Blog do Rafael Cortez

30/09/2010

Ciclo das reminiscências - parte 02

Em algum lugar daquele sítio está enterrado o tesouro.

E que não digam que é só uma lata de Nescau com umas bijuterias velhas doadas pela avó em prol da brincadeira. À primeira vista, aquela carta parece ter sido escrita por um bando de pirralhos, supervisionado por uma das tias - possivelmente aquela Bióloga, que embarcava mais nas fantasias dos primos só pq já tinha feito teatro.

Mas não. Era mesmo um valioso legado de Piratas!  

Aquelas jóias preciosas descansam dentro de um buraco coberto por pedras e todo aquele mato que a gente botou na frente. Era preciso se desfazer daquele ouro pq, como nômades saqueadores que sempre fomos, não podíamos levar conosco a prova do nosso crime - ou (melhor essa hipótese) não podíamos correr o risco de ver todo o legado de nossos ancestrais ser tomado de assalto por outros corsários.

Tivemos de chegar no limite de guardar muito bem guardado tudo que era nosso. E escrevemos a carta dizendo que aquilo nos pertence e que, ai de vcs se isso acontece!, SE UM DE VCS encontrar aquilo, não sei não... vem maldição de pirata junto, feitiço, caveira, e todas aquelas coisas que estão associadas a pessoas perigosas como a gente. É MELHOR QUE VOCÊ FIQUE LONGE DO NOSSO TESOURO!

Tem outra coisa também. Hoje em dia deve ter uma cobra morando ao lado do nosso pote de riquezas. O mato deve ter tomado conta dos arredores e eu não me surpreenderia se me disessem que uma Caranguejeira ou um bando de escorpiões são nossos aliados na ocultação do nosso patrimônio. Nós, piratas, temos pactos com todo tipo de bicho para que vcs não nos roubem. Aqui o negócio é feio, viu?

Enquanto isso, o tempo se incumbe do resto. Talvez um dia nós, piratas ocupados que hoje nos tornamos, voltemos para pegar o que guardamos para a eternidade. Será? Vai saber.

Mas em algum lugar daquele sítio está enterrado o tesouro.

                                Assinado: Os Piratas


  

Por Rafael Cortez às 20h45

28/09/2010

Ciclo das reminiscências - parte 01

Estou a menos de um mês do meu aniversário... é no próximo dia 25 de outubro.

Lembro que, ano passado, uma das ações que mais cativou os leitores desse quase finado blog, foi um ciclo de textos evocando lembranças desses anos vividos, às vésperas do meu festejo de 33 anos. Eu mesmo gostei muito de me debruçar nas histórias que dividi com vcs na ocasião. E, como quero tentar resgatar um pouco do hábito de escrever nesse cyber-espaço, achei que a melhor coisa agora seria atrelá-lo a uma nova série de textos, assim como aconteceu na Copa do Mundo, onde voltei a publicar coisas aqui com frequência.

Não vai ser um novo "Meu Passado Me Condena". Isso sugere só humor na redação, e eu quero estar livre para escrever o que eu lembrar do jeito que eu quiser. Hj, por exemplo, começo com uma crônica até que meio triste, ainda que - acreditem! - eu ande feliz até demais.

Espero que eu consigo trazer um novo respiro a esse blog e um ciclo de textos que nos reaproxime, vcs leitores dessa bagaça, e eu.  De quebra, vou vasculhando o sótão de memórias e os arquivos de fotos. E, claro, enxugo as minhas lágrimas ou dou umas boas risadas.

Um abraço!

Rafa  

A Rua das Estrelas Sírius


Talvez, nesses quase completos 34 anos de vida, a lembrança mais singela que eu possa ter é a da Casa da Vila.
O pequeno, mas até que bem aconchegante, lar da Rua das Estrelas Sírius, 1102 - casa 12.
Ainda existe esse endereço. A vila ainda está lá, mas das 14 casas coladinhas da década de 70, só uma ou outra ainda mantém-se como era.
Quase todas hj estão chiques demais. Aquilo tudo ficou um troço muito luxuoso, sendo que era, na nossa infância, só a nossa casa, com os nossos vizinhos.
Mas aí veio o tempo, e o Fábio e o Zé Paulo morreram num espaço idiota de tempo, e ambos de maneiras igualmente idiotas. Eles não tinham nem 24 anos.
A maior parte dos vizinhos se perdeu por aí. A Dona Ula, que comprava meus desenhos através da Ditinha, que trabalhava para ela e tinha aquele Fusca vermelho
ultra-conservado, morreu de velhice. Ainda com a gente em frente à sua casa, a casa 03, morreu o seu Waldemar, interrompendo o nosso almoço de domingo. Ficou
a dona Cira, e ela tbm veio a falecer alguns anos mais tarde. O Silvio e a Consuelo deixaram a casa dos dálmatas, onde o meu irmão Victor ia todo dia olhar
os cachorros. Eles até que foram guerreiros de continuar naquele teto que viu os filhos Kiko e Carlitos crescerem para, estupidamente, morrerem tbm em curtos
(novamente) espaços de tempo.
A Bianca, filha da Greice, deve estar um mulherão hj. Que fim ela levou?
A última vez que vi a Dorothy, já de bengalas e muito rabugenta em 2006, tive de ouvir dela que eu estava muito feio e o Léo muito bonito. Eu devia saber
que era a última vez que a via, pois nem me desgastei com qualquer tipo de resposta mal-educada que ela merecia ouvir.
O Sandro tá trabalhando com TV e volta e meia cruzo ele. Ele é irmão da Marina e filho da Giovanna, que ainda está na Vila - aliás, só ela e Paula, a mãe dos
meninos - os nossos grandes amigos de bicicleta, esconde-esconde, polícia pega ladrão e, na adolescência, as partidas de pôquer regadas a paqueras com as 
garotas da Casa 06 e os cigarros roubados dos nosso pais. Coisa de moleques.
Eu lembro bem do dia que o Sérgio, o síndico, me ouviu tocar o Prelúdio de Bach na calçada. Ele viu que eu não era mais criança naquele momento.
Aliás, eu lembro ainda de cada detalhe daquela vila e daquela casa. Não se esquece do lugar que te viu crescer e onde vc passou seus primeiros 22 anos de
vida. Era muito bom, ainda que o final tenha sido desgastante para todos nós.
E um dia veio aquele carreto e levou tudo que era nosso, e a gente junto, para o novo desafio do novo endereço. E ali começou outra história, e foi lá que
se deram outras passagens.
Mas nunca mais foi a mesma coisa.

Eu morro de saudade da Casa da Vila.

Mas também, com tantas coisas incríveis que aconteceram lá... quem não morreria de saudade?

Eu, o Fábio, o Marcos e a Thata na Vila. 1983

Por Rafael Cortez às 19h19

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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