Blog do Rafael Cortez

14/02/2009

Loreno

Hoje aconteceu uma coisa que mexeu muito comigo.

 

Não sei se vcs vão entender... mas preciso dizer.

 

Eu estava meio estranho hoje, sabe? Aqui em São Paulo tá chovendo fino e o dia esteve feio assim desde cedo. Eu acordei meio de ressaca por conta da balada de ontem e fiquei muito tempo sem dizer nem fazer nada.

 

Lá pelas tantas, no meio da tarde resolvi ir à Praça do Pôr do Sol, aqui perto de casa. Passei um tempo lá, sozinho, naquela garoa, com uma capa de chuva que mal resolvia o problema do frio e o incômodo da água. Me dei conta que estar lá era uma bobagem. Ninguém quer sair de casa num dia como esse – pq logo eu fui para uma pracinha-família curtir uma fossa de sabadão?

 

Foi quando eu vi aquilo. Uma pessoa sentada no meio do mato, um pouco mais à frente de onde eu estava. Eu nem tinha percebido que havia alguém ali. Que loucura, e sem capa, sem guarda-chuva, sem nem se importar com nada!

 

Fiquei observando de longe e resolvi me aproximar discretamente. Notei que era um homem, e um homem bonito!

 

Ele estava ali, com uma bata, uma roupa leve, falando com uma flor solitária que insistia em nascer no meio de um mal-cuidado verde. Ele beijou uma a uma das pétalas da dita-cuja, e pôs-se (pasmem!!) a rolar na grama! Sim, na grama molhada! Ele falava em voz alta alguma coisa do tipo “doce-de-leite... vida boa como um pote de mel... parabéns, abelhas!!”

 

Foi quando ele me viu. Sorriu e perguntou se eu gostava de abraços. E disse que as árvores gostam (e abraçou uma).

 

A gente se apresentou e ele disse já me conhecer. Falou algo do tipo “teu trabalho é como acender as luzes depois de chorar”, ou coisa assim. Me ofereceu um pedaço de pão e cantou um trecho de uma música do Wando. Coisa de louco. Depois correu atrás de um carro e disse que a Senhora Natureza não quer ser sufocada pela fumaça. Voltou rindo e dando pequenas “estrelas” com o corpo. E eu fiquei hipnotizado por aquele cara.

 

Seu nome é Loreno, e ainda não tive tempo de conhecê-lo como gostaria. Conversamos por horas (ele interrompeu muitas vezes para fazer cócegas em crianças). Estou perturbado porque acho que o conheço muito bem, mas não sei de onde. Sei apenas que ele me deixou obstinado. Marcamos de nos falar de novo amanhã, e eu não vejo a hora. Ele quer me levar ao centro da cidade para observarmos juntos algo que ele acha lindo: pessoas dentro dos carros. E a poeira das ruas sendo atropelada pelos passantes.

 

Não sei o que está acontecendo comigo. Não é coisa de atração sexual, pois não jogo nesse time. Mas eu preciso ver o Loreno amanhã de novo. Tenho bons pressentimentos a respeito dele.

 

Um abraço

 

Rafa

Por Rafael Cortez às 22h36

12/02/2009

Sobre Stand-Up, processos e crescimento

Muita gente tem me perguntado como tem sido fazer Stand-Up – bem como o lance de datas, se farei aqui e ali, etc, etc. Outras pessoas me perguntam pq fui fazer isso, se estou gostando, como tem sido, etc. Bem, vou me dedicar a falar um pouco sobre isso nesse texto.

 

É verdade, comecei a fazer sim. E nunca tinha feito antes. E pq fui fazer nessa altura do campeonato? Algumas pessoas podem achar que foi por puro oportunismo, vontade de ganhar grana, aparecer, etc. Nada disso. Vou explicar as razões.

 

Quem faz Stand-Up sabe bem que as apresentações na noite, em bares como os que eu tenho ido, não dão grana. No máximo rendem algo para os humoristas fixos, que trabalham na base do risco – se o bar encher, eles rateiam legal o que restar do lucro. Se não encher, todo mundo sai no prejuízo. Para convidados como eu pode rolar, no máximo, um valor pequeno que os grupos tem ou não de reserva... mas, como em muitos casos, a gente topa ir mesmo sem nada, no meio da programação já fechada, de surpresa, pra justamente fazer.

