Blog do Rafael Cortez

21/03/2009

Breve tratado sobre a Tecnologia

 

Algumas pessoas que frequentam (agora sem trema...) esse blog devem lembrar: em meados do ano passado saiu uma notinha no jornal dizendo que algumas pessoas de TV e teatro estavam em lançamentos do Iphone no Brasil, ávidas por ganhar o seu aparelhinho na faixa. Bem, eu fui um dos convidados e, como não sou besta de recusar um presente desses, fui lá pegar minha fatia do bolo.

 

Mas é fato: o Iphone é uma merda. Ganhei um e não quero parecer mal-agradecido, mas o episódio do aparelho me fez constatar o quanto a tecnologia é minha inimiga.

 

Comecemos pelo brinquedinho em si. Não sei se algum de vcs tem um, mas o meu Iphone não dá sinal de celular em quase nenhum lugar; a bateria acaba em menos de 18 horas; volta e meia ele trava; o Ipode do aparelho às vezes sai tocando sozinho e eu não consigo sequer desligar o desgraçado; as pessoas ligam para mim e está sempre fora de área (ou dá ocupado... ou cai direto na caixa postal...), enfim: é uma bosta. E, no entanto, tem uma memória de sei lá quantos gigas, câmera digital acoplada, acesso à internet e o caralho à quatro.

 

Aí eu me pergunto: será mesmo que o meu Iphone é que ta bichado ou isso é só mais um reflexo do quanto eu me ferro, mesmo, com a tecnologia?

 

A tecnologia é tudo na nossa vida. É o que permite que uma mulher como a Xuxa entre no estúdio e saia de lá com um disco registrado na qualidade de cantora. A gente está completamente acostumado, totalmente viciado, cem por cento dependente de tecnologia. Em um contexto onde os maiores feitos do homem se baseiam no que ele cria, e não no que ele pensa, fica fácil entender a razão dessa relação maluca.

 

Lembro quando eu fiz um ano de Filosofia na PUC e li uma porrada de textos interessantes – de Sócrates a Schopenhauer. Fiquei admirado de ver que, em algum momento, os maiores feitos do homem se ligaram à sua produção intelectual – e não a seus esforços de criação tecnológica. Aí veio um professor ótimo e nos mandou assistir o filme  “Tempos Modernos”, do Chaplin... e ao chato, porém importante, “Metropolis”, do Fritz Lang. Estavam ali duas obras que mostravam o homem muito mais preocupado com seu potencial de desenvolver a industrialização via máquinas, engrenagens e robôs, do que propagar discussões inteligentes, como os filósofos de outrora. Ou seja, era o mesmo potencial de pensar que vimos em alguns dos nossos melhores autores do curso, mas focado em outros fins – fins capitalistas. Reflexo de novos tempos.   

 

Alguém aqui pode dizer: cara, mas se o homem cria aparelhos que facilitam a nossa vida, se está na batalha para inovar cada vez mais no segmento tecnológico, é óbvio que o faz graças a seu único e exclusivo potencial de PENSAR. É o manjado “penso, logo existo” do Descartes, empregado para justificar a razão de ser do homem como único animal racional. Talvez ele tenha de usar esse poder para criar coisas que melhorem a vida das pessoas, não é? E essa é a tecnologia – presente na indústria farmacêutica, para nos dar melhores remédios, na computação, para facilitar a vida moderna, na aviação, para rever fronteiras e aproximar as comunicações... e assim por diante. E foda-se se o homem pensa hoje mais para produzir aparelhos do que para questionar a existência, produzir arte, fomentar discussões... é o reflexo dos dias atuais, onde “time is money” e a engrenagem não pode parar. Tenho certeza que é assim que muita gente pensa.

 

A essas pessoas eu digo o seguinte: é óbvio que só criamos todas as coisas mais modernas e importantes porque pensamos. É óbvio que a tecnologia é um produto do pensamento humano; que entre Aristóteles e o Bill Gates há a coincidência do uso inteligente da razão, ainda que cada uma tenha sido destinada a uma função. Mas me aborrece constatar que a gente se orienta muito mais pelo sistema capitalista do que por valores maiores na hora de pensar.

