Blog do Rafael Cortez

04/07/2010

Direto da África - parte 10 - FINAL

Décimo e último relato Africano. Na verdade, creio que volto aqui ainda para falar da Africa qdo já estiver no Brasil. Pretendo fazer uma avaliação de cabeça fria, já mais desapegado, para ver o que revelo a mim mesmo - e a vcs - dessa experiência ligada à Copa do Mundo e ao fato de viver fora do meu país, numa cultura totalmente diferente, por 36 dias.

Faltando 04 dias para voltar pra casa, e de acordo com os últimos acontecimentos (o Brasil e a Argentina fora da disputa), é óbvio que a tônica entre nós é a infinita vontade de regressar ao nosso país. Já deu essa Copa. Na verdade, há alguns dias já tinha rolado essa sensação de saturação, mas a possibilidade de ver um Brasil e uma Argentina na Final era um puta estímulo. Porém, deu no que deu. Não preciso nem dizer, né? Vamos ao relato dos fatos:

Na fatídica tarde em que o Brasil tomou um nabo e decepcionou todos vcs, todos nós, eu e meus companheiros de equipe estávamos em Joanesburgo. O Felipe e a equipe dele é que foram para Porth Elizabeth cobrir esse jogo; eu fiquei com a missão de fazer Gana e Uruguai. Saímos cedão do hotel para ir para o Soccer City. A idéia era ver o jogo no IBC, o Centro de Mídia da FIFA, com todos os jornalistas, de preferência comendo alguma coisa. Bem, o que aconteceu é que pegamos o maior trânsito de nossos dias de África, e ouvimos todo o Primeiro Tempo no rádio do carro. Ao chegarmos no IBC, estacionamos, pegamos as coisas, caminhamos até o local da transmissão, etc... certos de que o Brasil tava na frente e que já mandaríamos a Holanda pra casa. Quase não acreditei ao ver no telão que a Seleção tava perdendo de 2 a 1, e que o Felipe Melo fez o que fez. Dali a pouco, a incredulidade virou realidade. O Brasil tava fora, para deleite dos europeus presentes no IBC.

Confesso que gravar a matéria de Gana, praticamente em seguida, exigiu uma boa-dose de energia e profissionalismo. Por mais que eu nem seja o maior fã de futebol, e que uma Copa não tenha o poder de mexer com as estruturas da minha vida, digo: é outra coisa ver a derrota do seu time na Copa qdo vc está dentro da Copa. A energia muda, é um lance bizarro. Mais: essa Copa eu acompanhei intimamente. Estou aqui, e não estou a passeio. Tá difícil, tá trabalhoso, tem horas que é muito chato, essas coisas. Uma recompensa boa seria ver os jogadores do seu país fazendo a festa de mais um título. Até para manter o clima de alegria e tesão que ajuda, e tanto, a consolidar as matérias do CQC.

Sério isso. Contei no último relato que o clima aqui em Joanesburgo já tava de pós-Copa, não foi? O que ainda mantinha uma certa magia no ar era a permanência da animada torcida brasileira, devidamente amparada pelos Sul-Africanos (Gana vinha em segunda na fé popular) e, claro, a existência do Maradonna e seu enorme magnetismo midiático. Sem falar que, por mais que possamos não gostar dos argentinos, enquanto eles estavam na disputa, jogando bem e fazendo uma ameaça recorrente ao Brasil, existia um clima de duelo e apreensão que movia espontaneamente o trabalho. É claro que foi gostoso ver o time do Dieguito se ferrando bastante. Essa matéria foi feita pela nossa equipe B aqui, e foi uma das que mais gostei de realizar (até pq preparamos outra Magia Negra para os oponentes, e funcionou). Mas, uma vez que se foi a Argentina e o Brasil, me digam: que graça restou para a gente nessa Copa?

Aqui, me empenhei muito em enfiar o dedo, a mão e o braço todo, nessa ferida aberta que é o relacionamento tenso entre brasileiros e argentinos. Como sou brasileiro e não desisto nunca, é claro que tomei nosso partido e tudo que fiz foi atazanar os Hermanos. Gostei desse papel, mas só pelo viés da piada. Como humorista, exagero em tudo e parto do senso-comum para que as coisas fiquem engraçadas. Quem gosta de sacanear o argentino, antes de tudo, é o povo, e não só eu. Como Rafael Cortez do CQC, eu fui "o mala-sem-alça" com os caras. Como Rafael Cortez filho da Ieda e neto da Helena, que me ensinaram os meus valores, tenho afinidades e respeito com os manos vizinhos. Ora, meus chefes são de lá e o CQC tbm. Eu não estaria aqui se não fosse a Argentina e o talento do seu povo.

Mas resumindo, para o meu trabalho foi divertido ver os cabeludos indo embora para casa... mas não me conformo de não ter conseguido um dos meus dois grandes objetivos Cqcísticos que me obriguei nessa trip: entrevistar o Maradonna e armar uma muito boa para ele (a outra coisa que mais queria era ter entregue os óculos do CQC para o Mandela... mas isso já era meio impossível desde o início do planejamento da viagem).

