Blog do Rafael Cortez

18/02/2010

Francisco e Clara - O Musical

Tenho uma coisa para mostrar pra vcs que, ate agora, não foi descoberta aqui nesse mundo virtual excêntrico e bizarro... eh algo que talvez vcs nunca teriam visto, não fosse a minha própria iniciativa de tornar publico esse vídeo... algo que nem as fazocas mais dedicadas do CQC conseguiram garimpar no Youtube... ate pq, eu mesmo nunca havia falado disso para ninguém.

Mas sim, eu atuei em uma peca religiosa. Sim, eu estava no elenco de um musical cristão. Sim, eu cantei, dancei e evoquei todos os santos em nome de Jesus em um espetáculo que marcou época aqui na cidade de São Paulo: “Francisco e Clara, o Musical”.

O texto era do Eve Sobral, um comunicador com quem trabalhei muito entre os anos de 1997 e 2003, sempre intercalando alguns períodos de ausências e experiências em outros trabalhos, como o de produtor do Galpão da Cia. Cênica Nau de Icaros e Assessor de Imprensa do Teatro Vento Forte.

O Eve, para quem se lembra, tinha programas bem popularescos na Gazeta, Rede Mulher e CNT. De gosto bem questionavel, esses programas serviram como um generoso espaço de experimentacao para um serie de jovens que, como eu, estavam loucos por uma oportunidade de fazer TV, de qualquer maneira que fosse... e essa turma tinha, na figura do nosso chefe Eve Sobral, um aliado de idéias e empreendimentos, de modo que pudemos fazer TV criativa em rede nacional numa época em que ninguém tinha a nossa liberdade – e muito menos a nossa idade! Em resumo, trabalhar com esse cara foi um tremenda escola para mim, o que sempre me leva a pensar nele com carinho e gratidão.

Bom, mas voltando: na produtora do Eve Sobral eu comecei como cabo-man de uma equipe de externa. Ficávamos na Avenida Paulista, bem em frente ao local onde a produtora dele funcionava – um hospital, pasmem! Os cabos saiam de uma janela da fachada do Sta Catarina, e eu tinha a função de correr com eles pela rua atrás do Spike, nosso câmera... e de enrolar e desenrolar aquela parada toda, tão logo o trabalho começava ou acabava.

Lembro que, quando entrei na equipe, não havia função concreta ou salário previsto para mim. Na verdade, eu não tinha nem pq estar la; não havia vaga para mais um... eu so entrei pq, na entrevista em que fui conhecer aquele que se tornaria o meu futuro emprego, disse ao entrevistador que eu deveria ser contratado por ter boas relações com o dono de tudo aquilo: o tal do Eve Sobral... que eu, obviamente, e por mais pura ignorância, não imaginava, na minha ousadia, se tratar do PROPRIO CARA QUE ESTAVA ME ENTREVISTANDO!

Enfim, o episodio ficou divertido e eu fui contratado, mesmo sem ter o que fazer e mesmo sem verba no orçamento para mim. Combinamos que daria-se um jeito... e eu, com 19 anos, fui ser cabo-man e receber, como primeiro salário... uma lasanha! Sim, minha primeira remuneração na TV foi uma lasanha congelada, sabor frango, para 02 pessoas, da Lasanharia e Cia. E eu a comi sozinho numa madrugada em casa.           

    Na produtora do Eve fui Cabo-man; depois, Assistente de Palco (leia-se PAQUITO) por seis programas de um lance trash de auditório chamado “Guerra eh Guerra” (tem vídeo no Youtube, mas eu não estou nele); mais tarde, Assistente de Produção; Chefe de Estúdio (onde eu era o mais zoado do mundo pelos nossos câmeras...); Produtor Musical; Assistente de Repórter; Produtor de Comerciais (lembro de um, que era de cadeiras, onde fomos ate uma loja furreca mostrar os melhores ângulos de umas bem detonadas...); Produtor de Externas e um monte de outras coisas onde atuei como quebra-galho. Enfim, foi uma puta escola.

