Blog do Rafael Cortez

28/04/2010

1210 situações especiais

 

Situação 01 – Eu peço a ela que me leve, em plena noite fria de Orlando, EUA, a uma loja da Dunkin Donuts. Eu não como um desses troços desde minha adolescência, quando a rede de doces ainda funcionava no Brasil. Esse privilégio açucarado agora é só dos americanos, ao que me parece. E eu não posso perder a oportunidade.

Mas, como não sei guiar e vai ser muito difícil conseguir um táxi às 23hs de uma terça com meu inglês sem-vergonha, peço a ela que me guie até meu pecado capital, esperando ouvir um não... e ela, amiga como é, me surpreende com uma plena aceitação!

Ela guia o nosso carro americano alugado, mesmo sem ter a autorização para isso – o motorista oficial da viagem, de acordo com a locadora, é o Danilo Gentili, que não sai do quarto por estar ardendo em febre.

Colocamos o endereço no GPS do carro e nada da loja aparecer. Eu quase desanimo, mas ela quer muito que eu me sinta bem. Para isso, tenta uma nova procura no aparelho. Aparece um novo endereço, do outro lado da avenida em que estamos. Mas, para ir até lá, devemos virar imediatamente na pista em que nos encontramos, ao que ela prontamente obedece. Detalhe: estamos na faixa 05 de uma avenidona daquelas, e ela vira à direita com tudo como se estivesse na faixa 01. Um carro vem na faixa 02 e nos pega rapidamente na lateral do veículo. Rodopiamos na pista e paramos do outro lado do asfalto – por pouco não capotamos. Estamos ilesos, mas assustados.

É preciso que eu pegue um táxi para apanhar o Gentili no hotel – que, mesmo doente, vai ter que dizer, antes da polícia chegar, que ele é quem guiava o carro. Nesse meio tempo, ela fica desesperada esperando os oficiais, em meio a uma tremedeira que pouco se origina do frio.

Ela paga a multa, todos tomam um pito do tira (que finge acreditar na nossa versão), voltamos ao hotel atônitos e nervosos e ela, na porta do meu quarto, cai no choro pedindo desculpas pela dispersão e por quase matar nós dois.

Mas a verdade é que ela só viveu aquilo a meu lado pq não quis que eu ficasse sem meu doce.

 

Situação 02 – Estamos numa festa. Madrugada de 24 de dezembro, cada um de nós recém chegados da Ceia de Natal de sua respectiva família. Ainda dei um pulo na casa dela para ver o auê que sua parentada causa, entre presentes, comidas e empregados atenciosos. O pai dela me diz que está feliz por me ver lá. Mas percebo em seguida que ele diz o mesmo para todos por já ter tomado umas doses de pró-seco a mais.

Bom, voltando à festa. Estou com ela na balada desde as 2 da madrugada. Já são 09 horas da manhã e estou bem cansado e deveras bêbado para continuar nesse oba-oba que não acaba. Procuro por ela, e nada!

Eis que a acho no meio da pista ainda agitada. Mas ela, estranhamente, dança alcoolizada com algo na boca: presas de vampiro!

 

Situação 03 – Jurerê Internacional, Florianópolis. Estamos hospedados na Casa dos Humoristas – um lar improvisado com 19 pessoas ligadas ao humor que, reunidas comicamente ali, resolveram passar juntas a virada de 2009 para 2010.

Uma tarde, do nada, começo uma guerra de água com ela. Solto um esguichinho entre meus dentes, meu velho truque. Ela revida com um copo de água na minha cara. Eu, que não sei brincar direito, vou para o interior da casa e retorno com um galão de 05 litros de água para despejar em cima dela. Ela corre, atravessa a rua, e dá voltas desesperadas em torno de um homem desconhecido e que apenas por ali passava – grita: “moço, moço, socorro, olha ele, me ajuda!”

Por fim, ela atravessa novamente a rua tentando entrar na nossa casa... e eu a intercepto, a derrubo no chão e dou-lhe um banho daqueles! Ao tentar vingança com uma mangueira, eis que acontece o inacreditável: ela pisa num fio elétrico desencapado na porta do nosso lar e toma um choque de uns 220 volts! Eu a seguro e levo a minha carga por tabela.

 

Situação 04 – Estou em Campinas, São Paulo. Faço o final da primeira de 04 sessões de meu solo de comédia no teatro, em apenas dois dias de muita atividade e público dessa cidade.

O show termina e, antes mesmo que eu comece os agradecimentos, uma voz conhecida fala comigo pelo microfone do Staff. É o Ítalo Gusso, meu produtor e amigo, que não estaria ali naquele dia... dizendo ser, ele mesmo, uma surpresa grande – mas não maior do que as outras duas que se fazem valer vocalmente em seguida.

O Danilo Gentili fala no microfone e me parabeniza – ele também foi de surpresa ao meu show! E ela, com aquela voz inconfundível, fala na seqüência e me chama do jeito que só ela pode nesse mundo: “Surpresa Macaquiiiiiiiiiinho!!!!”

Quase caio duro de tanta emoção.

 

 

Situação 05 – Estamos num SPA no interior de São Paulo. Eu, ela e o Danilo Gentili. Os três odeiam o carnaval e querem paz, reclusão, esportes e uma alimentação equilibrada para compensar os dias de desbunde e gorduras passados nos EUA.

A comida é deliciosa, mas escassa. Eu e o Danilo gostamos de tudo. Mas ela odeia cada prato. Ela não gosta, desde a infância, de pele de tomate. Não suporta recheios, peixes, pepino, carne moída, lasanha, queijos mil e várias outras coisas da culinária mundial. Em resumo, ela é bem fresca para comer.

Toda noite ela olha o menu do dia anterior e pede à nutricionista uma série de alterações em seu cardápio. Muita gente faz isso, mas ela exagera.

Certa tarde, ela dá um trabalho especial. Não quer o salmão com maracujá, pois odeia os dois. Apenas para ela, e somente pq é ela, a nutricionista abre uma exceção e lhe prepara uma omelete de ricota.

Minha amiga sai da mesa faminta: ela odeia omelete. E não suporta ricota.

Vai entender!     

 

Situação 06 a situação 1209 – Em todas essas ocasiões, ocorridas num intervalo de quase 03 anos de amizade, a piada é a mesma.

            Quando ela me busca com seu carro em casa, entro pela porta traseira e a trato como minha motorista. Ela já começa a rir, pois conhece a seqüência da anedota.

            Saio, vou para o assento do passageiro e me sento. Fecho a porta e fico tremendo de frio por causa do ar-condicionado de seu carro, que tá sempre revelando um inverno polar.

            O teatrinho é sempre esse, sem tirar nem pôr, em todas essas ocasiões. E ela sempre ri como se fosse a primeira vez.

 

 

   Situação 1210 – Madrugada de terça para quarta. Após um dia de muito trabalho, saio para me despedir dela num rápido café.

            Ela decidiu pensar alto e fazer a coisa mais ousada de toda sua vida: está deixando tudo para trás – casa, família, amigos, emprego! – para tentar a vida nos EUA e, com isso, alcançar uma nova identidade e desafios que movimentem sua existência.

            Faço as mesmas piadas, batemos o mesmo papo, sacaneamos os Twitters alheios, comemos e rimos. Mas, na hora que ela me deixa em casa, o adeus não é um “até breve”. Ela chora carinhosamente e eu fico comovido com tanto amor, tanta amizade, cumplicidade e o algo especial que só ela tem. Já dá saudades...

 

          Afinal, Camila Colombo só tem uma!

     

 

 

 

 

Por Rafael Cortez às 03h30

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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