Agora, o que falar do Dunga, hein? Tenso o tema. Hj sou conhecido por pertencer a um programa e esse programa pertencer a uma emissora. Vcs me lêem como o Rafa Cortez do CQC, e não como o cara que eu era nesse blog antes da visibilidade. O Dunga e a CBF são parte de uma estrutura futebolística em que estou envolvido numa esfera diferente, mas que é vital para o nosso relacionamento de trabalho e sobrevivência de nossas matérias. Sem entrar muito na minha opinião pessoal, o que posso escrever é: o Dunga foi importante, assim como o Maradonna, para movimentar a imprensa e agitar os ânimos nesses furiosos dias de Copa e entreveros pessoais. Dois tremendos personagens. Mas o técnico da nossa Seleção errou feio em algumas escolhas e agora está pagando por isso. Assim que o juíz validou nossa derrota, pensei: está começando o inferno do Dunga. Mediante a fúria de uma nação que se frustrou com os planejamentos e condutas dele, questiono: de que serve agora, nesse momento, a minha opinião pessoal?

Bom, mas agora é isso. Velório total em Joanesburgo. Voltei há pouco de uma gravação no Mandela Square e a coisa ali tava mais morta ainda. Mandar dois dos maiores times das Copas em dois dias consecutivos foi crueldade. As ruas e praças locais falam isso o tempo todo.

No entanto, ontem eu estava em Cape Town. Ah, essa cidade... vem cá, pq tudo não aconteceu por lá, hein? Ou em Durban... falei que contaria um pouco mais de Durban no relato anterior... e olha, fazendo um paralelo com a cidade que me recebeu ontem, é o seguinte: ambas tem o mar e o mar é astral em todo e qualquer lugar do planeta (excetuando talvez Veneza, pois as praias de lá são chorosas como o romance do Thomas Mann).    

Em Durban, depois do jogo do Brasil contra Portugal, fiquei horas sozinho na Fan Fest da cidade. Esse é o nome do local que a FIFA monta nas cidades das Copas, e é para lá que o povão vai em peso ver os jogos nos telões - tomando cerveja, muita Coca-Cola e comendo toda sorte de salgados e doces (sempre bem apímentados, tanto os doces como os salgados, afinal estamos na África). Foi muito legal estar lá. Vi culturas do mundo todo em completa harmonia. Os mais barulhentos e chamativos, claro, eram os brasileiros. Muita sobriedade por parte de todos os europeus, contrastando com os excessos etílicos dos americanos, a simpatia dos indianos e o misterioso universo dos muçulmanos. Aliás, os povos muçulmanos... em Durban há a maior concentração deles na África, e é impressionante como nós, brasileiros, não os conhecemos. Eu confesso que, por pura ignorância, os achava muito fechados em suas tradições e padrões culturais. E que estabelecer contatos mais intensos, com toda a disparidade de rotinas e idéias que estão entre nós, seria um tanto difícil. Qual o que! Foi só tentar
entrevistar o primeiro que tudo se mostrou bem mais leve do que eu pensava. Acreditem, falei com mulheres totalmente fechadas em suas burcas ao lado de seus maridos, e elas - e eles tbm - foram muito bem humorados e receptivos. Do mesmo modo, vcs acham que o povo muçulmano fica fechado em rezas e tradições o tempo todo? É pq não viram os jovens muçulmanos bebendo, namorando e dançando na Fan Fest como eu vi. E, entre eles, passavam as senhoras com suas burcas, e estava tudo bem.

A questão cultural é uma coisa muito doida. Lembro qdo eu tinha uns 5 anos de idade e fui almoçar na casa de um amigo da escola, o Vinícius. Ele tinha acabado de chegar a SP de algum lugar do Nordeste que, nesse momento, não lembro qual era. Mas era um lugar bem tradicional, e ele e sua família eram mega-conservadores. E eu fiquei muito chocado qdo, na hora da comida, vi a família toda lavar as mãos, passar farinha nelas e, em seguida, comer tudo sem talheres. Lembro que parei tudo e os observei como se fossem de outro planeta. Só parei qdo a avó da família me explicou que aquilo era uma coisa comum na cidade deles. Logo, pq nossa cultura é melhor do que qualquer outra? E pq qualquer outra cultura pode parecer melhor que a nossa? Pq como de garfo e faca e a família do Vinícius não, eu sou limpo e eles são uns porcos? Pq os japoneses comem de palitinho e os ocidentais nem sabem manuseá-los, devemos dizer que os ocidentais são modernos e os japas pararam no tempo? E toda a tecnologia que só o Japão domina como ninguém, o que tem de conservadora?