 

Não sei a quantas anda a Filosofia nos dias de hoje. Confesso que, quando eu fazia o curso na PUC, o nome mais expoente na Brasil era o da Marilena Chauí, que eu sempre admirei. Hoje não acompanho mais nada, mas me pergunto como estão se virando os filósofos atuais. Gostaria de saber como estão os amigos desaparecidos do meu curso – se conseguiram se formar, se trabalham na área, e como conseguem empregar seus conhecimentos numa sociedade que só visa a criação material como produto da criação intelectual.

 

São raras as pessoas que pensam para produzir coisas mais etéreas, sentimentais, reflexivas. Para mim, parece que todo mundo pensa para fazer a empresa ganhar mais dinheiro, para criar um business que seja mais lucrativo, para ter como resultado uma invenção que facilite o dia-a-dia etc, etc. Quem se encaixa na primeira condição descrita nesse parágrafo, na minha visão, são os artistas – mas os genuínos, os que produzem muito mais por suas motivações e impulsos pessoais do que pela fama e a iminente possibilidade de ganhar uma grana. Por isso, vão se ferrar Big-Brothers!!!

 

Sempre tive predileção pelos artistas - e me empolgo muito mais quando conheço um legítimo representante dessa espécie quase extinta do que com uma TV de Plasma. Sou muito mais um recital de violão do Fábio Zanon do que ver Jurassic Park em 3D no mega cinema do Shopping Bourbon.

 

Sim, meu bode com tecnologia é ligado a isso: ela é mais importante hoje do que os artistas e os pensadores. Um DJ inglês que vem ao Brasil fazer um show sem-vergonha com uma porrada de sintetizadores e nenhum acorde é um espetáculo; um concerto dos irmãos Assad é coisa pra eruditos – e, pra moçada, coisa de velho. Um cara quebra a cabeça, pensa pra cacete e cria um software que faz qualquer coisa pra vc no computador... enquanto isso, um estudante de Filosofia da USP escreve um ensaio fantástico sobre algum tipo de comportamento humano, publica em um site e tem meia dúzia de visitas.

 

Um exemplo: meu disco totalmente autoral e intimista ficaria melhor, para alguns estúdios, se pegasse carona numa onda de graves, reverbes, edições e efeitos modernos que me deixam num nível próximo ao do violonista Julian Bream, apesar de eu nunca ter sonhado tocar como ele. E por acaso o Segovia gravou todas aquelas coisas maravilhosas com a ajuda de computadores? Era ele que tocava bem daquele jeito ou tinha uma maquiagem da edição? Não, ele era o Segovia visceral em todas suas obras – elas não se “beneficiaram” da mesma tecnologia que hoje quer ajudar o meu disco. E é por isso que gosto tanto de ouvir o que o maestro espanhol nos deixou - tem barulho de suas unhas no violão, acordes pisados, uma ou outra nota suja, o arrastar de posições da mão esquerda no braço do instrumento e, mais legal de tudo, a respiração do artista a todo instante. Estou seguindo essa mesma linha no meu CD e podem ficar certos que até meus erros estarão na audição – desde que isso esteja a serviço da interpretação das minhas músicas.             

 

Escrevendo assim, parece que sou um tremendo crítico do que o homem produz hoje. Ou, pior ainda, posso ser muito ingênuo, idealista, radical. Não sei, mas tenho mesmo a impressão que as pessoas estão burras, que andam superficiais demais, que não prezam nenhuma leitura que não seja de Auto-Ajuda, que querem tudo mastigado e precisam a todo tempo de entretenimento. E, fechando meu raciocínio, tenho a sensação que o esforço de pensar contemporâneo se destina à necessidade de lucrar. E que a tecnologia é parte integrante desse mal.

