Blog do Rafael Cortez

23/05/2010

Inspiração

Há algum tempo me pergunto como funciona esse processo maluco da inspiração. Não sou, obviamente, o único cara a questionar como funciona esse lance de, um dia, vc conseguir escrever/ compor/ criar algo que acredita, e que faz com que seu trabalho tenha valor... para, no outro, não conseguir produzir nada, coisa alguma, como se sua cabeça fosse vazia como parece ser, num momento como esse, o seu talento.
 
No excepcional CD do Ney Matogrosso com Pedro Luís e a Parede (Vagabundo, de 2004), há uma bela canção de Alzira Espíndola e Itamar Assunção, intitulada "Transpiração", que diz o seguinte:
 
"A inspiração vem de onde/ Pergunta pra mim alguém/ Respondo: talvez de Londres/ De avião, barco ou bonde/ Vem com meu bem de Belém/ Vem com vc nesse trem/ Das entrelinhas de um livro/ Da morte de um ser vivo/ Das veias de um coração/ Vem de um gesto preciso/ Vem de um amor, vem do riso/ Vem por alguma razão/ Vem pelo sim, pelo não/ Vem pelo mar gaivota/ Vem pelos bichos da mata/ Vem lá do céu, bem do chão/ Vem da medida exata/ Vem dentro da sua carta/ Vem do Azerbaijão/ Vem pela transpiração/ A inspiração vem de onde/ Vem da tristeza alegria/ Do canto da cotovia/ Vem do luar do sertão/ Vem de uma noite fria/ Vem olha só quem diria/ Vem pelo raio e trovão/ No beijo dessa paixão/ A inspiração vem de onde"
 
Acho muito boa essa letra, e a melodia é igualmente bem sucedida. O Ney canta isso de modo a não responder nada, perguntando - ainda que não haja sinal de interrogação em momento algum do texto -  de onde, diabos, vem essa maldita Inspiração. E a letra elenca muitas possibilidades, mas não se prende a nenhuma delas - e ela termina, mais uma vez, questionando de onde se origina a nossa personagem principal desse texto.
 
O fato é: eu tbm não sei. Não posso afirmar que ela brote dos lugares citados pela Alzira e Itamar, do mesmo modo que não sei o que pensa do tema um poeta como o Chico Buarque ou o que nos diria um gênio como o Bach. Mas acredito que, de alguma maneira, cada um de nós possui uma reserva de Inspirações positivas e negativas que, independente de optarmos ou não pelo caminho do extravasar artístico, há de surgir em diversos campos de nossas vidas - seja vc um advogado, um pintor, um professor ou um médico: enquanto estiver vivo, vc brigará mil vezes, e fará por outras outras mil, as pazes com a sua Inspiração.
 
Eu sou um cara que vive questionando a minha. Desde a infância, meu mundo interior sempre foi muito complexo. Acabei canalizando minhas inspirações para o lado artístico, e me revezei entre o desenho, música, escrita e interpretação ao longo da vida. Muitas vezes fui bem feliz com idéias boas que me alçaram a alguma coisa... consegui, em boas fases de produção, compor peças para violão, preparar um ou outro troço bacana para algum personagem de teatro, armar situações e questionamentos originais e divertidos para o CQC, etc, etc. Mas, fixando o texto no campo da inspiração de artista mesmo, minha relação com essa magia estranha foi e ainda é bem conturbada.
 
Falando especificamente de música: eu andava bem infeliz ultimamente com a minha capacidade de me inspirar e produzir algo belo nesse segmento. Só para contextualizar: eu devo ter composto umas 15 peças para violão solo. Não é muita coisa, e elas nem são as mais fodas (deve ter violonista à beça por aí que me acha brega, comum ou preguiçoso na composição)... mas são minhas crias, saiu tudo da minha cachola e das minhas mãos. Dessas 15 peças, 12 estão na mão e saem no meu CD em outubro... as outras 03 estão perdidas para sempre. Não sei mais tocar e não tenho registro delas em lugar nenhum. Em resumo, eu nem tenho grandes composições e sequer produzi muita coisa nesses anos de estudo do violão. Mas o que tenho me é muito sagrado.
 
Porém, comecei a perceber o seguinte nos últimos tempos: eu não vinha conseguindo compor mais nada no violão! Na verdade, minha última composição datava de 2006 - uma canção muito triste chamada "O Que Podia Ter Sido". Modéstia à parte, era uma das minhas melhores melodias, e é uma das três que eu perdi para sempre (o que muito me entristece).
 
