Blog do Rafael Cortez

12/11/2009

Breve tratado sobre Maria Bethânia

Hoje eu fiquei com vontade de falar sobre Maria Bethânia.

Há tempos que Bethânia é a grande cantora desse país. Ao menos no segmento puro da MPB, onde não taxamos o axé e o pagode como pertencentes a esse gênero (o que motiva ampla discussão, que podemos desenvolver um dia), Maria Bethânia é a grande voz feminina brasileira há, pelo menos, 04 décadas.

À medida que grandes divas como Maysa (na minha opinião, a melhor cantora que a música brasileira já teve), Dalva de Oliveira, Elizeth Cardoso e Elis Regina foram deixando esse mundo, acabou que não tem pra mais ninguém: hoje cabe a Bethânia o posto máximo, inabalável, de “Ella Fitzgerald brasileira”, como bem definiu a revista Bravo! em sua matéria de capa sobre a artista baiana.

Mas a que se deve esse reconhecimento máximo ligado a Bethânia?

Sem dúvida é uma soma de qualidades, excentricidades, magia e coerência de carreira. A história de Maria Bethânia é uma daquelas provas vivas de que artistas de bom-gosto sobrevivem às máximas ditatoriais dos mercados de trabalho e sistemas capitalistas burros e cegos.

Bethânia só perde em vendas de discos, no Brasil, para - pasmem! - a Xuxa. Mas a “Rainha dos Baixinhos” sempre trabalhou com um apelo de mídia fora do comum, de modo a tornar-se muito mais, ao longo da vida, um produto – não uma pessoa. Além disso, não se compara o apelo de Xuxa e seu público alvo: é a “moça bonita” da TV, fazendo “tchuqui-tchuqui” para as crianças... contra a mulher nordestina, séria, reservada, de nariz adunco e semblante misterioso.

No entanto, ainda que Bethânia tenha vendido discos de maneira espetacular ao longo de sua firme trajetória, isso não a impediu de transitar por muitas gravadoras; de ver discos espetaculares, idealizados com todo coração, ganharem divulgação e empenho zero por parte de seus vendedores; de ser trabalhada com pouco afinco e competência por terceiros e, por fim, de ser demitida de uma grande corporação de discos – ainda que tenha vendido milhares de cópias de “Álibi”, “Mel” e “As Canções que Vc Fez Pra Mim”, entre outros de seus LPs recordistas.

O que mantém Bethânia firme no cenário artístico nacional (e não só firme, mas divina) é seu enorme respeito pelo próprio trabalho; sua visão acertiva de conduta profissional; sua elegância ímpar na escolha do repertório e músicos; a adoção de diretores teatrais como convidados para “destrinchar” seus shows; sua grande coerência de discurso; a opção pela reserva à vida pública e a devoção às suas santidades, ídolos e guias diversos.

Maria Bethânia nunca saiu da mídia ao longo de toda a carreira. E, para mim, isso se deve bastante ao fato de que a mesma nunca fez questão de ter a mídia na sua vida. Hoje senhora, a cantora sempre teve, desde menina, um compromisso absoluto com sua arte; com suas vontades e desejos de artista. Como tal, nunca promoveu a vida pessoal e seu emaranhado delicioso de fofocas, jabás e oportunidades em troca de mais uns cinco minutinhos de fama. Não é ela que sai para jantar no Rio de Janeiro e avisa antes a revista de fofoca. Nunca foi de seu feitio abrir sua casa para a Revista X ou Y – aliás, Bethânia nem sai de casa. Que eu saiba, ela mora em um local privilegiado e ultra-discreto em São Conrado, no Rio, onde montou um lar que tem (segundo ela, no programa Ensaio, da TV Cultura, em 1992) “muita água, verde... e um ganso!” (do qual ela dizia morrer de medo). Em resumo, o que quero dizer é que Bethânia é uma daquelas raras figuras artísticas atuais que ainda vive pelo seu ideal de artista, e não porque ser artista rende grana, histórias, sexo, amores, oportunidades e poder. Ou seja, ela não está na causa da arte como uma BBB – graças a Deus!

