Blog do Rafael Cortez

22/10/2009

Continuando a semana sentimental... - Parte 2

Eu tinha dúvida se uma namorada que eu amava muito realmente me curtia. Escrevi esse Soneto um dia para me convencer que SIM.

 

Ela te gosta

(Rafael Cortez) - 12/04/04

 

De um telefonema, nasce um novo jeito

E a vida se ajeita em uma nova condição

De uma condição nova no peito

O peito se acostuma a rever sua situação

 

De uma situação acostumada

Onde convinha dada direção

Passa a ser reescrita a forma errada

- agora o mocinho se torna o vilão!

 

No mundo obscuro, alguém sabe a resposta

Ela virá no seu futuro, talvez num sussurro:

"Ela te gosta"!

 

No final de 2004, trabalhei como Assessor Parlamentar de uma vereadora aqui de São Paulo. Ela era legal e tinha ótimos projetos – é minha amiga até hoje. Mas eu DETESTAVA trabalhar na Câmara Municipal... e minha patroa volta e meia surtava. No auge do meu esgotamento emocional, escrevi a ela esse poema. Obviamente, nunca lhe entreguei. É bobo, mas o acho divertido.

 

Projeto à vereadora

(Rafael Cortez) – 02-10-2004

 

Minha nobre vereadora:

Neste ofício improvisado

Venho dividir o que se aflora

- o meu olhar muito cansado,

o desgaste sem limite

onde ele, acredite

já não vem de hoje e agora

(e só piora com a senhora) –

É que a vida está pesada

E não há nada que a habilite

Eu quase nunca gosto de nada

E é capaz que eu tenha um chilique!

Se a senhora permite aparte,

Minha nobre parlamentar

Proponho-te logo um debate :

Onde isso aqui pode parar?

Pensando no ofício que exerce

Este teu jovem assessor

- que de política pouco conhece

e trabalha muito por pouco valor

Eu lhe peço, considere

O pedido que lhe faço agora :

Vereadora, me exonere!!!!

Pois eu quero ir embora.

 

Por hoje é só. Amanhã tem mais!

 

Um abraço

 

Rafa

Por Rafael Cortez às 23h37

Continuando a semana sentimental... - Parte 1

Ainda dentro da semana de reminiscências e sentimentalismos baratos por conta do meu aniversário de 33 anos que chega dia 25, segue mais um capítulo da minha empreitada interior.

Hoje resolvi fazer algo diferente; algo que pode alegrar os leitores mais entusiasmados desse blog e algumas pessoas que sempre me pediam isso: vou dividir com vcs alguns dos meus poemas. 

De fato, tenho centenas de poemas aqui em casa - todos de 2002 para cá. Recentemente, parei mesmo de compor músicas e escrever poesias com intensidade. Ainda acho que é pq ando muito feliz... e minha criação musical e poética fica mais verdadeira qdo estou triste. Vai entender, né?

Os poemas tristes que tenho aqui ainda são muito íntimos e deprês demais. Vou disponibilizar 04 dos mais leves – os menos atuais.

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Esse brinca com algo que todo mundo conhece e que tbm já me fisgou por uma época. Tá fácil descobrir do que eu falo.  

 

Vc mata quem te ama

 (Rafael Cortez - 25/01/2003)

 

Te tenho entre meu dedos

Te trago

Deposito em você os meus medos

Me estrago

 

Sou eu quem te sorve nas tardes

Em meio às noites repletas de tristeza

Mas é você quem me consome

Mostrando o lado homem:

Sempre às voltas com impureza

 

À medida que te chamo

E te faço viver e morrer nesta estranha chama

É você quem me elimina

Completa a sina -

Você mata quem te ama!

 

Não tem jeito, é assim mesmo

Quando te apago morro um pouco

Mas nos meus lábios te recebo sempre com um beijo...    

 

Esse outro me remete às experiências que tive como produtor de teatro e circo. Escrevi no intervalo de um Sarau de Palhaços na periferia da cidade de São Paulo.

