Blog do Rafael Cortez

29/05/2009

Falta pouco...

 

 

 

 

 

 

Por Rafael Cortez às 13h26

28/05/2009

Breve tratado sobre Cannes - parte 2

Sobre o Festival de Cinema

 

O Festival de Cinema de Cannes: dessa vez, a comissão organizadora decidiu banir de vez os jornalistas engraçadinhos que tanto “causaram” em edições passadas – entre eles os CQC da Espanha, Chile e Argentina. Só “jornalistas sérios” (como odeio essa expressão) e especializados em cinema podiam trabalhar.   

 

Nos credenciamos com o nome de outro programa da Band. Nas primeiras gravações, não circulamos com o cubo do CQC no microfone para não chamar a atenção. Mas, depois da coletiva de imprensa do Ang Lee e da Mônica Belucci, o Festival já sacou que a gente era o CQC. Ainda assim, nos comportamos muito bem (bem demais até para nossos padrões, hehe...) nas dependências do Festival... e só nos assumimos 100% CQC nas ruas e nos últimos dias, qdo já estava instaurada uma pequena guerra entre a produção do evento e a gente.

 

Logo na segunda noite, em meu primeiro Tapete Vermelho credenciado, tive um desentendimento feio com uma garota da organização. Eu estava como Assistente de Câmera. Só poderia permanecer atrás do meu cinegrafista, não ao lado dele ou na frente, como queria. Já tomei uma chamada. Tentei ao menos narrar a chegada dos artistas no meu cantinho. Tbm não podia. Uma hora, me desloquei para outro canto para ver se o carro que chegava na lateral trazia o Ang Lee. A garota ficou maluca. Veio aos gritos, dizendo que eu tinha que seguir as regras. Eu, que já invadi um Tapete Vermelho em Veneza, estava longe de fazer algo tão arriscado assim em Cannes (não sou idiota). Mas ela achou que eu queria “causar” e veio berrar comigo. Respondi com energia tbm, dizendo que ela estava de marcação. Ameacei me retirar da área de imprensa e levar o câmera comigo – ela disse que seria ótimo, mas que eu não voltaria mais ao Tapete. Nunca mais. Perguntei: vc tem poder para isso? Ela disse: sim! E eu, muito humilhado (mas sensato), pedi desculpas e disse que ficaria ali, com o rabo entre as pernas, como de fato fiquei. Odeio jogos de poder em que eu perco para alguém com autoridade. Mas, fazer o que?..

 

A “treta” com essa mulher foi marcante. Ainda que eu tenha depois a procurado para reiterar minhas desculpas, ela preferiu notificar a Comissão de Cannes que nossas presenças no Tapete Vermelho estavam vetadas. Mais: em pouco tempo, por causa das perguntas anteriores ao Ang Lee e Mônica Belucci, não nos passavam mais o microfone nas outras coletivas de imprensa. Na do Almodóvar, insisti muito. Estava à paisana, como vcs viram. Nem assim. Uma hora, um segurança sentou atrás de mim e me deu um tapinha no ombro dizendo: “no questions for you. Ok?”

 

O resto vcs viram nas matérias. Como perdemos a oportunidade de fazer a cobertura convencional do Festival, com coletivas e acesso ao Tapete Vermelho, partimos pra guerra. E ficamos dezenas de horas de plantão em portas de hotéis, baladas, restaurantes e demais locais atrás desses figurões de Hollywood.

 

O pior foi a hostilidade de algumas pessoas do Festival. Dizem que o pior da França são os franceses, não é? Acho isso uma tremenda estupidez. É a típica generalização desnecessária. Mas lembrei um pouco disso qdo vi aquela garota brigando comigo no Tapete Vermelho e qdo recebi o entusiasmado carinho de alguns seguranças. Vcs viram parte disso na matéria, mas não sabem de fato como foi. Uns caras muito grossos, uns tremendos cavalos. Como nos portamos muito bem dentro do Festival (causamos mesmo nas ruas e áreas externas ao prédio principal), a coisa tava mais na base da implicância do que em fatos concretos. Um dia, nosso parceiro Douglas chegou perto da Sala de Imprensa para tirar uma dúvida (ele era o único que falava francês) e um segurança começou a insultá-lo. Dizia que sabia o que a gente queria, que tínhamos de ficar espertos e que éramos uns babacas. O Douglas não agüentou e foi reclamar com a organização do Festival. Eles acabaram por pedir desculpas. Nós adoramos isso.

