Blog do Rafael Cortez

23/04/2010

Breve tratado sobre o Humor

Algo bem especial tem acontecido comigo ultimamente. Estou muito imerso no meio do Humor – meio este que, por sinal, me vi adentrar muito ao acaso, e de maneira muito relutante.

 

Para mim, eu sou ainda Jornalista, Ator e Músico, sendo que só do Jornalismo tenho mesmo a graduação. Minha vivência como ator se deu mais na prática do que na sala de aula (o que não necessariamente é muito bom). Já as experiências como músico se apoiaram muito no estudo, em uma fase de aulas particulares diversas e muita disciplina  -  mas formatadas depois, mesmo, pela intuição e prática.

 

Mas, em resumo, imaginava viver de muitas formas com o que estudei ou pratiquei em excesso. Me via aos 33 anos, minha idade atual, como um cara de teatro e redação ou, no máximo, como um cara que tem uma banda (que, para mim, era o algo mais ousado que poderia valer no meu futuro).  Admito: eu me via na TV, fazendo algo bacana…  mas sei lá, como ator? Numa novela? Apresentando um programa de música para jovens?

 

Bom, mas o fato é: o que eu não esperava era ser um cara ligado ao interessante filão do Humor brasileiro – e isso, para o meu espanto, aconteceu.

 

Só um esclarecimento antes. Ainda não assino como Humorista. Não me defino como tal, acho muita responsabilidade. Tenho o DRT – ou seja, o registro profissional – de Palhaço. Sim, sou Palhaço de carteirinha, e isso talvez me desse alguma autonomia para escrever “Humorista” no campo de “Profissão” de uma ficha de hotel. Mas, para mim, Humorista mesmo é o cara que tem história, estudo, tradição e ousadia nessa arte. No meu show de humor, sou um ator que se utiliza dos recursos cômicos que meu corpo, minha voz e minha cabeça permitem existir. Quem viu o “De Tudo Um Pouco” sabe que não faço Stand-Up – quem conhece meu trabalho sabe que será injusto um comediante profissional desse gênero em especial, me acusar de oportunismo econômico pelo fato de eu otimizar essa fase de reconhecimento que vivo com um show solo. Essa questão para mim já está resolvida, e o que posso dizer é que ainda não me considero um Humorista.

 

No entanto, é inegável que tenho alguma experiencia hoje para falar do assunto… seja pelo CQC, seja pelo meu show ou pelo Loreno… ou, mais ainda, pelo rótulo popular e midiático que sempre procura definir a profissão de alguém – e, não raro, define o que eu faço agora como Humor.

        

Primeira coisa, acho que auto-crítica e bom senso é sempre muito importante. Se te dizem, pelo seu trabalho, que vc é isso ou aquilo, ainda que vc diga que não, é uma coisa. Mas acreditar que vc é muito foda aleatoriamente, ou através das ilusões do meio, é uma merda.  Saber fazer uma auto-avaliação é fundamental.

 

Por exemplo, se me definem – por qualquer razão que seja – como Humorista, preciso saber quem/ o que sou nesse circuito. E, com isso, saber qual é o meu lugar e, acima de tudo, a quem respeitar e ouvir com atenção. E no Humor há dezenas de figuras que foram estudiosas, empreendedoras, ousadas e perseverantes para consolidar caminhos que  outros percorrerão numa boa – e, às vezes, sem muita gratidão.

 

Conhecer os caras de verdade do meio é um tremendo exercício para sacar qual é a sua praia nesse lance todo e, claro, entender um pouco que parada é essa em que vc está se metendo. A história do Humor no Brasil está intimamente ligada ao trabalho insano de poucos… e esse trabalho possibilitou a abertura de portas para muitos. Não acho que posso me gabar de muita coisa como Humorista pq sei que o Chico Anísio passou por cima de muitas outras para validar o que sempre fez de melhor, e numa época de poucas oportunidades e inúmeras restrições. Tbm não posso pensar que meu trabalho cômico é muito importante  pq acho que válido mesmo nesse meio é ousadia e empreendedorismo – como o que teve o Rafinha Bastos, Marcela Leal, Danilo Gentili, Diogo Portugal, Oscar Filho e outros amigos raros que ajudaram a consolidar o formato do Stand-Up (antes, apenas uma iguaria americana )  no Brasil. Os exemplos de outros feitos de outros grandes caras são muitos e tomariam todo esse texto – logo, por aí vai…

 

Segunda coisa, e já partindo para os finalmentes… se permitem a opinião muito modesta de alguém que chegou nesse meio repentinamente, e a pouco tempo, e que tem um trabalho ligado ao setor… deixem-me dizer que fico muito assustado com muita coisa que vejo, leio e ouço nesse meio! E é aqui que quero chegar.