Nós, espectadores atentos do comportamento das pessoas célebres, públicas e hiper-expostas desse país, nos acostumamos a esperar das mesmas toda aquela gama de coisas que elas sempre nos deram – e que justificam a venda demasiada de jornais e revistas “que não se espremem porque podem derramar”, como bem disse o Tom Zé na letra de “Made in Brazil”: não nos surpreendemos ao ver que fulano come a ciclana que, por sua vez, saiu para dançar com beltrana que, num descuido, deu para o cara W, Y ou Z que, animadinho com os cinco minutos de fama, apareceu nu na revista Blá, blá, blá... e por aí vai. É quase uma associação imediata: se vc é uma figura pública, que apareça muito! Que “dê uma causada”, que é sempre bom para ajudar a manter vc no ar... que fale bastante, faça umas merdas, circule por todo lugar, faça uma média desgraçada com o seu público, etc. Em resumo, hoje no Brasil, fica a fama como finalidade, e não como conseqüência.

Maria Bethânia ainda é uma daquelas artistas que, de acordo com o comportamento apresentado no parágrafo anterior, pode ser chamada de ultrapassada, chata, “crica”, difícil, bizarra. Mas é porque ela nunca teve a fama como finalidade... e acho que muito menos como conseqüência. O que norteou seus passos até hoje sempre foi o cantar, sua voz, sua arte e suas convicções e respeitos de artista. Talvez seja mais fácil, já que ela não sai nas festas e não conta com quem dorme ou dormiu, dizer que ela é estranha ou chata. Do mesmo modo que crucificam João Gilberto por sua resistência absoluta em compactuar com bobagens midiáticas ao se recusar em sair de seu apartamento no Leblon, Rio de Janeiro, ou dar entrevistas. Como resultado, obviamente, as posturas reservadas de ambos ajudam a alavancar ainda mais o mito que se cria em torno de seus nomes, bem como o interesse popular e a curiosidade e questionamento da imprensa.

Mas Bethânia é uma voz que não se explica! Falei tanto do comportamento, da coisa reservada, do quanto isso atiça ainda mais a nossa vontade de saber dela... mas o que creio que faz de Bethânia a Bethânia que as pessoas amam, ainda é, clara e cada vez mais bela, a sua voz. Uma voz com personalidade, que não se imita, que não se explica; um misto de rouquidão e veludo no timbre; um equilíbrio entre a extensão máxima da cantora radiante de teatro com a mais bela discípula da Bossa-Nova, intimista, ainda que a artista nunca tenha se declarado uma propagadora do segmento.

Eu sei, há alguma coisa de Memória Emotiva naquela voz, uma vez que muitos de nós crescemos embalados por ela. Mas quando Bethânia surgiu cantando o “Carcará”, em 1964 (descoberta, como sabemos, por Nara Leão), o que havia de referência em torno de seu canto? Que Memória Emotiva podia ser evocada para responder à afinidade que se criou, logo de cara, com o seu cantar? Era a voz no estado bruto, sem subterfúgios e sem nenhum facilitador. Veio com a Bethânia não só o timbre que impressiona e se destaca, mas a figura cênica, a intérprete; a grande dama de teatro a serviço da música.

Assistam ao vídeo de Bethânia cantando o Carcará no Opinião. Taí pra vcs. Notem que ela fala da fome e da situação do povo do Nordeste com a mesma propriedade com que fala do coração - quando faz de uma música chumbrega como “É o Amor” uma obra poética apaixonada e de bom-gosto. No vídeo da década de 60, vcs notam Bethânia mirando no olho de cada pessoa da platéia. Ela encara o público destemida; desafiadora. Conta uma história com o olhar e a canção poderosa, assim como usa as mãos para expressar o limite da paixão – junto, ainda, com a voz que vai do sussurro ao grito de alerta! – no show onde sorri para a audiência que a encara (e essa ainda quer entender de onde vem tanta força apresentada).

Por sua afinidade com o teatro, o que acho ultra-acertivo, podemos pensar que Bethânia é um grande atriz com uma grande voz. Mas na partitura corporal dos atores vemos um misto de técnica, entrega e verdade. E desmascaramos os maus atores quando os vemos com máscaras de dor e amor no lugar de SER a própria dor e o próprio amor. Todo ator usa técnicas para convencer os outros de que vive isso ou aquilo, ou que É isso ou aquilo que mostra. Mas todo ator mostra, em algum momento, que é ou era uma atuação.