 

Produtor (Rafael Cortez)

08/05/2004 - Jardim Macedônia, SP

 

Enquanto espero o espetáculo começar

Eu percebo que sou o único que não se diverte

A platéia deseja, afoita, se deliciar

O palhaço apresentador promete!

No camarim, um monte de gente conhecida

Que não diz nada hoje na minha vida  

Se maqueiam na perspectiva de uma grande festa

O público espera

Que se cumpra a promessa

 

Crianças correm no meio dos fios que deixamos na técnica

Pulam sobre os refletores

Se divertem horrores!

Todo mundo espera uma grande festa

Os que chegam, aos poucos, vão tomando seus assentos

Famílias inteiras se aproximam

Homens, mulheres, meninas

Pais e seus rebentos

 

A trilha ainda é morna

Não tem cara de espetáculo

Mas daqui a pouco a coisa muda

Vem mais música!

Mas é música de palhaço

 

Nos pés da gente tem criança à beça

Sou eu quem peço para irem embora

- vão brincar lá fora    

enquanto esperam a festa!

Tem namorados no jardim; cheiro de pastel

A música continua alta demais para mim

E tem até estrela no céu

... mas o espetáculo da noite é a pauta

e não « será que sofre o Rafael? »

 

Ainda em meio ao monte de confete

Mesmo no meio de moleque, de tanto pivete

Não energizo com a platéia

Nunca exorcizo minha constante idéia

-  esse espetáculo não é meu!

e não era essa a sorte

no bonito dessa noite

que alguém me prometeu...

 

Os técnicos tomam seus lugares

O grande público aparece,

Quase sempre aos pares

Ei, som! 1, 2, 3, teste!

Daqui a pouco começa a festa

 

... essa noite promete!!

 

(CONTINUA...)

Por Rafael Cortez às 23h36

21/10/2009

Essas recordações me matam - parte 2 (ou Como o Violão Me Salvou)

 

Adolescência, fase terrível.

 

Tudo que parecia encantador e simples, como era na infância, se transformou em ansiedade e incerteza tão logo os meus 14 anos de idade foram completados.

 

Veio uma pressão enorme por resultados e perspectivas. Todo um mundo pessoal e seguro começou a ruir por conta de problemas externos a mim, mas que me afetavam demais. Veio a necessidade de trabalhar urgentemente, e uma cobrança minha para comigo mesmo – era preciso não só trabalhar e ganhar grana, mas sim fazer tudo muito bem-feito e impactando a todos ao meu redor... culpa dos referenciais que criei para mim e dos ídolos que passei a endeusar. Eu precisava correr muito e conseguir logo as coisas aos 16, 17 anos. Afinal, se a Nara Leão já fazia sucesso no reduto Bossa-Nova com apenas 18 anos, e se o Segovia já era um prodígio do violão aos 14, eu precisava logo fazer a minha parte (como se todo mundo tivesse a obrigação de ter êxito e segurança de tudo que é e será na vida, ainda na adolescência. Esse é um dos erros mais comuns da nossa juventude).

 

Eu odiava a escola e simplesmente não fazia questão de falar com as pessoas. O Antonio, mais conhecido como Tchone, era meu melhor amigo. Nos intervalos, ficávamos debaixo das jaqueiras do Costa Manso fumando nossos cigarros. Fumávamos muito. Quem quisesse interagir conosco, que viesse até nós. Éramos isolados e esquisitos.

 

Nos finais de semana saíamos para beber no Clube do Chopp, alguma coisa assim, que ficava na esquina da Cidade Jardim com a Brigadeiro Faria Lima. Lembro de uma vez que tomamos umas e outras bem a mais, e tentamos sair sem pagar a conta. Descobrimos que a janela do banheiro, no piso superior, nos levava até uma laje... e, de lá de cima, poderíamos arriscar um salto até o estacionamento lateral. Desistimos da fuga pq a altura de 03 metros nos intimidou bastante – e devia ser foda correr dos seguranças com um pé quebrado...