 

Mas não sou bobo. Eu também me beneficio (e adoro) de muitas dessas coisas tecnológicas irresistíveis de hoje. Esse blog me aproxima de vcs e só existe porque a computação caminhou para a interatividade e facilidade da internet. Gasto uma boa grana de celular todo mês porque me amarro nesse treco. Adoro ver um DVD em casa e saber que toda a Osesp está dentro do meu aparelho de som. Etc. etc, etc.

 

Mas ainda sou muito afeiçoado ao pensamento humano que se volta à criação artística e ao questionamento das coisas. Talvez seja por isso que meu microondas pifa tanto. Talvez seja por isso que fui o último a ter e-mail e msn. Talvez seja por isso que nunca entendo o manual de instruções de um celular da Motorola; que não sei programar o timer da TV, que não tenho um Twitter... e talvez seja essa a justificativa para a MERDA DESSE IPHONE não funcionar nunca!!!!!

 

Um abraço

 

Rafa     

 

P.S – Certamente alguns engraçadinhos poderão escrever nos comentários desse post: “não, Rafael... vc tem problemas com Iphone, microondas, etc, pq vc é burro!”. Bem, matei a piada antes de vcs.

 

P.S2 – Não tenho nada para escrever no P.S2. Era só pra imitar o Felipe Andreoli...

Por Rafael Cortez às 14h05

18/03/2009

O dia em que o Loreno foi fazer o teste de VT

Semana que vem mostro o teste em si.

Um abraço

Rafa  

 

Por Rafael Cortez às 16h08

16/03/2009

Ele topou

Eu disse a ele que seria melhor sair desse mundo fantasioso e cair na real. Que o tempo gasto com sentimentos e abraços em árvores era demasiadamente grande e superficial... e que, com um veículo potente a seu favor, o alcance de suas palavras seria maior e mais convincente.

 

“Com Vicente e com Francisco!” – respondeu ele. E deu risada da própria piada, para em seguida mandar um beijo espalmado com as duas mãos para o céu.

 

Eu continuei insistindo na minha idéia enquanto andávamos pelas ruas da Vila Madalena, nesse dia estranho e abafado que nos brindou hoje. Muitas vezes era difícil manter sua atenção enquanto tudo e todos pareciam lhe distrair – uma folha seca na calçada o fez refletir sobre a velhice da Natureza, que “deve ter mais idade que todas as minhas lágrimas por ela”. Um casal que passou pela gente de mãos dadas foi abraçado por ele, que os chamou de “lindos, lindos”. Um poste retorcido por uma batida de carro do passado lhe pareceu estranhamento belo (“tem tanta magia no ferro que já foi produto da mão do homem...”)... e por aí vai.

 

Mas ele me ouvia à sua própria maneira, interrompendo minhas reflexões a todo instante para falar, sorrir, correr, dançar e tapar minha boca com as mãos (“é apenas para olhar sua alma”). Uma hora, ele começou a falar aquela sequência idiota e popular do “sabiá que sabia assobiar”, e foi desenvolvendo de todos os modos – do aço que sabe ser aço-sombra e ar (assobiar) até o triste fim do canto quando um bebê chora sem leite; essas coisas dele.

 

O momento mais tenso foi quando ele resolveu sentar, sem prévio aviso, no meio da calçada, bem em frente à padaria. Queria porque queria provar que nem assim, interrompendo o caminho das pessoas, seria notado. E me perguntou se faço idéia de como se sente uma pedra sendo pedra, sendo que tantas vezes os maiores rochedos são nada mais que um produto de águas. “Eu sou água, meu amigo”. E desatou a chorar. Não deu um minuto, levantou e correu até a padaria, de onde saiu com um jornal, como se nada tivesse acontecido.

 

Bom, mas ainda assim, mesmo com essa tensão toda no ar, mesmo com todas suas loucuras (que eu já nem sei mais se podem ser chamadas dessa maneira), mesmo acompanhado daquele cachorro chato e esquisito (sim, ele tem um e ele veio conosco – e eu nunca vi nada igual em termos de cão), mesmo com toda sua maneira de ser e de viver, ele me ouviu.

 

E ele vai amanhã fazer o teste.

Por Rafael Cortez às 01h47

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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