Blog do Rafael Cortez

13/03/2009

Breve tratado sobre não guiar um automóvel

 

Recentemente, recebi de uma freqüentadora desse blog um desafio: Rafael, explique a razão de vc NÃO dirigir um carro. Gostei da sugestão e deixei anotada.

 

Aí, veio o CQC na última segunda. E eu apareci naquela minha matéria da Hebe entrando num tremendo carrão... e assumindo: o que eu vou fazer aqui, caraca? Eu nem sei ligar um carro!

 

Pois é, é verdade. Eu não sei mesmo guiar. Nada, nadica de nada. O que eu sabia, esqueci. Mas vou explicar a razão.

É o seguinte: apesar de ter essa pele de pêssego e minha aparência eternamente jovial, eu sou de 1976. Tenho já meus 32.

 

No entanto, quando eu era adolescente e veio a famosa fase de “aprender a guiar, tirar a Carteira de Habilitação”, o contexto era o seguinte: era muito caro um carro. Era muito difícil ter um veículo novo, que basicamente funcionava para nós, reles mortais, na base do Consórcio. Eu nem sei mais como anda a coisa do Consórcio. Um veículo usado era algo de muito risco, pois as seguradoras não tinham planos legais, coberturas para todo mundo, etc. E, se não me engano, o lance dos impostos era outro; uma coisa meio bizarra, cara demais (não que hoje seja diferente...).

 

Eu, aos 18, estava muito longe de ter um automóvel. Trabalhava numa videolocadora... ganhava o quê? Uns 400 reais? Fora isso, eu estava num tesão maluco por violão, violão e violão. Arrisco dizer que, dos 17 aos 23 anos, eu mal namorei, mal saí, mal bebi, mal curti... me enfurnei num quarto pra estudar o instrumento e garantir a base técnica que tenho (e que custo pra manter) na música até hoje, meio que aos trancos e barrancos (aliás, passei – e acho que passo um pouco ainda – um tempo recuperando a adolescência “perdida” na minha fase adulta, entendem?).        

 

Depois, com 21 anos fui trabalhar numa produtora de TV na Avenida Paulista. E lá apareceu um cara de uma Auto-Escola vendendo pacotes de Habilitação para todo mundo. Eu já não tinha tempo para nada: trabalhava ali, era Assistente de Produção de uma peça no Centro, Assessor de Imprensa e produtor de uns cursos teatrais do Teatro Vento-Forte... e ainda estudava violão (faculdade eu deixei para fazer só mais tarde). Em resumo, pedi ao sujeito que me vendesse um pacote de Auto-Escola que respeitasse meu parco tempo; onde eu não fosse obrigado a tirar a carteira em tão pouco tempo.

 

Comprei um pacotão em 1998 que era assim: eu tinha todo o respectivo ano para ir à Auto-Escola, fazer as aulas teóricas e o exame de mesma ordem; depois as aulas práticas, a prova e pegar a bendita carteira. Conclusão: não pisei na Auto-Escola o ano todo. Perdi uma puta grana.

 

Voltei à Auto-Escola em 1999 e supliquei por um novo pacote daqueles, dessa vez com desconto. Nada feito: me venderam o mesmo pacote do ano anterior, já com o reajuste. Conclusão: aproximadamente em 15 de dezembro do tal ano eu lembrei que sequer tinha aparecido naquela MERDA por todos os 12 meses anteriores. Corri pra lá e consegui fazer, ainda em dezembrão, as aulas teóricas e o exame de mesma ordem.

 

Aí, no ano seguinte, começou o perrengue: aulas práticas e a tal prova. Vale dizer que, ao iniciar esse processo, eu JÁ ESTAVA ARREPENDIDO de correr atrás de uma carteira de motorista. O tal emprego que parecia do caralho na produtora começava a vazar pelas mãos... a chance de parcelar um Corsa vermelho foi pro saco... e eu simplesmente peguei um bode gigante de carros, Detran, sistema automobilístico, a pressão das Auto-Escolas, o cagaço dos candidatos, etc.

 

Aliás, acho que só vi temor juvenil semelhante ao vestibular nos exames práticos pra guiar. Vi meninos e meninas se borrando, a galera saindo derrotada de carros onde as balizas não funcionaram, etc, etc. Eu mesmo quase morri de medo no dia do meu primeiro exame prático: o meu joelho tremia tanto que mal parava no lugar. Quando engatei a primeira marcha, meu carro saiu dando pulinhos como o carro de um rapper americano. Me senti num clipe do Snoop-Doug.