 

O Tchone passava em casa, vez ou outra, com dois amigos que eu detestava. Eles eram muito “donos de si”, pegadores de muita mulher, e eu era tímido e inseguro. Não raro, os moleques contavam tanta vantagem que eu simplesmente desistia do que faríamos e inventava uma desculpa para voltar para casa. Uma vez, na odiosa festa de Carnaval a que fomos no Clube Pinheiros, um deles, o Pimenta, tentou me arranjar uma garota que eu, de cara, não curti. Ele foi até ela, a arrastou até mim, falou de como eu era assim e assado e, de uma hora para outra, me deu um chega-pra-lá e beijou a coitada. Isso não me fez mal por eu ter alguma vontade de ficar com ela – já disse que ela não me interessava. Mas achei que eu fui usado, e o Pimenta passou a ser um filha da puta no meu entendimento.

 

Não fosse a descoberta do violão na minha vida, minha adolescência teria sido potencialmente ruim. Por ser muito tímido e inseguro, eu não conseguia chegar nas garotas. Tinha tantos problemas pessoais que, às vezes, preferia passar o dia todo dormindo. Achava as pessoas massantes e tediosas. Meu mundo interior era mais legal, e eu preferia passar horas com os meus vinis da Nara e Bethânia do que com os outros.

 

Um dia, fui a uma festa na casa de uma amiga. Lá, tava todo mundo sentado ao redor de um cara chamado Denis. Ele cantava e tocava peças que eu já gostava, como João e Maria, do Chico, que descobri na voz da Nara. O fato de ver tantos jovens em torno de um violão que, vez ou outra, passava de mão em mão, me fez pensar que eu estava no apartamento da Narinha, em 1960, descobrindo a Bossa-Nova! Ou, mais sensatamente, que poderíamos fazer uma nova Bossa, criar um novo movimento, sei lá.

 

Fiquei muito impressionado com o potencial violonístico de agregar pessoas. As rodinhas musicais na casa dos amigos ficaram mais constantes, e um dia eu me dei conta: queria, desesperadamente, tocar violão.

 

Lembro que eu estava no banho e chamei meu irmão. Ele veio e eu lhe disse, ainda debaixo do chuveiro: eu vou comprar um violão e vou aprender a tocar. E é isso que eu quero fazer da minha vida. Ele, melhor amigo como sempre, me apoiou e deu a força que eu queria. Que bom que ele sempre soube incentivar minhas paixões na vida – sem a força dele, muitas coisas vitais que hoje eu sou e tenho, provavelmente não existiriam.

 

Comprei um Dell Vechio de madeira de compensado. O escolhi na loja pq era o instrumento mais bonito, apesar de não ser o melhor. Morro de saudades desse violão. Os trastes eram altos e a sonoridade deixava a desejar. Ele fez muito mal aos meus dedos porque era desregulado e duro de tocar, mas era lindo e foi o meu primeiro instrumento. Eu o vendi a uma aluna preguiçosa e desinteressada anos depois, por uma bagatela de 100 reais. Ela já deve ter jogado-o no lixo ou o deixou empenado e podre em qualquer canto da casa.

 

Eu estudava o tempo todo. Levava o violão para a DKR, a locadora em que trabalhava. Era uma locadora decadente, ninguém ia. Eu passava horas no balcão fazendo os acordes sozinho, copiando-os de revistinhas musicais. Qdo chegava algum cliente, eu fazia o máximo para que o chato se mandasse logo. O Décio, nosso chefe, obviamente não gostava muito disso.

 

Qdo chegava em casa, passava mais tempo ainda estudando. Por volta da meia-noite, minha mãe acordava brava com o som do instrumento e, não raro, eu continuava a maratona num quarto no fundo do quintal (apesar de detestar o local por conta das enormes baratas que ali apareciam). E assim seguia noite adentro. Tocava todos os dias, às vezes por 12 horas seguidas. Ficava com bolhas nos dedos, dor nos pulsos, costas fudidas. Até hoje tenho veias estouradas na coxa esquerda e no peito, de tanto que já pressionei o violão no meu corpo.