Mas, e no caso de Maria Bethânia? Eu não vejo uma atriz porque saberia identificar o momento em que acaba seu ato. É essa a sua magia. O show não finaliza com ela; não há o momento de “desarmar e desmontar o personagem”. Acho mesmo que ela vive as coisas todas que canta – por isso sua escolha por tudo que possa soar como verdadeiro em sua voz. Por isso a escolha pelo amor e devoção religiosa em seu cantar, bem como a alegria de ser amada, a agonia de ser traída, a percepção de que uma fase acaba, e assim por diante. Bem, se Bethânia é tudo aquilo que canta, passo a achá-la ainda mais interessante!

Mais, ainda: tem alguma coisa divinal naquela mulher. Alguma força santa, algum mistério. Que figura forte, que aura, que magnetismo! Isso não é muito desse mundo e não se explica. Acreditem vcs ou não nas coisas mágicas e espirituais dessa terra, saibam que alguns mistérios do planeta estão guardados na figura pequenina de Bethânia... uma mulher que tem pouca estatura mas parece uma gigante em cima do palco! O que explica isso?   

Tive o privilégio de fazer a cobertura, pelo CQC, de seu show. Como fã, me veio uma responsabilidade enorme: meu humor e minha abordagem não podem desrespeitar o que ela representa para mim, muito menos eu posso me desrespeitar como admirador de seu trabalho. Pensei muito em como fazer uma matéria que ela, caso veja TV às segundas ou goste de fuçar no Youtube, goste também. E acho que conseguimos – digo “conseguimos” porque a matéria é do produtor, do câmera, do editor, sonoplasta, artista gráfico e diretor do CQC também. E a gente tava em sintonia, inclusive com o Tas e a bancada na apresentação da cobertura, no ideal de fazer uma matéria divertida, mas respeitosa.

A Bethânia já tinha avisado, por meio de sua Assessoria de Imprensa, que não receberia nenhum jornalista no camarim após o show - ainda mais por se tratar de data de estréia da temporada, e mais ainda por ela estar exausta! Insistimos muito. No CQC, escalaram-me para a matéria por saberem que sou fã. Talvez isso comovesse a ídola. Expus minha condição de admirador à equipe do show, pedi por favor, pelo amor de Deus, tudo por uma entrevista com ela... e, caso rolasse, eu só tinha coisas legais para falar com Bethânia; coisas que sei que ela riria junto comigo. Rir das coisas, Bethânia, ou de mim... não de vc. É basicamente assim que procuro fazer minhas abordagens cômicas de um modo geral, na vida.

Não teve jeito. A Abelha-Rainha não quis mesmo dar entrevista. Mas topou me receber em seu camarim, naquela loucura toda, para um beijinho e um alô... o que rendeu o autógrafo no disco, que bem encerrou a matéria.

Quando eu estava com a Maria Bethânia na minha frente, falando com ela, pela primeira vez na vida, ainda que ela não tenha (talvez) dado muito atenção (devido ao cansaço... assédio...), ou sequer lembre de mim ou recorde da situação, eu disse a ela algo que acredito de verdade: que há uma frase de uma canção de Sueli Costa e Abel Silva, “Rosa do Viver”, que Bethânia gravou em 1981 no lindo disco “Alteza”, que é, para mim, uma filosofia de vida. É essa:

“Vencer na vida é amar. Cantar a vida é viver”.

E, para mim, ninguém cantou a vida melhor que Maria Bethânia.

Um abraço!

Rafa

Taí o vídeo da Bethânia cantando Caracará, com apenas 18 anos...

 

... e a matéria que fiz pelo CQC.

Por Rafael Cortez às 02h08

11/11/2009

Senac, dia 16-11: tamos aí!

Rafael Cortez e Alexandre Bessa analisam força das mídias sociais no jornalismo e na publicidade

No dia 16/11/2009, o Centro Universitário Senac promove a palestra Jornalismo e Publicidade: Além do Blog, Twitter e Facebook. Por Trás de Tudo Isso, o que Terá?

A proposta da atividade é debater as tendências do jornalismo e da publicidade e as novas formas de comunicação com o público adotadas por empresas e meios de comunicação.