 

Bem, fiz o teste de direção uma vez e nem cheguei na baliza. A propósito, como é hoje? Na minha época vc começava o teste pelo mais difícil, cara! A baliza!!!! Era ridículo! Ela devia ser a última coisa da prova. Vc inicia, sai, vira, entra com as marchas, dá as setas, anda umas quadras, ganha segurança... e depois vai lá pro mais tenebroso.

 

Na minha segunda tentativa, nova frustração: esqueci de dar seta e já desligaram o motor ali mesmo. Voltei à Auto-Escola e, como na vez anterior, lá estavam os donos da instituição me enchendo o saco para comprar a carteira. E isso foi uma das coisas que mais me bodeou no assunto “Direção”.

 

A todo tempo, durante esse três anos de Auto-Escola, vi muitas maracutaias. Gente comprando a Habilitação o tempo todo, uma pressão enorme para que os demais (como eu) tbm fizessem o mesmo; um monte de novas taxas, de novas matrículas, de reajustes. Eu mesmo gastei uma boa soma de dinheiro com renovações de Auto-Escola, taxas de Exames cada vez mais infundados, etc, etc. E achava sórdido esse lance de comprar a carteira, e mais ainda de ser a própria Auto-Escola a responsável por oferecer, administrar e levar tudo adiante. Eu, no meu ideal de ser honesto, queria não compactuar. A propósito, até hoje acho bem mafioso todo o esquema ligado a dirigir nesse país. Corrigindo: não posso dizer “nesse país”. Não sei como é no Brasil todo. Mas sei como é em São Paulo, minha cidade. Não queria compactuar com nada. E continuo não querendo.

 

Buenas, voltando à história: dei um gás, fiz mais umas aulas-práticas e fiz o exame mais duas vezes. Na quarta tentativa, peguei a Habilitação. Mas recebi a minha permissão para dirigir depois de tanto estresse, de tanta tensão, de tanta revolta, que já estava plenamente desestimulado. E mais: como eu poderia dizer que sabia guiar? Desde quando um exame que é realizado em ruas domiciliares praticamente desertas e calminhas (onde se dá duas voltas no quarteirão, umas setinhas aqui e ali, uma troca de marcha acolá e uma baliza no fim) mostra que vc É UM MOTORISTA?

 

Eu tinha senso do ridículo. Sabia que eu ia matar alguém ou me estrepar se pegasse um carro para guiar em São Paulo. Isso aqui é uma selva; não tem lei. Só tem troglodita no trânsito e cada vez mais carros. Eu não tinha noção de espacialidade, de direção, de nada. Achei o mais sensato deixar a carteira de lado e nunca mais pegar num veículo. A menos que eu topasse fazer o caminho das pedras: aulas práticas de direção defensiva, guiar nas Marginais com um instrutor, etc, etc. E, obviamente, aceitar o sistema e as coisas como elas são. Mas não tive saco.

 

Fico feliz de não guiar hoje. Eu fui responsável e fiz o que acreditei. Não quero, nunca, aumentar nenhuma estatística negativa de motoristas imprudentes e jovenzinhos inconseqüentes. Por não guiar, moldei minha vida de uma maneira em que não preciso mesmo dirigir. Em um curto espaço de tempo, passei a viver da maneira que sempre idealizei: morando perto de tudo e de todos que me interessam.

 

Tenho uma vida de bairro que é uma delícia, e parte disso só rolou porque eu não guio. Procurei um lugar como a Vila Madalena, onde ainda existe essa relação meio interiorana entre vizinhos e amigos, porque aqui eu tenho as baladas que gosto, os bares que eu amo e os programas que me representam do lado de casa. Depois, com minha entrada no CQC, veio a necessidade de me deslocar mais e para locais mais distantes. Mas eu já tinha me organizado anteriormente para viver bem andando de metrô (como faço até hoje) e, atualmente, um pouco mais de táxi.

 

Fico bem feliz quando me lembro que não compactuo com a máfia do sistema de Habilitação de Motoristas no Brasil. Que não fomento a máfia das multas, que não aumento com meu veículo a emissão de poluentes, que não ponho em risco a vida de ninguém. E olha, é uma delícia não ter carro! É uma delícia chegar aos bares a pé e poder beber todas, se eu quiser. É ótimo pegar metrô e ver como esse transporte é eficaz e democrático, apesar de algumas linhas serem bizarras e alguns horários não serem os mais adequados para se freqüentar um vagão... é sensacional fazer as contas no fim de cada mês e ver que não sustentei um filho que bebe gasolina e que me sai mais caro que uma namorada consumista. Nos meses em que mais ando de táxi, descubro que gastei bem menos do que gastaria se tivesse um veículo próprio... e quando ando com meus amigos taxistas sempre ouço boas histórias e engato papos bacanas. Por fim, é ótimo andar um pouco. Não tenho um corpo bonito e sarado, mas minhas pernas são fortes e minha resistência física é bacana porque ando muito! (alguém se interessa? hum...)