 

Como o estudo do violão popular autodidata me machucava muito, fui procurar a Ledice Fernandes como professora. Ela tinha muita paciência e era um monstro no instrumento. É até hoje. Mora na Alemanha, onde atingiu a maior graduação pensada no violão erudito. Em pouco tempo, entre as aulas com ela e o período de estudo solitário, eu já tinha um repertório de 50 músicas da MPB. Mas tocar nas rodinhas ainda era terrível, dada minha assombrosa insegurança.

 

Um dia fui visitar meus primos em Piracicaba. O João Paulo, quase da mesma idade que eu, estava estudando violão clássico. Ele tocou uma ou duas coisas para mim e eu pirei. Nunca tinha ouvido algo tão incrível e apaixonante. Voltei a São Paulo morrendo de inveja dele e comuniquei a Ledice: vamos parar com o popular e partir imediatamente para o violão clássico!

 

E foi uma loucura, uma delícia, um desafio, um tormento, uma realização, um ideal, um Karma, tudo isso e mais um pouco ao mesmo tempo. Mas encontrar o violão salvou minha adolescência.

 

Cena comum pós adolescência: estar entre dois amigos, mesmo que um seja hippye e o outro seja de madeira 

Por Rafael Cortez às 16h17

20/10/2009

Essas recordações me matam - parte 1

Seguindo ainda a idéia de dividir com vcs algumas coisas da minha vida pré-CQC – e um tanto comovido com reminiscências por estar às vésperas de mais um aniversário -, coloco aqui mais um texto meu. Esse eu escrevi agora, motivado pelas memórias do Ensino Fundamental.

Espero que vcs gostem! Amanhã tem mais.

Um abraço

Rafa   

 

Era todo mundo muito simples; quase pobres mesmo. De fato, alguns eram mesmo pobres. Muita criança morando com a mãe na casa das patroas, e a gente achando-as ricas por viver em casarões. Nós nem desconfiávamos que era no quarto dos fundos que elas dormiam com uma mulher viúva ou abandonada, marcada por queimaduras no fogão e cansada dos serviços de lavanderia.

Na escola, situada até hoje no Itaim Bibi (mas muito diferente do que era em 1985), nenhum de nós podia prever que o futuro de crianças como a gente seria ligado ao celular e ao computador em casa. A gente só tinha mesmo as ruas, que ainda eram calmas nos arredores da Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, e os grupos numerosos de amigos que faziam guerra de sementes de plantas - todas cuspidas por canudinhos tratados como zarabatanas.

Nas salas de aula, destoavam-se os alunos que, como eu, ainda tinham recursos para encapar seus cadernos com plásticos transparentes ou, melhor ainda, transportá-los em mochilas mais incrementadas como as minhas. Em um colégio estadual como aquele, a maior parte da turma queria mesmo era a Hora do Recreio: o momento ideal para comer canja e arroz doce de sobremesa ou, com muita sorte, ter a alegria de ver cachorro-quente (privilégio de uma vez no mês ou na semana, não lembro agora) ser servido entre os amigos orgulhosos da iguaria.

Com a barriga cheia no intervalo, começavam as incessantes correrias das brincadeiras no pátio: menina-pega-menino e polícia-pega-ladrão. Vez ou outra, um de nós (os menininhos tidos como playboyzinhos) sofria uma ameaça de algum grandalhão da oitava série – provavelmente um daqueles moleques que já sabiam o que era a violência por conhecê-la bem de perto, em casa. Nesses momentos de intimidação, eram as garotas – histéricas e numerosas, e bem mais corajosas do que nós, os bundões – que nos livravam a pele. E, passado tanto tempo, eu me pergunto: pq alguns daqueles meninos maus da minha infância tiveram de morrer tão cedo ou permanecer, até hoje, trancados em celas apertadas?     