 

Grana não é o que me move agora nessa nova empreitada. O que dá grana em Stand-Up é show fechado e evento... mas vc precisa ter bom-senso nessa jogada e só oferecer um show ou um trabalho nesse estilo para empresas e público quando a coisa estiver realmente boa, mas muito boa mesmo. Não é o meu caso e, sinceramente, não acho que seja o caso de qualquer pessoa que tenha iniciado o Stand-Up ou qualquer outra trabalho artístico há tão pouco tempo. Não creio que um artista deva se meter de cara a ganhar grana com algo que precisa, primeiramente, testar, testar e testar... até dominar.

 

Ainda tenho aquela ilusão da época do teatro... aquela que diz que a gente tem que ser regido mesmo pelo tesão, pela vontade de estar no palco, pelo frio na barriga que rola toda vez que se está na coxia esperando pra pisar no tablado. Grana, reconhecimento, etc, é conseqüência disso e só deve vir depois.  Quem souber se mover artisticamente pela arte, e não por suas seduções e mentiras diversas, vai se diferenciar por ser uma coisa maior: artista. 

 

Ainda acho que o tesão de estar num palco é maior até mesmo que o nosso ego. Alguém pode achar que o fato de eu fazer Stand-Up agora é apenas mais uma maneira de aparecer. Para essas pessoas eu digo o seguinte: que vantagem eu tenho em botar minha cara à tapa, fazendo algo que eu não domino, no meio de gente tão, mas tão boa, sendo que hoje poderia me resguardar dentro da imagem positiva que acabaram criando de mim?

 

Nessa altura do campeonato, com a visibilidade que o CQC me deu, é uma loucura fazer Stand-Up. É óbvio que eu conto com uma facilidade de acessos que o programa me permite ter hoje... mas é óbvio que vão esperar mais de mim porque sou conhecido e associado ao segmento do humor. E é claro para mim: esse bônus de generosidade do público dura alguns minutos. Se em pouco tempo vc não mandar bem e for engraçado, tchau. E isso vale para todo mundo.

 

É muito bom ser conhecido hoje e conseguir espaços tão bacanas para me apresentar em algo novíssimo para mim, com gente tão legal e experiente. Se eu não fosse “famoso” hoje eu demoraria muito para pisar no palco do Comédia Ao Vivo, por exemplo. Mas é terrível, por outro lado, ser uma figura conhecida quando se faz necessário engatinhar como todo mundo. A cobrança é muito maior. E a decepção das pessoas contigo é bem mais intensa se vc for mal - e vc se penitencia um pouco mais tbm se não sair tudo 100%.

 

Loucura é que estou fazendo Stand-Up desde 15 de janeiro desse ano. Tô muito, mas muito longe de estar na base do que acredito ser algo bom. Quem conhece o comediante e ator Steve Martin sabe que ele ficou uns oito anos fazendo Stand-Up... e só depois ele sentiu que a coisa tava realmente legal. Ou seja, é preciso investir, ter calma, bom-senso...

 

O fato de ser conhecido me levou ao palco do Ao Vivo, mas me ferrou também. Eu não fui bem lá. E fiquei me sentindo mal porque sei que minha visibilidade cria expectativas em todo mundo, ainda mais em mim. Neste sentido, ser famoso não é bom.

 

Mas é mais difícil de explicar do que vcs podem imaginar. Tem uma coisa no Stand-Up que é do caralho, e isso eu tenho visto em todo mundo que sobe em todos os palcos: é viciante.

 

Lembro do Oscar Filho comigo em Buenos Aires, em dezembro do ano passado. A gente gravou um comercial para o CQC e nosso vôo para o Brasil estava marcado para umas 16hs. Como tinha escala no Rio de Janeiro, a gente só chegaria em São Paulo às 21hs. Ele tava todo aflito, querendo antecipar a passagem, etc. Tudo para não deixar de se apresentar no Clube da Comédia naquela noite. Eu ressaltei que ele sempre apresentava, que seria apenas uma sessão perdida, etc. Mas ele me falou que se eu fizesse, eu entenderia. A gente não quer perder uma única oportunidade de se apresentar.

 

É verdade. Acho que o Stand-Up chegou no Brasil com o impacto de algo que está sendo construído aos poucos. Quantos são os caras que fazem isso hoje no nosso país? Tem 100 caras? Tem o que? 200, 300? É a novidade, aquilo que transforma humoristas investidores em pioneiros; o tipo de arte que ainda está em processo e que pode ser moldada, caracterizada, personalizada. Muito se escreveu, se fez e se construiu com o teatro, que é a mais nobre das artes cênicas. Mas o Stand-Up é generoso, seletivo, desafiante, vem de encontro com novas expectativas de quem faz e de quem assiste... e é o maior dos laboratórios do ator, pode ter certeza.