 

Às vezes penso que a opção pela não-direção, no meu caso, lembra um pouco a do Vegetarianismo em alguns amigos meus. Tenho um amor por não dirigir e fico convicto que fiz a escolha certa. Não significa que seja para sempre. Se o sistema mudar e/ ou eu tiver saco, pq não tentar no futuro?

 

Mas por enquanto eu sou feliz assim. Só lamento não guiar quando quero levar alguma mulher a um Motel... mas isso não tem acontecido mais.

 

Um abraço

 

Rafa

 

P.S – Sobre Motel: algumas pessoas que leram meu site e prestaram atenção no ícone CURIOSIDADES DO RAFA me perguntaram: peraí... como vc pôde levar uma mulher num porta-malas de um carro para um motel se VC NÃO GUIA? Uma dica galera: eu estava no banco do passageiro.

 

P.S 2 – No CURIOSIDADES DO RAFA do meu site eu conto que bati um Monza na única árvore de um descampado quando eu tinha 13 anos. É verdade. Mas acho que isso não me traumatizou a ponto de tomar a decisão de não guiar. Reafirmo que faço isso por ideologia, e não trauma.

Por Rafael Cortez às 14h06

11/03/2009

Loreno esteve no meu Stand-Up

Olá galera

Em respeito aos que tem acompanhado o lance do Loreno neste blog, escrevo para dar as últimas informações: ele esteve no show que fiz na última sexta, dia 06, no Teatro da Vila - aqui na Vila Madalena.

Algumas pessoas que sabem do caso e que estiveram lá, perceberam que era ele... e o fotografaram. Essas fotos estão circulando no orkut, onde a aparição do Loreno já foi bem comentada...

Um espectador mais atento chegou a fazer um pequeno vídeo do Loreno. Foi o momento em que - na minha vez, na minha apresentação - ele se levantou e ficou me olhando em silêncio. E eu perdi o fio da meada depois disso, como vcs podem perceber nas imagens que coloco abaixo. O povo ficou rindo, achando que era piada... mas dá pra ver no vídeo como a coisa foi séria.

Em tempo: semana que vem vou levar o Loreno a um lugar para um possível emprego. Acho que arranjei algo que ele pode fazer bem e que vcs podem acompanhar de perto. Vamos torcer por ele!

Um abraço

Rafa

 

 

 

Por Rafael Cortez às 01h43

10/03/2009

Stand-Up e podcast

E aí, galera?

Gostaram da volta do CQC ontem? Demais, né?

Eu assisti parte do programa de um quarto de hotel no Rio, com uma amigdalite daquelas e uma febre de 39 graus... mas curti tbm!

Tô aqui para falar duas coisas:

- Estarei nessa quinta, 12 de março, às 20 horas, na FNAC Pinheiros.

Eu, Agnes Zuliani (Terça Insana) e Oscar Filho participaremos de um DEBATE promovido pela Revista BRAVO! sobre a NOVA STAND-UP COMEDY.

A entrada é gratuita e haverá um coquetel em seguida; mas fiquem atentos: os ingressos são limitados!!!

Mais informações: www.revistabravo.com.br

Outra coisa: sábado participei da 44a edição do podcast do programa de rádio QUALQUER COISA, do Max de Castro, José Flávio Júnior e Paulo Terron.

Foi bem legal... um papo bacana sobre música e carreira. É o primeiro programa que faço para divulgar o CD que tá chegando em amio. No final do programa toquei "Naquele Tempo", minha música no violão. Gostei; os caras são bem gente-boa e o programa tá bacana!

Dá para ouvir em streaming ou baixar aqui: http://www.gcast.com/u/qualquercoisa.

Aqui também (é o blog do Paulo Terron): http://pauloterron.ig.com.br/podcast-qualquer-coisa-recebe-rafael-cortez-do-cqc-ouca

Um abraço!

Rafa

Max de Castro, Paulo Terron, José Flávio Jr e eu, numa foto que não ficou muito boa...

Por Rafael Cortez às 21h39

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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