As paqueras rolavam inocentes, como sempre deveriam ser nessa idade. A Célia era a menina mais bonita da minha sala, e eu e ela só nos olhávamos e sorríamos. Uma vez ela me deixou colocar a capa rosa no seu caderno; em outra, me deu um abraço no final do esconde-esconde, na hora do piques. Eu quase morri de emoção. O Legião Urbana lançou “Índios”, e o tecladinho bonito da canção me fazia pensar nela.

A Rua Aspásia, onde ela morava (vizinha do Fábio, nosso amigo malucão) foi devorada pela metade por uma nova Avenida Brigadeiro Faria Lima. A Célia se mudou e eu nunca mais a vi. Imagino que ela deve ter filhos e torço para que ela seja feliz e tenha se lembrado de mim ao ver TV.

A Tia Rosa era a professora. Morreu há alguns anos. Gostava demais da gente, e eu nunca esqueci do dia em que voltamos do recreio e a encontramos com lágrimas nos olhos dentro da habitual sala de aula. Intensos como éramos, perguntamos aflitos quem tinha morrido, se a culpa era nossa, essas coisas. E ela se justificou dizendo que nos observara durante as brincadeiras no pátio e percebera que estávamos crescendo muito rápido. E todos nós perguntamos, ao mesmo tempo e excitadíssimos, se eu estava crescendo também, e eu, e eu tô?, e eu, e eu tbm? e eu, tia? Mas nenhuma criança parecia mais angustiada com uma resposta positiva da professora do que eu. No auge dos meus 07, 08 anos de idade, eu queria muito saber que estava grande, que já seria adulto, que eu e meu pai conversaríamos de igual para igual... e pra quê, meu Deus? Pq ninguém explica as coisas direito às crianças?

No final da oitava série, quando eu já tinha um metro e sessenta e me encarava como “um dos grandões”, a Kátia Barros e eu ganhamos o concurso de “Casal Simpatia” do Aristides de Castro. Ela mereceu o prêmio pq era linda mesmo, e eu morria de vontade de namorá-la... apesar de morrer de vontade de namorar a Kelly tbm (que teve uma filha linda recentemente). Eu fui muito beneficiado por ter criado e produzido os sete exemplares do nosso jornalzinho da escola, ao lado dos meus amigos, sem desconfiar em nada que seria Jornalista de verdade um dia. Eu era popular e intensamente feliz.

No final de 1991, todos nós nos despedimos daquela escola. Uns se foram para nunca mais voltar; outros seguiram comigo para o Segundo Grau (Ensino Médio) no Costa Manso, ali do lado. Daquela turma, muitas das meninas viraram mães e esposas. Muitos dos meninos foram trabalhar onde estão até agora, em empresas, escritórios e pequenos negócios. Alguns morreram, e os professores já se foram faz tempo (exceto a Marilena, da aula de Português, que me parece que virou diretora). A Andréa Bispo sumiu e voltou ano passado, para me dizer que continua a guerreira que era. A Lívia tem seus meninos e se orgulha de colocar suas fotos no orkut. O Marcelo casou com um cara e assumiu o que a gente já desconfiava naquele tempo. A mãe dele, que me deu tanto sanduíche gostoso de mortadela, me assistiu orgulhosa no CQC até uma semana antes de morrer. O Waldir é que não deixou rastro nenhum. O Ivan Raposo me escreve sempre no Twitter e no Orkut, e sei que ele está bem. O Marciano é uma figura doce e incrível até hoje, e eu me arrependo muito de ter zombado tanto de seu peso quando eu era cruel como só algumas crianças sabem ser.  

Mas o mais importante é que passei na frente da escola semana retrasada e vi: ainda existem crianças cuspindo sementes de árvores com canudinhos, como zarabatanas.

 

a turma em 1988: tá fácil me identificar...

Por Rafael Cortez às 14h31

19/10/2009

Gênese do sofrimento

Agora que estou a poucos dias de completar 33 anos, dei uma revirada nesse computador e achei algumas coisas do meu passado pré-CQC... onde eu estava mais na batalha do teatro e na ralação do Jornalismo e Música de guerrilha, sem as comodidades de uma mídia boa como a de agora.