A maior parte das músicas instrumentais que criei nasceu num mesmo período: entre os anos de 2001 e 2006, mais ou menos. Foi entre esses anos tbm que escrevi uns 150 poemas que dificilmente vcs verão um dia - apesar de alguns terem ficado bonitos. Tbm foi nesse intervalo de tempo que concebi os meus personagens de teatro, que fiz alguns dos meus melhores recitais de violão e que redigi alguns dos meus textos jornalísticos mais legais. Em resumo, foi entre 2001 e 2006 que mais estreitei meus laços com a tal da Inspiração.
 
Aí é que volto à discussão de onde se origina a danada... aqui que retomo o questionamento dos autores da música do Ney Matogrosso: de onde vem a Inspiração? Não posso ter certeza disso, mas, no meu caso, acho que a Inspiração vem da tristeza. Eu produzi muita coisa que curto entre 2001 e 2006 pq foi nessa fase que eu fui mais infeliz.
 
Polêmico isso, não? Hj eu sou um cara ligado ao humor e tenho uma vida intensa e muito divertida. Mas nunca neguei que já fui bem melancólico... não a ponto de me medicar ou sofrer aos tubos, mas eu era daqueles beeeeem macambúzio, sabe? Queria ser artista e era produtor de teatro e circo, algo que eu odiava. Não tinha horizontes profissionais legais, não sabia o que queria da vida, o que fazer, onde conseguir grana... eu era duro pacaz!    
 
Buenas, eu era bem existencialista, introspectivo e sofrredor naqueles anos. E dava vazão a tudo escrevendo, tocando e compondo.
 
O segundo semestre de 2006 marcou uma mudança na minha vida. Eu comecei a criar condições de viver 70% de arte e 30% de chatices - era o contrário antes. Iniciei 2007 com duas peças em cartaz, um duo de improvisadores/ contadores de histórias e o desenvolvimento de um novo repertório e CD de violão. Fiquei otimista pra dedéu, ainda mais pq, poucos meses depois, fiz os testes para o CQC e passei. De 2008 até aqui, todos vcs já sabem: sou do CQC, tenho meu trabalho, criei meu solo de humor, faço meus eventos; ralo muito, mas tenho uma vida de realizações e felicidades.
 
Porém, como compositor violonístico, tão logo fiquei feliz... me senti esvaziado. Não consegui criar uma melodia sequer desde novembro de 2006. Era como se a fonte tivesse secado completamente. Tentei de tudo; ouvi muita música; estudei mais violão; falei com um monte de gente; tentei me introspectar, etc... e nada de inventar algo bacana. E pq isso? Pq as novidades boas da minha vida me deixaram radiante demais para criar aquele clima de aproximação da minha Inspiração. Eu andava feliz demais para ser o triste criador de outrora. E meu cérebro registrou que eu só poderia me inspirar belamente sob a premissa da melancolia. Doido, não?
 
Tenho tentado reverter esse quadro. Até pq tenho zero interesse em associar minha criação musical a um estado de espírito que não me faz bem e que quero afastar de mim. Já sei como usar a minha Inspiração a meu serviço, em boa energia, nos campos do Jornalismo, Humor e Atuação. Até consigo fazer alguma música com letra (boa) quando estou feliz. Mas feliz eu não sei compor nada para violão solo, que é o que mais me agrada. Até mesmo minhas músicas mais alegres, como "Saudades da Bossa" e "Badica", tbm surgiram de momentos mais emotivos. Acho que tudo é uma questão de registro de criação, e mudar isso leva tempo e exige paciência.
 
Mas, antes de terminar esse texto, quero contar como quebrei o jejum de criar algo para violão. Antes, é preciso informar aos desavisados e críticos de plantão, que passei um tempo tbm meio afastado do instrumento e que abandonei os desejos de ser um músico profissional ao mesmo tempo. E que, se relato contente que consegui compor uma canção como a que vcs ouvirão abaixo depois de três anos e fiquei feliz, é pq hj me contento com as possibilidades que tenho e com os horizontes mais modestos que eu posso explorar como um músico mais descompromissado.
 
Tem uma coisa que eu tbm sempre soube sobre minhas músicas instrumentais: todas elas são para alguém muito importante. "Cordel de Guilherme de Faria" é para meu tio, um grande mentor artístico. "Badica" é para a Badi Assad, que foi minha professora. "Naquele Tempo" é para a Isadora, que eu namorava e era apaixonado... e por aí vai.
 
Tava faltando, além da melancolia necessária para compor, alguém digno para receber a composição. E aí é que aconteceu de "ouvir os sininhos de novo", como diriam aquelas velhas encalhadas.
 