 

De fato, a organização em torno dos artistas em Cannes é exemplar. Se uma dada pessoa não quer ser vista ou amolada, não tem santo ou CQC corajoso que possa chegar nela. A Angelina Jolie foi tratada como a pessoa mais poderosa e famosa do Festival. Nem sei qtas horas gastei estudando mapas da cidade e do prédio principal para saber por onde ela e Mr. Brad Pitt poderiam entrar ou sair. Não senti nem o cheiro de “la Jolie”. Em Cannes, os caras podem se deslocar por terra - em diversas saídas e passagens até subterrâneas - ou água, saindo em iates posicionados em diversos cantos de um cais. Qdo vc se dá conta, o cara já chegou no lugar e vc nem viu. Muito foda.

 

Em resumo...

 

Buenas, mas o que vale é que a viagem rendeu muito. Fiquei bem satisfeito com as matérias que fizemos lá e que já foram exibidas. Tem mais material vindo aí, aguardem.

 

Não posso terminar esse relato (que nada tem de breve, eu sei) sem agradecer demais à quem fez essa matéria comigo: o produtor Marcelo Zacariotto, nosso amigo Douglas Kuruhma, o cinegrafista Fabiano Diniz (Tutu) e a galera aqui em Sampa que ralou muito pra receber as imagens e editar tudo pra vcs – o Marquinhos, nosso editor, varou algumas noites pra fazer tudo acontecer. Fora a galera da produção total e nossa direção.

 

Foi ducaralho!!!! Quero mais!!!

 

Abraços,

 

Rafa

 

 

P.S 1 – Meu inglês ainda vai melhorar mais. Tô estudando. Queria mostrar pra vcs uma fluência nessa língua. Mas eu não estudei em bons colégios e nunca pude fazer aulas particulares de inglês antes pq não tinha grana e nem tempo. Queria que alguns dos meus críticos de plantão pensassem nisso antes de me encher o saco – eu ralei muito pra sobreviver até chegar aqui. Não deu pra aperfeiçoar algumas coisas. Era preciso, antes de tudo, brigar para pôr comida na mesa.

 

Já o espanhol... bem, esse é mais difícil... a gente sempre acha, como brasileiros e latinos, que sabe falar espanhol. Bom, a gente não sabe.       

 

P.S 2 - Tá, já que vcs querem algo sobre o famoso beijo do Almodóvar, vamos lá: vcs viram a matéria. Se ainda tem dúvidas, revejam no Youtube. Eu não beijei ninguém. Fui beijado. Eu tava lá, entrevistando o cara, e ele parou o papo no meio pra pedir um beijo. Ele é esperto, marqueteiro... e eu sabia que ia render muita mídia e audiência topar o selinho, logo... topei. Mas não se preocupem: não tenho nenhuma pretensão em me tornar um repórter beijoqueiro do programa ou seguir uma linha que remeta a outra emissora e programa. E fiquem seguros: não sou gay (e, ainda que fosse... isso faria de mim uma pessoa pior? Ah, esses preconceitos sociais..).

Por Rafael Cortez às 13h46

Breve tratado sobre Cannes - parte 1

De volta de Cannes, um pouco mais velho, mais cansado, mais sábio, mais vivido, mais tudo.

 

O que vcs viram no programa semana passada e na última segunda foi a ponta de um iceberg. Toda a logística, infra-estrutura, loucura, peso e dimensão desse trabalho é algo grande demais para ser entendido. Mas a TV é uma caixinha de sonhos e a gente rala como uns condenados para fazer tudo chegar simples, gostoso e eficaz pra vcs.

 

Na verdade, Cannes foi tremendamente exaustiva para mim. Nunca trabalhei tanto pelo CQC como lá. Coisa de 12 a 18 horas por dia. Nunca minha convivência com a equipe foi a limites tão altos – dos paus com nosso câmera em alguns momentos, às noites de gravação e pequenos drinques bons nas festas chiques e caras da cidade. Coisa de amor e ódio em questão de dez dias de labuta pesada e sobrevivência, num lugar às vezes hostil em que não falam nossa língua e onde a caça às celebridades é uma guerra.