De hj até meu aniversário, espero dividir alguns textos, fotos e curiosidades que possam acrescentar alguma coisa na nossa relação... como esse conto abaixo.

 

Um abraço!

 

Rafa Cortez

Depoimento da velha bruxa (onde se explica o nascimento de sua dor)

 

texto escrito por mim em novembro de 2005, como proposta de gênese da Bruxa Malvada da Oeste, minha personagem na peça "O Mágico de Óz", da Cia. 4 na Trilha.

 

Até quem me conhece desconhece a que me refiro. Do que eu falo agora, que me fere como pode. Pois saibam - nessa hora, se vem de mim o que prefiro – revelo então agora o que me mata e o que me move. 

Pode ser fácil me julgar sem ter ciência do meu passado. Desconhecendo minha história, nada melhor do que abusar dos estereótipos para me classificar. É muito cômodo rotular-me caricaturalmente, de maneira cruel e alienada ao que eu já vivi. É muito fácil desconhecer que um dia eu também amei.

Nunca revelei a ninguém o episódio que descrevo agora. Peço desculpas antecipadas se minha redação for alterada com o percurso da dor. Acostumei-me a enterrar dentro de mim essas recordações cruéis de outrora. Entristeço facilmente quando penso em meu passado de amor.

Vivíamos em estado de graça, sempre. Envolvidos em uma estrutura de carinho e graça, eu, meus pais – trabalhadores de raça – e meu pequeno Théo. Irmão mais novo, lindo, sempre adorado por todos. Gracioso como poucos, menino, puro, criança. No percurso de minhas lágrimas eu o trago à lembrança.

Na fazenda em que vivíamos e onde aprendíamos com a vida, brincávamos o tempo todo. Eu, na qualidade de irmã mais velha, cinco anos de diferença, levava meu pequeno anjo pelas porteiras de nossas terras, a rolar as ribanceiras e comer frutas do pé. Como pequenos iludidos que éramos, tínhamos nas flores, pássaros e na terra vermelha os nossos brinquedos mais sinceros. Eram nossos confidentes, anjos da guarda e amigos mais velhos. Era da nossa meninice que montávamos nossos castelos.

Brejeiros, como sempre, subíamos em árvores, caçávamos passarinhos e nadávamos nus nos rios. Sem pecado, imunes ao mundo externo, dos homens corrompidos, dos vestígios do veneno, e do mal tão incontido. Théo, com seus cabelos de cachinhos, era sim meu passarinho – dos amigos, o mais fiel.

Nossos pais, guerreiros da lavoura, predestinados à labuta, eternamente, faziam da enxada e arado o parceiro confidente. Saiam bem cedo, voltavam tão tarde, confiando na gente. Nos cestos que saiam vazios, traziam as roupas de frio, o pão e o leite.

Em meio aos meus ofícios de criança, comprometido com as muitas brincadeiras e as faces da infância, ensinava ao meu anjinho-irmão as muitas coisas do mundo. Falava dos bichos, das plantas como crescem, do mundo sem vícios e do viço que a criança tece. De como as formigas são fortes na luta diária de suas vidas e como o mel pode ser doce quando provado com quem gosta. De como as águas do rio são frias, como as tardes tem magia e que bela amizade era a nossa. O sabor das maçãs que comíamos do alto das árvores era mais doce porque selava o amor de irmãos. A lama ganhava forma de o que quer que fosse, através das nossas mãos.

Não raro voltávamos tarde para casa, com os pais trabalhadores já aflitos à nossa espera. E, no entanto, tudo eram abraços e beijos à nossa volta quando despontávamos na serra: chegávamos, nós dois, sujos inteiros, brincando com bichos, sorrisos bem quistos e com muita esperança. Nossos pais esqueciam o tom aflito ao notar, satisfeitos, que éramos crianças.

