Blog do Rafael Cortez

01/05/2009

Em breve... o programa do LORENO!

Por Rafael Cortez às 01h03

Primeiro de Maio

Primeiro de maio, dia do Trabalho. E lá vou eu, de novo, cobrir pelo CQC as comemorações desse feriado nas festas da Força Sindical e da CUT, a Central Única dos Trabalhadores.  

 

Ano passado eu quase apanhei. Mas o contexto era outro, eu creio. O deputado Paulo Pereira da Silva, líder da Força, estava em maus lençóis (não que esteja super bem na fita atualmente...); ninguém sabia ao certo o que era o nosso programa, e até que ponto a nossa crítica se dirigia... e eu mesmo era outro. De todo modo, correndo o risco de apanhar de militantes trabalhistas ou não, é a segunda vez que vou ralar muito no dia em que pouca gente rala em nome da ralação-mor que é trabalhar nesse país.

 

Eu já trabalhei com tudo que se possa imaginar... só não pensei na prostituição porque tenho bom-senso (se bem que, pelo que dizem, o cantor Zé Ramalho já foi garoto de programa um dia... e, acreditem, ele tinha clientes!). Mas já fui montador de vitrines de moda, assistente de produção em ensaios fotográficos de grifes e estilistas, garçom, atendente de videolocadora, lavador de telas de silk-screen, professor de violão, músico de restaurante, produtor de teatro, circo e tv, cabo-man, redator, desenhista, ator, figurante, zelador, produtor de festinhas infantis, animador de eventos, assessor de imprensa, jornalista, assessor parlamentar, captador de recursos e palhaço... fora outras coisas e micos que não consigo lembrar.

 

Mas uma das coisas que eu mais odiei fazer na vida foi trabalhar em videolocadora. Passei cerca de um ano trabalhando na DKR Vídeo. Primeiro no Jardim Paulista, perto da minha casa na época... depois na nova loja em Moema, que me afastou da mamata de ir a pé ao trabalho e culminou no meu ódio absoluto por meu chefe e companheiros de trabalho.

 

Era bizarro. Eu trabalhava num período, o Léo, meu irmão, assumia o período restante. Foi assim por uns 2 ou 3 meses, até que o manolo se demitiu e foi fazer teatro. E eu fiquei lá, com 17 anos de idade, odiando o emprego e odiando não ter nem mais o próprio irmão como vítima ao meu lado. Era como se ele tivesse progredido na vida e eu não.

 

Não sei bem ao certo pq tanto ódio por aquele trampo. Se alguém que lê esse texto trabalha com locação de vídeos e DVDs, calma! Não se envergonhem do que estão fazendo. Não há nada de errado com vcs, tampouco com seus trabalhos. Eu é que estava errado. Nunca, em toda minha vida, pude conceber a idéia de trabalhar com clientes atrás de um balcão – com tantas aspirações artísticas e inquietudes criativas, sempre tive clareza que a vida comercial seria minha morte, e hoje essa certeza é ainda maior. Fora que, na DKR, o trabalho era chato, não havia uma TV passando vídeo nenhum, a rádio vivia sintonizada na Eldorado FM, pagava-se uma ninharia, as pessoas eram desinteressantes, não existia DVD ainda (só VHS), a sessão de pornôs era escassa e quase nenhum cliente aparecia (aliás, nosso cliente mais famoso era o Ayrton Senna – e ele nunca locou nada comigo. Aliás, passados dois meses do meu trabalho, ele bateu em Ímola e morreu – e isso rolou no 01 de maio de 1994, exatos 15 anos atrás).   

 

Eu me vingava do trabalho sendo o pior funcionário do mundo. Tão logo comecei a tocar violão, levava o instrumento para o trabalho e praticava o dia todo, no balcão mesmo. E dane-se se aparecessem clientes. Meses depois, já advertido pelo chefe e usando o vestibular como pretexto, chegava, cumprimentava os outros funcionários e ficava a tarde toda na cozinha da loja “estudando”. Tirava altos cochilos. Isso tbm cessou, uma vez que os outros funcionários começaram a se rebelar e fazer o mesmo que eu – assim que EU chegava, um deles ia para o fundo da loja estudar para a faculdade. E eu é que tinha que ficar naquela droga de balcão.

 

Passei a praticar pequenos furtos – pegava dois reais do caixa, por exemplo, e saía para comprar bomba de chocolate na padaria. Isso me deixava fora da loja por pelo menos uma hora, apesar da padoca ser na esquina. Mas os delitos tbm tiveram de cessar, pois as diferenças no caixa passaram a ser recorrentes e eu tive que assumir a cagada pra não ferrar os outros colegas. E nada do meu chefe me mandar embora.

 

Um dia (lembro bem), acordei completamente deprimido. Voltei do colégio, almocei e me preparei mentalmente para ir ao trabalho. Foi quando eu me dei conta que estava deitado na rede do quintal de casa e nada, nem ninguém, poderia me tirar dali. Decidi que eu não iria trabalhar por nada no mundo, e que nem ia avisar porcaria nenhuma. Foi o que eu fiz. E fui ao trabalho no dia seguinte, na maior cara-de-pau, já sabendo que era o meu fim.

 

Fui recebido com uma porção de “caras-de-cú” por parte da galera. No final do expediente, o patrão me chamou e questionou o dia anterior. Eu simplesmente disse que não tive vontade de ir, e só. “Assim não dá”, disse ele. “O que vc quer da vida? Quer ou não fazer parte dessa família?” E eu apenas disse, num suspiro cansado, que queria era ser demitido.

 

Fui mais um ou dois dias e nunca mais voltei. Passei por mil perrengues sem a grana contada todo início de mês... mas, naquela altura do campeonato, já estava me virando de novo... fui dar aulas de violão para o zelador do prédio vizinho à minha vila, mesmo sem saber muita coisa de música. E os anos se passaram, os trabalhos sucederam outros trabalhos e hoje eu estou aqui.

 

Nunca vou me esquecer do dia em que minha avó me levou ao MASP – Museu de Artes de São Paulo. Eu reclamava tanto da locadora (“é o pior trabalho do mundo”, eu dizia) que ela me deu de presente uma ida à exposição fotográfica do genial Sebastião Salgado. Chamava “Trabalhadores do Mundo”. Eram registros impressionantes de trabalhadores de minas de carvão, mineradores, lixeiros, fuzileiros, catadores de lixo e toda sorte de profissionais infelizes com labutas bizarras ao redor do mundo. Ficou claro que eu estava reclamando de barriga cheia, e que certamente a locadora não era tão ruim assim.

 

Mas com tanta vida interior em mim, tanta vontade de criar, tocar, pensar, “causar” e explorar o mundo, me parecia muito chata aquela vidinha monótona, vazia, administradinha e burocrática. Como até hoje ainda me parece.

 

Em resumo, é uma delícia celebrar o Primeiro de Maio no meio da CUT e da Força Sindical - ainda que em meio a riscos físicos. Trabalho com o que eu amo de verdade. Tenho o imenso privilégio de poder ganhar o meu dinheiro com um sorrisão enorme na cara. Eu briguei por isso e hoje estou colhendo o que plantei.

 

Até hoje sinto muito sono toda vez que entro numa locadora. Nunca mais quero trabalhar em uma delas. Nunca mais vou - tenho certeza disso. Ainda odeio o ambiente, por conta do trabalho do passado. Mas adoro perceber que tudo que há de mais chato na vida da gente passa – desde que a gente mesmo faça a diferença.

Por Rafael Cortez às 00h57

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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