 

Num mundo ideal, um dia, talvez seja possível vermos os comediantes brasileiros terem a mesma moral e voz que os americanos, por exemplo… que participam da crítica política nacional com propriedade e chegam a ter liberdade para mexer com grandes instituições - e até mesmo com o Presidente! -  sem que isso seja crucificável ou deveras inoportuno (para isso, vide o excelente texto do Danilo Gentili em seu blog – www.danilogentili.zip.net).  Mas, antes de chegarmos a esse patamar,  é preciso questionar o seguinte: pq, num circuito tão interessante como é o do Humor hoje em nosso país, ainda existe tanta contradição, hipocrisia e falta de coerência?

 

Por exemplo, como podemos querer que o Humor seja um valor concreto na sociedade contemporânea e que, portanto, divirta a nós todos e a nossa familia… se tem cara no Twitter (que é um tremendo celeiro de idéias e expressões livres da internet)  condenando profissional do Humor por este fazer, simplesmente, PIADA? O que esperam do comediante, afinal?

 

Como todo mundo pode se aproveitar da potencialização da comédia e de seu estrondoso poder de fazer barulho e escarafunchar a verdade se, de cara, tanta regra for colocada? Então, para fazer Humor o cara tem que seguir uma cartilha de boas maneiras, é isso? Que eu saiba, não foi seguindo manual algum de conduta ética que Charles Chaplin matou todo mundo de rir na década de 20 chutando policiais e fazendo o Carlitos burlar a lei em seus filmes.

 

Humor tem que estar sempre ligado a estereótipo, é isso? Cada cara que se preste a enveredar por esse meio profissionalmente precisa, necessariamente, vestir um personagem tôsco e pertencente ao Domínio Público? Pq esperam que o Humorista seja sempre gago, viado, mano, covarde, temperamental, machista ou idiota para ser engraçado? Ele não pode ser ele mesmo? Quer dizer que tem gente que pode se decepcionar com meu trabalho cômico se eu me recusar a ser o cara que, supostamente, está eternamente “dentro de um armario”?

 

Há um leque de temas e possibilidades a serem exploradas na Comédia brasileira. Quem passa disso ou ousa um caminho diferente pode se ferrar, é isso? Comediante só pode falar de sexo e futebol num solo de comédia para ser engraçado? Não pode fazer um texto falando de Filosofia? Fica chato pq não é popular? E não pode fazer graça dos recentes abusos sexuais infantis  protagonizados por representantes máximos da Igreja Católica? Pega mal pq o assunto é tabu e correr o risco de fazer piada de mal-gosto é uma furada? Ora, como criticar a sociedade se tanta coisa não pode? Qual é o novo problema, comediante não pode sair do limite da torta na cara e do nariz vermelho no rosto? Não pode ser contundente e reflexivo, incômodo até, como o italiano Léo Bassi?

 

Humor só existe um? Não pode ser revisto, recriado ou, melhor ainda, não aceita variação nova e criativa? Para se dar bem nesse meio é preciso imitar tudo que já fizeram, sem tirar nem pôr, e esperar que todo mundo engula isso pq é Humor? Não dá para ousar um pouquinho não? De quantos em quantos tempos na história da Humanidade precisa aparecer um Buster Keaton ou um Andy Kaufman?

 

E, para terminar… Em alguns casos, ser Humorista é uma coisa que se diz em defesa e definição própria… mas é algo que não se aplica na prática, é isso? Pode alguém se dizer do Humor, se vender como alguém que quer divertir, fazer rir e rir junto… mas que, no fundo, quer resolver a primeira desavença decorrente de uma piada na ignorância? Pode-se dizer Humorista por comodidade então? Quando convém e tudo tá de acordo com o moralismo, a cartilha de bons relacionamentos e os estereótipos ligados à comicidade falsa e frágil, o cara é do humor… mas, quando esbarra no limite machista, moralista e irracional, apela-se para o instinto? Cadê a graça nessa hora, a resposta à altura, a inteligencia derivada do riso, essas coisas que se esperam de quem se filia a esse segmento?

 

Quero muito colaborar com esse meio cômico - por isso, esse texto. Trabalho no circuito, tenho meu espaço, e sou muito grato por tal realidade. Tenho meu público e estou bem feliz; é uma honra para mim. Me empenho para merecer, pela prática e reconhecimento, o rótulo de Humorista nesse país. Estou trabalhando, ouvindo, lendo, vendo e aprendendo com quem sabe do assunto. Mas quero muito mais desse meio e dessa arte, assim como espero muito mais dos nossos públicos e peço que eles esperem muito mais de nós – desde que todos estejam prontos a receber coisas novas e jogar os limites fora.

 

Um abraço

 

Rafa

 

   

 

     

 

Por Rafael Cortez às 00h10

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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