Em dezembro do ano passado eu estava moído de tanto trabalho. O ano estava terminando e eu me sentia exausto, uma vez que 2009 foi uma loucura completa. Numa noite especial, estava aqui em casa meio deprimido por saber que ainda teria X dias de muito trabalho, ou coisa assim. E fiquei de bobeira no computador. Deixei uns CDs da Nara Leão tocando e fui me envolvendo com a música dela, como sempre... até que vi no Youtube uma entrevista da Danuza Leão, sua irmã, onde peguntavam-lhe se ouvia, 20 anos após o falecimento da Nara, os discos dela. E a Danuza respondeu dizendo que nunca mais tinha conseguido, que aquilo era doloroso demais. Antes de dormir, lembro de ter lamentado o fato da Danuza não conseguir mais absorver as canções da Nara por conta de sua saudade, e desejei que um dia ela pudesse ouvir uma música ligada à irmã sem machucá-la tanto.
 
Aí é que acontece uma das coisas mais bacanas da criação ( e elas sempre existem), que é aquele quê do inexplicável, de uma certa magia. Sei que acordei na manhã seguinte e, do nada, sentei na minha cama todo ensonado e remelento. Peguei meu violão e toquei, sem nem me dar conta, a primeira frase musical da nova composição que vcs vão ouvir. Me dei conta que estava começando a compor alguma coisa de novo - permaneci de pijama pelo resto da manhã, dei um cano em tudo que ia fazer, e fiquei tocando e deixando as coisas aparecerem no violão. Em pouco tempo constatei que estava fazendo uma coisa para a Nara. Mais ainda, percebi que queria fazer uma música que a Danuza pudesse ouvir em substituição à obra da mana. E, como sempre acontece quando componho, as coisas foram vindo às custas de tentativas, erros, acertos e, acima de tudo, muita intuição.
 
Eu nunca soube escrever partitura, e minha teoria musical é uma droga. Quando estou criando algo, os bons momentos são os que eu fecho os olhos e deixo as mãos guiando no braço do violão. Daí, é uma questão de repetir, fixar, levantar um pouco, cantarolar a melodia na cabeça e voltar ao instrumento para ver mais coisas surgindo, como se fossem sopradas por alguém.     
 
No fim do dia a música estava pronta. Simples, do jeito que eu queria. Nara era uma mulher simples, ainda que tenha sido tão grande na nossa música. Era mãe, boa esposa, corredora da orla de Copacabana, aplicada na faculdade e nos estudos musicais, etc. Qualquer música que eu pudesse fazer sobre ela, teria de reverenciar sua simplicidade. Fiz uma música bem melódica, curta e sem surpresas.
 
Gosto da divisão clara dos dois momentos da canção: ela começa triste, poética, derretida e quase clichê, com a constatação de uma partida e de uma ausência. É um lamento que só se interrompe com um movimento mais suingado, quase Bossa-Nova, mas sem ser tão prevísivel. É quando a gente pode se dar conta que o alguém se foi, mas deixou uma obra - e essa obra é boa, é consistente! E tudo isso acontece de maneira bem nostálgica. 
 
Essa nostalgia termina e o mais comum seria retomar a tristeza do início. Mas opto por pegar o movimento mais forte da passagem ritmada e repeti-lo 04 vezes, até o fim, para encerrar com um acorde bem "narístico" onde predomina um baixo bem marcado. A propósito, adoro o jeito como os bordões vão cantando nessa composição: eles dão a impressão de um caminhar, de passos contínuos que não se perdem mais a partir da fase mais rítmica da peça. É algo que mostra que a vida continua, que algo ainda permanece, que isso se perde no infinito... ficou como eu queria.
 
Músicos puristas ou violonistas profissionais podem torcer o nariz para minha simples composição, achando-a muito melosa, deveras afetada na interpretação, um tanto previsível, comum ou até mesmo brega. Danem-se. Eu nunca pensei em nada muito elaborado para falar de saudade e demonstrar carinho. Concordo com o que a grande cantora Maysa disse no fim da vida: "a saudade já é uma coisa complicadíssima para a gente complicar ainda mais".
 
Para terminar, o nome da minha mais recente música é "Encantada". Escolhi pq gosto da possibilidade de ter "Cantada" nela: ela é mesmo pra se cantar, por isso é inimiga do Metrônomo. Queria tentar fazer dela algo tão cantável como era a Nara, e para isso uso Fermatas, arrastes, vibratos e ralentandos. E os acordes buscam ser doces como era sua voz. E, como estava escrito na lápide de uma prima minha (o que muito marcou a minha infância), acredito que as pessoas não morrem: ficam encantadas.
 
Por isso, "Encantada". Gravada por mim no sábado, 22-05, na Radar Sonorização. Em primeira mão para os leitores desse blog e, em outubro, no CD independente, intimista e autoral que vcs terão à disposição - e que é, pra encerrar a história toda, o resumo do meu namoro com a Inspiração nos últimos anos de paixão violonística.
 
Um abraço, Rafa
 
Versão não definitiva para o CD. Aguardando equalizações e tratamentos de áudio

Por Rafael Cortez às 22h09

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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