Mas, passado um tempo, me senti chamado a fazer teatro... muito por influencia do meu irmão, que sempre foi ator e nunca questionou isso... e tbm pq eu, como produtor de teatro, estava cada vez mais infeliz fazendo tanto pelos bastidores, quando eu queria mesmo era estar em cima do palco...

Uma rápida contextualização aqui: na minha ultima fase na produtora do Eve, comecei a trabalhar meio período. No período restante, arranjei vários freelas ligados ao teatro. O primeiro, em 1998, bem no começo do trampo com TV, foi ajudar um produtor teatral paulista que, ate hj, eh muito influente no nosso cenário: o Luque Daltrozo. Fui assistente dele em ‘Fausto”, de Goethe. Ajudei a levantar o que faltava para o espetáculo estrear e, durante a temporada, era o Operador de Som.

Do trampo com o Luque seguiram-se vários outros... e sempre como Produtor ou Assistente de Produção teatral. Ate que larguei o emprego com o Eve para me dedicar ao backstage teatral, produzindo todo mundo que aparecia – do grupo de teatro da ECA, que me deu uma chance como ator, a grupos e cursos no TUCA, Vento Forte, Empório Cultural, Nau de Icaros, Galpão do Circo, Cia. dos Gansos (do meu irmao) e outros que não lembro agora.

Me recordo que eu fazia valer a pena o fato de me contratarem: quase sempre eu oferecia, pelo mesmo valor, o trabalho de Assessoria de Imprensa junto ao de Produtor. Claro, com isso eu me matava de trabalhar. Mas eu tinha 20 anos, não fazia faculdade e queria mais era ganhar o maximo de experiência, ainda que recebesse o mínimo de grana.

Um dia, porem, me peguei completamente deprimido. O trabalho paralelo de violonista que eu tinha como exercício de palco, não estava me realizando mais. Não conseguia me tornar um Concertista, e meus recitais eram mais penosos do que prazerosos. Ninguém ia, eu me matava de estudar, tocar ao vivo era desesperador e a vida de Concertista não me dava a troca de energia com a platéia – coisa que eu tanto desejava.

Me dei conta de que a única arte que oferece esse calor entre artista e publico, esse olho-no-olho, esse tesao, essa energia, eh o teatro – e ainda acho isso... tanto eh que meu solo de comedia saiu do rotulo “Stand-Up” para cair no de “Show de Humor” e, provavelmente, migrara para “Espetáculo Teatral” um dia... isso se eu ainda insistir nesse solo...

O que aconteceu, resumidamente, eh que um belo dia disse para mim mesmo que eu teria de levar a serio o desejo de ser artista. Que eu devia parar de trabalhar para que os outros se deleitassem no palco. Eu estava para ter um câncer de tanta frustração em ver os outros, graças ao meu trabalho de produtor, serem tão felizes como artistas – enquanto eu me frustrava tanto nas coxias.         

Comuniquei meio mundo que queria atuar e voltei com aquela estratégia que usei no Eve: mais uma vez, pedi para trabalhar meio período no local que me empregava – a Nau de Icaros – e usei o tempo restante para correr atrás do meu sonho.

Logo veio o Pedro Granato, meu amigo e primeiro diretor... e eu fiz Made in Brazil, encarnando o que seria o embrião do meu amigo Loreno – o Ben Silver. Depois, surgiu mais uma chance com uma amiga, a Melissa Vettore (que hj esta no elenco de “Viver a Vida”) em “A Casa de Bernarda Alba”, do Lorca e, posteriormente, outras atuações em espetáculos diversos... onde se destacou minha vivencia intensiva de quase cinco anos ligado ao teatro infantil com a Cia. 4 na Trilha e, depois, com a Contadora de Historias Alejandra Pinel.

O resto, vcs já sabem... entre um trabalho infantil e outro eu atuava como Musico e Jornalista (fiz a PUC no meio desse caos de tabalhos) e continuava fazendo testes para TV... ate que fiz um para um tal de CQC e...

Bem, e to aqui. Ainda aberto a mil experiências e sabendo que tenho mais dois terços de vida para me reinventar e experimentar coisas novas e emblemáticas.