Toda noite, antes mesmo do sono aguardado e da cama posta, jantávamos alegremente. Théo ia lindo ao meu colo de irmão e amigo, ouvir histórias que – se é que consigo – poderia lembrar como as nossas. Prostrados em nossos cantinhos em volta do braseiro, tínhamos, aos nossos pés, a magia de um mundo inteiro. As chamas que saltavam daquele fogo que nos aquecia eram pequenas, se comparada ao grande amor que nos unia. Com os olhos lindos e iluminados, criança faceira que era, meu irmão ouvia histórias de bruxas, de fadas, princesas, de muitas belezas, de alguma outra era, advindas de um livro que nos dava abrigo. E, com destreza e inteligência, ele absorvia o que eu lia e me escutava atento. Por vezes me abraçava tão forte, com medo do mal. Eu tinha a sorte de senti-lo por dentro. Adormecia em meu colo, seguro em seu mundo ideal.         

 Quantas foram as tardes em que adornava Théo, com seus lindos cachinhos dourados na cabeça, em laços de fitas e em puras vestes de cetim. Pegava os retalhos de minha mãe, que sorria, em notar como o amava e queria no modo que o vestia. Iluminado com roupas de fada, era ele mesmo o meu pequeno brinquedo de porcelana: Théo, aquele a quem sempre se ama. Vestido de anjo barroco caído do céu. Penteava-lhe as madeixas que – até hoje, acho – não eram cachos, mas favos de mel. 

Uma tarde, com os pais fora na lavoura e minha cabeça ainda em nuvens, levava a vida, como em outros dias. Minha mãe deixara, como sempre, a atribuição que me cabia. Deixou, mais uma vez, suas muitas recomendações: de cuidado com meu irmão, de atenção com a casa e os pertences, de cuidar da gente, como era de praxe. Nunca a decepcionava em nada e - mesmo com a nossa molecada – ela não tinha razão de preocupar-se.

Théo queria uma história, que eu o apresentasse a mais uma narrativa. Não queria naquele momento da tarde sair da minha própria vida: estava entretido com um novo amigo, um pequeno cachorrinho, que surgiu na fazenda do nada. Théo tinha medo do cão, apesar de ambos serem tão pequenos e de não haver risco, ao menos, de qualquer um fazer mal ao outro. Com ciúmes do meu amigo, meu anjo fez de tudo pela minha atenção. Mas ele estava chato e saí porta afora a brincar com o cão. Foi esse ato de criança impulsiva que marcou, por toda vida, o que levo no peito, como imensa punição.

Entristecido comigo, por lhe negar uma fábula, meu menino Théo, vestido com fitas, laços e cetins, aproximou-se do braseiro onde repousava nosso livro de fadas. Como parte da encenação mais trágica da minha sina, lhe saltou, tão quente e fina, uma brasa advinda do fogão. Tocou cruel suas vestes de anjo e em breve lambeu o seu corpo, sem que eu sequer suspeitasse.

Enquanto eu rolava na relva com meu novo amigo, meu pequeno irmão ardia em chamas, enquanto clamava por mim. Saiu pela porta da cozinha, em um desespero de fogo, dor e sangue. Correu pelos cafezais como uma trágica tocha de criança, urrando a dor da sua morte anunciada. Quando dei por mim, ouvi sua voz desesperada, senti o cheiro da carne queimada, notei o céu convocar mais um santo. O encontrei ainda ardendo, seu corpo morrendo, sua pele queimando. Ainda que tenha apagado sua chama, ele morreu em meu colo, nu, negro e sofrendo, ainda dizendo: - “O seu irmão é que te ama”.                                     

Por sua trilha de dor nos cafezais, notei, por entre os arbustos, em meios aos meus soluços, o fato mais triste; eu acho: em cada pé de café, um de seus cachos. Seus cabelos loiros estavam em pedaços em cada canto da terra que o viu morrer em meus braços.

O maior pecado da minha vida é ter lembrança.

O meu maior mal é ainda estar viva.      

 

 

Por Rafael Cortez às 20h11

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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