as crianças acham o Machado de Assis chato quando o conhecem em meio à obrigatoriedade de sua leitura: ele vale nota, ele cai na prova e ele é muito difícil. Depois, os adolescentes voltam a ter esse problema: Machado cai na Fuvest, cai no vestibular, vale parte do passaporte a uma Universidade e vida de prestígio.

Lembro que um professor estava presente na platéia. Ele me procurou depois e disse ter ficado muito chateado comigo por ter dito isso. Alertou-me para o fato de que sou formador de opinião, sou jornalista, e que posso criar imagens erradas do autor. Fora que tal depoimento poderia ser encarado como algo um tanto ingrato de minha parte – taxar de chato o autor que tanta coisa me deu (incluindo um trabalho de audiolivros)... não pode!

Eu perguntei ao professor em questão: estou mentindo?

De fato, não sei como é hoje nas escolas de Ensino Fundamental. O ideal é que, antes mesmo de recomendar o início da leitura de qualquer uma das obras do Machado, os professores dêem uma introduzida no autor. Seria bom receber uma aula “pré-Machado” antes de mergulhar em seus textos. Garanto que isso despertaria maior interesse por parte de futuros leitores e fãs em potencial... fora que isso minimizaria alguns problemas de compreensão e contextualização de sua escrita.

Bem, o fato é que quando fui ler “Dom Casmurro” criança, ninguém me preparou para nada. Ninguém me situou sobre o contexto brilhante de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Tá certo que meu colégio era uma porcaria, mas isso aconteceu. Eu tive de aprender a ler Machado de Assis praticamente sozinho, mais tarde, mais calejado e mais instruído.

Em resumo, minha execução de “Nessa Rua” foi realizada de modo a contemplar tudo isso que disse até agora. Mais: ainda toquei “Farewell”, de Sérgio Assad. Uma música espetacularmente bela que, na minha modesta opinião, poderia traduzir o estado de espírito do narrador de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” no capítulo “De Como Não Fui Ministro D’Estado”. Salientei que não foi essa a música que gravei no audiolivro. Fiz uma composição diferente e a registrei em estúdio. Uma versão minha, autoral, assim como a que criei para o capítulo “O Velho Diálogo de Adão e Eva” no mesmo livro. Tudo por conta de direitos autorais. E tudo interpretado no dia, violão ativo, em plena Fnac Paulista.

Buenas, agora o fato. Preparei tudo isso e fui apresentar na Fnac Paulista. E vcs acham que foi legal? Que me senti bem? Pelo contrário.

Modéstia a parte, toquei bem. Venho preparando um retorno bacana ou ao menos honesto ao violão. Tô de férias do CQC e posso estudar mais o instrumento. Logo, me preparei muito para mostrar esse trabalho e cheguei com a minha parte pronta.

No entanto, quem pode me explicar a razão de existir tanta falta de cuidado com artistas que só querem mostrar seu trabalho? (CONTINUA...)

 

 

Por Rafael Cortez às 15h02

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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