 

Cannes em si

 

Cannes fica em polvorosa na época do Festival. É uma infra-estrutura gigante que envolve centenas de pessoas e que rola há mais de sessenta anos. Segurança pesada, agenda puxada, um mar de gente. E essa galera usa o Festival como um pretexto para desfilar carrões, jóias, beleza, muita grana e poder durante os luxuosos dias de arte na Cote d´Azur.

 

Confesso que fiquei bestificado com as coisas que vi lá. Gravamos uma matéria fria (não datada, que pode entrar em qualquer momento do CQC) mostrando como o Cinema fica encoberto pelo glamour das pessoas em Cannes. Comer lagosta nas calçadas é uma coisa muito comum. Playboys desfilando em Lamborghinis, Maserattis, Porsches e Ferraris mega-caras é cena banal. Todo mundo tem carros impressionantes, e a tal F-40 da Ferrari é manjada por lá. Nas festas, vi ricaços jogando champanhe “Dom Perrignon” (coisa de algumas centenas de euros a garrafa...) uns nos outros como se fosse uma Cidra  vagabunda. Ostentação a todo tempo. Bolsas Loius Vitton nas madames, peles, jeans Diesel em todo mundo, roupas caras e da moda. Muita tia exibindo os efeitos do bronzeamento artificial e muito, mas muito botox nas velhas e corpinho sarado nos manos.

 

Fiquei um pouco enojado com todo aquele desfile exagerado de poder e grana. Ainda sou aquele cara que trabalhou em vídeo-locadora e foi pobre de verdade na adolescência. O dinheiro ainda é uma coisa que prezo muito e que sei que me chega arduamente. Ainda me espanto qdo vejo como as pessoas se baseiam mais nele do que nas essências da vida para construir relações. E não suporte rico esbanjando tutú num mundo onde milhares de pessoas morrem de fome todos os dias. Isso em nada me seduz, muito pelo contrário. Mais: sou brasileiro. Sou realista; não sou um idiota.

 

Só mais uma coisa sobre os ricos em Cannes: vcs devem achar que conhecem um outro cara rico, alguém. Talvez um de vcs aqui seja, de fato, rico ou rica. Vcs podem alegar que já viram a riqueza em algum momento, mas estão se enganando. Nenhum de nós sabe o que é ser rico de verdade. Em Cannes sim, eu entendi o que é alguém ter muita, mais muita grana de verdade.

 

Festas do poder

 

Fomos em duas grandes festas em Cannes. Em ambas gravamos de montão. Vcs devem assistir uma matéria especial em breve no programa - ela mostra como os ricaços se divertem nas baladas mais concorridas da Europa nessa época do ano.

 

A primeira baladona foi de uma grife mundial que não lembro o nome. Entramos porque um de nossos amigos lá (o Douglas, quarto elemento da equipe, brasileiro residente na França, parceirão, competente e bem-relacionado) conhecia o “rei da noite” de Paris e o “rei da noite” de New York (muito amáveis, por sinal - sério mesmo) – e eles é que estavam cuidando dessa festinha.

 

Todos nós da equipe ficamos assustados com a quantidade de patricinhas e mauricinhos na pista... e como se gasta dinheiro! Como fomos bem recebidos e éramos tratados com todos os privilégios lá dentro, cada um de nós recebeu uma garrafa inteira de Dom Perignon. Os meninos da equipe do CQC não acreditaram. Eu bebi com eles, mas com uma ponta de pena pela consumação das pessoas naquele ambiente.

 

Nunca fui de baladas. Como violonista clássico de formação, desenvolvi uma coisa muito respeitosa (e chata, admito) com a música. Gosto de música instrumental e popular, mas sempre para ser ouvida com atenção. E baixo! Nem Public Enemy, que amo e é sonzêra, eu ouço aos brados. Logo, ambientes muito barulhentos sempre me angustiam pra caramba – ainda mais se tenho que gravar matéria. Não consigo ouvir a outra pessoa, tampouco consigo me entender.

 

Mais sobre baladas: sou um cara de botecos, da Vila Madalena. Programa ideal para mim é tomar chope com pessoas queridas num bom bar daqui, colocando na mesa sempre um papo muito legal. Sempre fui mais fã do material humano e do pensamento – e muito avesso às confusões, extremos e carências das baladas.

