Blog do Rafael Cortez

31/03/2010

Todo Mundo na Balada

É o seguinte:

 

No meu último post nesse blog, contei a vcs que recebi um “não” muito chato ligado a algo que eu queria muito na minha vida musical: uma recusa diretamente associada ao meu trampo com o CD que pretendo lançar; um balde de água fria que me pegou desprevinido - e justamente num momento em que precisava da efervescencia de águas fartas sobre mim (vixe!).

 

Muitos de vcs me escreveram pedindo que eu não desanimasse; que eu insista; que vá atrás do meu ideal de lançar, sim, um CD de músicas autorais-instrumentais-violonísticas, etc… e o que eu digo a vcs é:  O QUE VALE É FAZER MÚSICA BAGACEIRA!

 

Tenho frequentado muito o meio artístico e constatado algo que eu já sacava antes mesmo de ter essa oportunidade: é bem mais fácil fazer sucesso com um trabalho porco e preguiçoso do que com algo elaborado e essencial. Não é a toa que um ex-BBB pode ser apresentador ou repórter de um programa de TV, mesmo sem nunca ter cursado Jornalismo, do mesmo modo que não é por acaso que cantores de músicas tôscas de 03 acordes vendem realmente discos nessa terra. Enquanto isso, só como um simples exemplo, o Nelson Freire estudou 30 anos de Chopin para ficar nas prateleiras alternativas com seu piano maravilhoso…

 

Estamos impregnados da lógica do mínimo-esforço. Nem podemos culpar os artistas que nos dão coisas tão fáceis e superficiais (haja visto o “Rebolation”): não são eles os únicos responsáveis pela perda significativa de qualidade nos meios artísticos nacionais. Tampouco a culpa é só da industria de entretenimento, do mesmo modo que não é só culpado o sistema educacional nacional que não prega valores qualitativos concretos… nós todos, de produtores, comercializadores, formadores e consumidores de arte e informação, estamos com preguiça demais para digerir algo mais concreto e intenso: também nós queremos o “Rebolation” e o que mais rolar de modismos fácilmente tragáveis, digeríveis, esquecíveis e substituíveis. Eis pq falamos mal do BBB mas, em uma noite como a de hoje, muitos de nós se prostam em frente à TV para ver a final de um reality-show onde se lançam valores tão questionáveis… e onde cultuamos heróis que pregam a fama como finalidade, e não como consequência de um PUTA trabalho bem feito.   

 

Para os consumidores de música e artes em geral, rola a Lei do Mínimo-Esforço. A desculpa é que a vida tá pesada demais, que os políticos roubam em demasia, e que na hora de consumir algo cultural esse algo tem que ser engraçado, fácil e inofensivo. E, com isso, vão-se os livros mais elaborados, os discos mais refinados, os artistas mais preparados e a produção de um conteúdo que pode fazer diferença. Quem quer sobreviver no meio cruel tem que se adaptar; quem quer ser fiel ao que acredita vive marginalizado e, quase sempre, infeliz. É ou não é?

 

Exposta a questão, tenho cá comigo que eu, como artista, músico e Jornalista, vou sempre seguir o caminho da minha coerência e do que meu trabalho quer de mim. Logo, vou insistir no meu CD instrumental e lançá-lo nem que seja do próprio bolso, vendendo pela internet mesmo, do jeito que eu quero que ele seja. Mas, às vezes, dá vontade de fazer música preguiçosa e burra pra vender e ser aceito de uma vez!..

 

Aí eu pensei: se o que reina na nossa industria musical popular hoje é uma música tão demagoga, fácil e chinfrim, eu tenho uma que pode vender pra dedéu! “Todo Mundo na Balada”!

 

Trata-de de uma canção que compus em 2003 para a peça “Made in Brazil”, de Felipe Santangello, com direção do meu amigo Pedro Granato. Foi a primeira peça do Pedro e minha primeira incursão como ator. O texto era uma livre adaptação de “Roda Viva”, do Chico Buarque. E foi um puta espetáculo legal de fazer, em todos os sentidos.

 

Meu personagem era o Ben Silver. Um músico que fazia canções idiotas e que, num belo dia, foi alçado à condição de “mega super pop-star” graças a um hit caricaturalmente tôsco. Em seguida, como é de se esperar de todo trabalho artístico que só é comercial e não tem conteúdo, a balada do Ben era esquecida e ele vivenciava uma queda meteórica. Ele era obrigado a amargar um tremendo ostracismo - e fazia toda sorte de baixarias que vemos protagonizadas por ex-celebridades.    

 

Como o Ben Silver precisava de um sucesso bem comercial mesmo, criei a música mais chavão do pop possível, ou seja; a pior baboseira comercial e vendável do momento.

 

Em “Todo Mundo na Balada”, podemos ver todos os piores elementos das músicas de consumo e potencialização financeira imediatas: tão lá os poucos acordes pobretões, a batida sem vergonha no violão, o refrãozinho fácil e grudento, a letra demagoga, políticamente correta e, ao final desse estrago sonoro, alguma fake atitude Rock´n Roll! Em resumo, “Todo Mundo na Balada” é uma composição propositalmente bagaceira para ser, consequentemente, muito comercial e popular.

 

E sabem o que é mais doido? Desde 2003, quem conhece minha música tôsca gosta mais do que das minhas 15 peças elaboradas para violão-solo. A canção chegou a virar hit nos lugares por onde passou. Muitos amigos me pedem para tocar “Todo Mundo na Balada”, e não “Elegia da Alma”… e, me corrijam se eu eu estiver errado… ela não é a típica música que pode ser gravada por uma dessas bandocas do momento?

 

Minha proposta é: vamos BOMBAR “Todo Mundo na Balada”! Se a regra é fazer som pobre e clichê para vender, vamos ter um hino trash que já vem assumido dessa forma. E vamos ver onde isso vai dar.

 

Mas, para isso, vcs precisam conhecer essa pérola. Coloquei um vídeo de janeiro desse ano, onde a executo no Programa do Barão. É o “show televisivo” de um querido amigo de Uberlândia – MG. É bom para vcs sacarem tbm como cantar essa coisa do modo pop mais acertivo, ou seja, do pior modo.

 

Espero que gostem do meu sucesso. Se vcs ajudarem a fazer disso uma febre nacional, dou um jeito de dividir parte dos lucros com vcs!

 

Um abraço

 

Rafa – investindo no pop ruim para acontecer de vez como músico! Haha!

 

  

P.S – Mas calma, ok? Prometo que “Todo Mundo na Balada” não vai ser uma constante na minha vida musical. O CD instrumental vem aí, e é bem melhor que isso.   

Por Rafael Cortez às 02h26

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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