Conhecendo mais os muçulmanos aqui, ampliei muito o meu entendimento de mundo e até o entendimento de mim mesmo. Eles possuem coisas fantásticas em suas maneiras de ser e eu os respeito, ainda que minha restrição cultural não me faça entender, ainda, alguns dos tratamentos ligados à mulher. Mas isso é outra história. 

Encerrando Durban: convenhamos, nenhum outro povo do planeta Terra sabe aproveitar a praia como o brasileiro, não é? Vejam as mulheres com seus biquinis em Durban e vcs vão entender o que eu digo. O mesmo vale para as banhistas que já vi em Barcelona, Cannes, Veneza e diversas outras praias dos EUA e de outros lugares do mundo. A brasileira curte o sol melhor, ao passo que o brasileiro otimiza as areias com esportes, comidas e alto-astral.

Amanhã voltamos, a equipe B do CQC, a Cape Town. Faremos o jogo da Semi-Final por lá. Vai ser ótimo regressar à cidade. Lá rola um astral jovem e leve, um lance de verão o tempo todo... em novembro do ano passado, no Sorteio das Chaves, passamos bons 05 dias lá. Fui a dois dos lugares mais lindos que já conheci: Table Mountain e O Cabo da Boa Esperança. Quem viu minhas matérias de lá tá ligado no visual a que me refiro.

Qdo chegamos em Cape Town, na madrugada de sexta para sábado, tivemos um problemão. O hotel errou e desconsiderou nossas reservas, mesmo com tudo feito e já pago. Ou seja, chegamos lá às 4 da manhã, exaustos do pós-jogo trabalhado de Gana e Uruguai e não podíamos dormir. E tínhamos que acordar às 11hs do dia seguinte, para fazer diversas coisas da Argentina. A coisa só se resolveu às 06:30 da manhã, qdo, depois de uma via-crucis de brigas e negociações, os caras do hotel conseguiram, por milagre, nos dar 03 quartos, um para cada um. Dormi às 07 e às 11 já tava de pé de novo. Mas Cape Town é tão astral que, mesmo exaustos, não denunciamos nosso esgotamento.

Depois, na noite de sábado para domingo na cidade... era outra energia. A gente se perguntou o tempo todo: pq não passamos os 31 dias que já vivemos de Africa aqui, meu Deus? Pq teve de ser em Joanesburgo? Naquela secura, naquele tédio, naquela solidão? Lembro que pensei a mesma coisa ano passado, ante a primeira comparação que fiz na vida entre as duas cidades.

Foi muito bom ver toda a galera dançando música eletrônica (que eu nem gosto, mas não importa) na rua depois do jogo. Argentinos derrotados e alemães vitorioso juntos, numa boa. Foi a segunda e última vez, até agora, que realmente senti um CLIMA DE COPA MUITO FODA, daqueles de entrelaçamento de povos e alegria popular legítima. A outra ocasião se deu na estréia da África do Sul no MUndial, conferida por mim lá da periferia do Soweto. E olhe lá.

Até agora, o que mais me entristece nessa Copa é não ter tido mais chances de ver e sentir de perto o tesão que vi e senti na "mini-rave" de Cape Town e no Soweto com os Bafanas-Bafanas. Não sei muito a que se deve isso, mas ainda acho que é culpa de Joanesburgo centralizar tanta coisa e ser a cidade errada para reunir tanta gente. Ela é muito larga, as coisas são muito distantes; a cidade é fria e estranha. Será que a explicação é tão rasa assim? Sei lá...

Por isso que quero escrever outro texto sobre Copa e África qdo estiver menos envolvido e mais descansado. Por enquanto, termino esse relato (que tá enorme) com quatro constatações:

- 1, não aguento mais tomar choque. Em todo o Centro de Mídia da FIFA, todos jornalistas tomam choque o tempo todo. São milhares de cabos e aparelhos de centenas de equipes. Mas eu tomo choque dentro do carro, na rua e até mesmo comendo. O que eu tenho, caramba?
- 2, acho que minha barriga tá enorme. Ela é fruto de mais de 30 dias bebendo um vinho ou uma cerveja (uma? umas muitas!), todas as noites, antes de dormir.
- 3, não vejo a hora de voltar pro Brasil quinta-feira. E volto com Loreno, vários shows do meu solo marcados, CD para outubro, audiolivro novo à vista, programa de rádio na Metropolitana, mais matérias, a retomada do CQTeste que o PUTO do Marco Luque me tomou (haha!) e muitos outros planejamentos pessoais.
- 4, e essa é a constatação mais importante: EU NÃO VOU RASPAR A MINHA CABEÇA PELA SELEÇÃO BRASILEIRA! Eu não disse que rasparia, aquilo foi montagem do programa (hahaha!!) e, mesmo que tenha dito, já dei ao Dunga o meu sangue, suor e lágrimas nessa Copa. O cabelo, não. Até pq eu nem tenho muito mesmo...

Um abraço,

Rafa

Por Rafael Cortez às 17h27

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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