Mas - pela décima vez, voltando ao tema desse artigo... - entre uma coisa e outra da vida fiz esse espetáculo: “Francisco e Clara – O Musical”.

Foi bem divertido. Era tão, mas tão ruim... A direção, do Rubens Rivellino (o ator, não o jogador de futebol), apesar de bem-intencionada, era falha e apressada. Ele teve de correr contra o tempo com prazos do teatro, pressão dos apoiadores, etc, de modo que não pode fazer o seu melhor. O elenco era formado por um monte de moleques e atores em começo de carreira, como eu – portanto, atuávamos muito mal. Do outro lado, haviam figuras que tinham sido lendárias na TV, mas que se encontravam esquecidas... gente com décadas de trajetória de TV e teatro, como Márcia Real e Philippe Levy. Gente que, mais uma vez, se favoreceu da enorme generosidade do Eve – ele de novo, protagonista da peca e autor do texto que não era nada bom, apesar de ter sido feito com o coração.

Esses atores da velha guarda não ajudavam muito na peca pq, com seus vícios de estrada e formatos padronizados de interpretar, faziam tudo mais no automático do que de coração – ainda que dessem, as vezes, grandes shows de interpretacao. Mas a culpa nao era deles. Todo bom ator, mesmo com tantos vícios de tantos anos de jornada, pode surpreender mais e mais qdo eh, de fato, bem dirigido. E a culpa não era do diretor. E não era do Eve. E não era nossa. E não era de ninguém! Era culpa de um formato de espetáculo feito ha muito tempo (eu entrei na sexta temporada, eu acho) com uma produção muito pobre (vide os cenários) e muito pouca auto-critica, o que eh sempre a morte do teatro (bem como o excesso da mesma).

Mas sabem de uma coisa? A critica nos odiava, mas o publico amava! Eram caravanas e mais caravanas de espectadores vindos de toda a parte do Brasil. Casa cheia praticamente todo dia. Gente chorando e cantando junto toda vez, pela enésima vez, como sempre e cada vez mais. Nunca vi uma coisa igual. Eu era o Trovador e o Mendigo. E adorava fazer a peca, ainda que ela fosse tão questionavel do ponto de vista artístico.

Vejam o vídeo. Ninguém esta interpretando estar emocionado – todo mundo estava mesmo, mesmo com toda nossa auto-critica. Vcs me verão, se prestarem atenção, cantando e dançando com fervor no meio do coro ou do corpo de baile. E não eh que eu estava assim por qualquer convicção religiosa, fe, temencia a Deus, etc. Tenho uma visão religiosa muito pessoal e serena, de modo que nunca fui chegado em fanatismos e demais exaltações religiosas. Creio em Deus e me dou bem com ele, mas não preciso integrar um musical religioso para louva-lo.

Em resumo: o que quebrava os mil críticos de plantão - de nos mesmos, atores do elenco, tão sabichões e exigentes, ate os mais céticos espectadores ou teoricos teatrais – e fazia de “Francisco e Clara – O Musical” um tremendo sucesso emocionante, era a nossa platéia.

A platéia eh parte integrante do espetáculo sempre e, como tal, não pode ser menosprezada. A fe daquelas pessoas que nos assistiam era algo que valia muito, e elas iam com muito amor ver o que a gente fazia – mesmo sendo tão falho em tantos sentidos. Deste modo, elas preenchiam as lacunas artísticas e técnicas do show com uma energia que me fazia ir ao teatro atuar com um sorriso gigantesco.

Na verdade, olhando para trás, entendi naquela peca que o publico tem um poder inenarrável. E a gente não eh nada sem o nosso publico e seu amor.

 

Pronto. Posso assumir minha participação nesse musical agora para vcs pq, hj, me orgulho de te-lo na minha historia. E me deu muita saudade de “Francisco e Clara” agora, acreditem.

 

Um abraço

 

Rafa – com o teclado ainda um pouco bichado... perdoem, mais uma vez, a falta de alguns acentos e afins...     

 

   

Por Rafael Cortez às 22h48

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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