 

Não estou dizendo que quem faz tem que ser ator. Às vezes, ser ator nesse segmento pode mais atrapalhar do que ajudar. O que estou dizendo é que, para mim, como ator, fazer Stand-Up tem sido do caralho. Poucas vezes me vi tão envolvido com o processo de colocar uma frase na minha boca, de encontrar o registro certo de uma voz, de situar as palavras certas numa sentença, de achar o modo correto de andar, de me mover, de olhar no olho da platéia, de me fazer claro e convincente... e tudo isso sozinho.

 

Li uma matéria sensacional na Playboy de janeiro, a que traz uma entrevista com o Marcelo Tas. Falava de humoristas e Stand-Up. E citava o caso do Marcelo Madureira, comediante e ator do Casseta e Planeta, da Globo. Mostrava o cara tremendo nas bases para fazer sua primeira incursão no gênero da comédia em pé. Pô, quem vai negar que o Madureira é foda? Ótimo comediante, ótimo ator... e tava lá se borrando para fazer Stand-Up.

 

Certo tava ele. Tem que se preocupar mesmo. Ter cuidado, atenção redobrada, se preparar, estudar. Não é fácil. Mas é uma das experiências que melhor fala sobre vc e sua arte. Tremenda oportunidade de se conhecer mais e trabalhar suas idéias e seu humor. Tremendo espaço para se aprimorar como artista. É por isso que eu tenho feito.

 

Quero chegar melhor no CQC 2009. Chegar melhor no palco onde farei o recital de lançamento do meu CD em maio. Chegar mais seguro nos meus próximos encontros com o público por conta dos meus audiolivros. Percebem como a coisa ligada ao Stand-Up abrange mais coisas do que necessariamente às ligadas ao humor? O troço é complexo, exigente, intenso. Bem, eu pelo menos aproveito assim agora.

 

O bacana tem sido ver os humoristas tão dedicados e empolgados. Cada dia dos caras é uma nova batalha. Cada vez que um acerta na mosca, rola uma empolgação que se divide coletivamente e sem mesquinharia. Se o cara vai mal é motivo de luto para ele e até parte de seus colegas. Mas tbm rola estímulo, dicas, “conserta isso aqui, vai ali, não desanima”! Vejo envolvimento, uma “brodagem” que não me parece ingenuidade da minha cabeça.

 

O modo como tenho sido acolhido por tantos caras bons mostra isso. É aquela coisa que remete aos primórdios de algo que ainda será referência grande para as pessoas, entende? Acho que muita gente que tem feito Stand-Up hoje se dedica em tempo integral à isso porque sabe que pode deixar sua marca. Rola essa mesma oportunidade em outras artes já consolidadas, com tantas regras, cartilhas, cartéis e professores?

 

Eu teria muito a dizer sobre umas coisas mais específicas dentro desse tema Stand-Up... poderia falar sobre uma sensação que tenho sentido a respeito de uma busca por uma superficilidade de textos... de como me parece que há mais afinidades por parte do público com piadas mais sexuais e fáceis... de como isso me parece algo mais oferecido pelos comediantes do que reinvidicado pelos espectadores... de que me parece haver, sim, uma preocupação maior com idéias menos atrativas em quesito conteúdo, mas mais ricas em despretensões diversas... mas ainda é cedo pra julgar qualquer coisa e tentar analisar. Eu nem tenho envergadura moral e experiência para isso.

 

Bem, that´s it... aqui estou eu, sem grandes pretensões, fazendo algo que acredito. Mas na minha, no meu tempo, procurando não me abalar com expectativas que não se ajustam à minha imagem. Procuro não me cobrar tanto e não me acomodar nesse processo. Tô na minha, escrevendo, testando - um dia acerto, no outro eu erro... mas, por enquanto, esqueçam o lance de shows. Não vou fazer nada sozinho cobrando ingresso de vcs em cidades grandes e pequenas desse país até me sentir pronto. Nem uma hora, nem meia hora, nada disso. Não até que eu esteja seguro que vcs vão gostar – e eu, mais ainda. Quanto tempo pode levar esse processo? Não sei. Pode ser mais longo ou breve do que imagino. Mas tem que ralar muito.

 

Por enquanto, posso garantir o seguinte: o CD sai em maio, se tudo der certo. E será por conta do lançamento dele que eu vou encontrar vcs por esses palcos tão legais. Vcs topam?

 

Um abraço grande

 

Rafa

    

Por Rafael Cortez às 15h33

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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