 

Acima de tudo, nas baladas em Cannes – e em toda Cannes de modo geral – eu me dei conta de duas coisas:

 

- Uma, eu envelheci. Mesmo. Não me divirto mais com algumas coisas que antes pareciam irresistíveis (bebida de graça, por exemplo). Alguns traços da minha personalidade estão tão fortes hj, e tão temperamentais com a idade, que não podem mais ser ajustados a outras realidades. De fato, não posso mais ir à baladas. De fato, não me seduzo mais com pessoas idiotas e/ou vazias – tampouco com lugares e situações parecidas. Quero, cada vez mais, ser o cara que toca violão por horas e horas seguidas, sozinho. Tenho gostado cada vez mais da minha solidão e da seletividade de algumas poucas pessoas boas na minha vida e na minha casa – tô cada vez mais propenso a ser o pai da Nara e a assumir a minha baixinha como namorada, ainda que ela tenha suas dúvidas. Isso me atrai mais que festas e poder.  

 

- Outra, meus horizontes realmente se abriram muito! Um dia eu era o cara de 30 anos que nunca tinha tido chance e grana de ir pra Europa. De repente, lá estava eu em Cannes, e ainda ganhando pra isso! Fora que estava, muitas vezes, falando com pessoas fantásticas que antes só pertenciam ao meu mundo fantasioso. A indústria do cinema, por exemplo. Ela cria os filmes para que vc tenha a sensação de que algo mágico e inalcançável vai fazer parte da sua vida por uma questão de pouco tempo – mas que, terminado o filme, vc retorne à sua vida de sempre e nunca, nunca tenha acesso ao outro lado desse sonho. E, de repente, eu estava ali, entrevistando cineastas e atores que eu só vi nessa condição de mitos. Eles estavam reais e algumas vezes frágeis, como eu. Não só meus horizontes se abriram: eu tbm passei a humanizar diversas figuras de outrora, antes pertencentes a um patamar inalcançável da minha vida – das nossas vidas. Isso é o que mais me apaixona hj na minha vida recente com o CQC e sua projeção. 

 

Bom, vou voltar a falar das festas. A outra festona que acompanhamos foi a de aniversário do super-estilista francês Cristian Audigier – marido da brasileira Ira Barbieri (que, por sinal, me recebeu mega-bem na balada e foi ótima a todo tempo). Ele costuma dar festas inacreditáveis. Gente como Michael Jackson aparece nessas baladas. Na desse ano, quem cantou o “parabéns” para ele no palco foi o Jean-Claude Van Damme e Paris Hilton (que eu odeio! ela é um péssimo exemplo, só esbanja grana, não produz nada de conteúdo para o mundo e propaga valores degradantes... adorei ter gritado “Paris!! We don´t love you” para ela em Cannes...).

 

O Cristian Audigier tbm nos recebeu muito bem e foi excelente comigo. Gravamos uma entrevista divertida e ele foi caloroso e gentil. Mas, mais uma vez, o problema estava em eu não me sentir bem mesmo em baladonas. Uma hora, na área VIP dele, tinha tanta gente vibrando e bebendo, jogando champanhe uns nos outros, que comecei a passar muito mal. Definitivamente, essas baladas não são a minha cara... e olha que sei que tem um mundo de gente que amaria estar lá no meu lugar!    

 

Baladinhas em Cannes são assim: um dia é festa do Snoop Dogg, no outro da Paris Hilton, no outro da Madonna. Todos querem estar nesses locais – e todos querem ser vistos dentro da festa. Na porta, um mundo de gente e milhares de súplicas e negociações furadas com seguranças gigantescos. Carros cada vez mais possantes chegando e paparazzis em todo canto. Gravar dentro? Beeeem difícil. E nós conseguimos.

 

Dentro das baladas, não se espante se vc cruzar o rapper 50 Cent pegando um drinque. É comum. Os DJs tocam as coisas mais modernas das pistas e a galera se joga de uma maneira mais exagerada do que aqui. Há um clima de desforra no ar e, não raro, vc pode ver os maiores paus entre playboys da história. Em resumo, nada que me seduza muito. (CONTINUA...)

 

 

Por Rafael Cortez às 13h45

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

Histórico