Os convidados para o bate-papo são o jornalista e repórter do programa de TV CQC Rafael Cortez e o publicitário Alexandre Bessa. Entre outros temas, eles comentam suas experiências e procuram demonstrar que as possibilidades de contato entre as pessoas são infinitas, cada dia mais inovadoras, e acontecem nas grandes corporações e nos milhares de nichos do mercado.

A palestra vai ao encontro dos cursos de Bacharelado em Comunicação Social - habilitação em Jornalismo e de Bacharelado em Comunicação Social - habilitação em Publicidade e Propaganda do Centro Universitário Senac, que abordam temas como mídias digitais, comunicação interativa e construção de marcas responsáveis. Tudo isso em um ambiente produtivo e adequado às experimentações necessárias para quem atua com mídias comunicativas.

Rafael Cortez – É ator, palhaço, músico e jornalista. Trabalha como repórter no programa de TV Custe o Que Custar (CQC), da Band. É idealizador, roteirista e apresentador do quadro cômico Notícias que Gostaríamos de Dar, transmitido diariamente pela rádio Band FM. Trabalhou em agências de assessorias de imprensa e foi colaborador de Veja São Paulo. Esteve por quase cinco anos na empresa Abril Digital, onde desenvolveu conteúdos jornalísticos para celular. Ganhou o 32º Prêmio Abril de Jornalismo em 2007 na categoria Conteúdo para Celular. Em dezembro de 2008, recebeu o 2º Prêmio Quem de Melhor Jornalista de TV.

Alexandre Regattieri Bessa – Publicitário, é gerente de produtos do Yahoo para a América Latina. É apaixonado por comportamento do consumidor, valores de marca (brand equity) e por mídias sociais. Estuda economia internacional. Graduou-se em comunicação social e em tecnologia. Já planejou e executou campanhas para marcas como Skol, Itaú, Coca-Cola, America-Móvil e Electrolux. Acredita em convergência de mídias, um novo modelo de diálogo participativo entre consumidores e entre consumidores e marcas que transita nas diversas mídias, fazendo conexões e reforçando as mensagens da marca.

O evento é gratuito. Para se inscrever, clique aqui.

Para conhecer o Bacharelado em Comunicação Social - habilitação em Jornalismo, clique aqui.

Para conhecer o Bacharelado em Comunicação Social - habilitação em Publicidade e Propaganda, clique aqui.

Palestra Jornalismo e Publicidade: Além do Blog, Twitter e Facebook
Dia 16/11, das 15 às 17 horas

Participação gratuita

Centro Universitário Senac – Campus Santo Amaro

Av. Eng. Eusébio Stevaux, 823 – Santo Amaro – São Paulo – SP
Tel.: (11) 5682-7300 – E-mail:
campussantoamaro@sp.senac.br

 

Por Rafael Cortez às 14h03

10/11/2009

Poema aos que motivaram o crime

Ó Apple, internacional e imponente:

Obrigado por deixar-me impotente

ante a tua tecnologia tão latente

que me faz - agora e sempre

gritar com esse aparelho morto em minha frente!

 

Obrigado - pelo Iphone, que é só modernidade

- Pelas mil horas sem sinal, problemas mil de mobilidade

com suas travas insistentes e bateria pela metade

- Pelo manual de instruções, de uma total inutilidade

- Por me deixar tão furioso com essa droga de novidade!

 

Apple, poderosa e ímpar, paladina dos novos tempos

Pq vc fez do Iphone essa soma de excrementos?

Pq ele custa caro, coisa de sei lá quantos quinhentos?

Pq ele é essa droga, que faz da gente uns desgracentos?

... odiei tanto o meu, que agora, eu... o vejo a voar pelos ventos!  

 

Ó Apple japonesa, americana, de procedência que não sei mais:

leve esse Iphone de meia-tigela! Devolva meu aparelho dos Neanderthais!

Tragam de volta o meu fone de discar e o tijolão dos celulares iniciais!

Implodam essa coisa tecnológica, Iphone de uma ova – faz de nós seres bestiais...

A mim, indenizem! Façam com que as feridas cicatrizem... desses dias de muitos ‘ais’!   

 

E, por fim, percebam - atentos e quietinhos:

que bonito que é quando o Iphone acaba!

Quebrado em mil pedacinhos

destroçado por uma mente perturbada...

(in memorian - Iphone 3G de Rafael Cortez – * 22-09-2008 - +10-11-2009)

Por Rafael Cortez às 15h17

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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