Blog do Rafael Cortez

02/12/2010

RUA DO MEDO

Fala, pessoal...

Esse blog tá mais abandonado que mulher feia à espera de marido, mas eu vou tentar retomar o hábito de escrever recorrentemente aos poucos.

Na verdade, escrever aqui virou algo muito mais espontâneo do que obrigatório. Ainda bem que não tenho nenhum tipo de contrato que me obrigue a publicar coisas aqui de X em X tempos, de modo que eu passe a só trazer linhas e mais linhas por conta da obrigação, e não da vontade.

Aliás, no caso das minhas manifestações mais íntimas, onde está o campo da escrita e minha produção musical, fico feliz de constatar que eu me respeito: se há motivação e verdade, algo legal pode ser publicado aqui ou alguma canção bonita sai no violão - e nesse caso sim, as coisas estão brotando bem belas; mas juro que isso é papo para um outro dia.

Hj, o que me levou a escrever de novo no meu blog (após mais de 2 meses de ausência),  foi algo mais nobre, ligado a alguém que eu amo muito: meu irmão, Leonardo Cortez.

O Léo está com texto novo na praça - mais uma obra incrível, sacramentando sua carreira brilhante de dramaturgo. Além disso, é com "A Rua do Medo", essa peça tão boa, que mais uma vez ele bota sua trupe (a "Cia dos Gansos") à disposição de um diretor experiente e talentoso (Marcelo Lazaratto) que, habilmente, lapida o talento bruto de atores jovens e tão competentes, unidos há tempos por um ideal de fazer teatro de verdade ainda - mesmo sem grandes patrocínios, nenhuma carta marcada, nenhum pistolão e nenhum global pra trazer público.

E mais, o mano Léo tá no elenco, como sempre, firme e forte em sua trajetória de artista empreendedor, competente e especial.

Tenho muito orgulho do meu irmão e de como ele vive com sua arte. Ele segue com a dignidade dos que não se venderam para as mesquinharias ou se seduziram com os caminhos mais fáceis oferecidos aos egocêntricos, peneirando cada vez mais os raros artistas. O Léo é assim desde criança: agitado, produtivo, intenso, criativo, raçudo. Um tremendo irmão com um raro humor, um dom de criação especial e um modo único de viver e pensar o Teatro e sua Dramaturgia e Técnica (por isso ele é, tbm, professor, diretor e estudioso dos palcos).

Mas, para que esse texto não fique um baba-ovo do irmão-fã, quero  que vcs leiam esse texto do Afonso Gentil, que escreveu espontaneamente para o APLAUSO BRASIL (www.aplausobrasil.com.br) falando um pouco de "Rua do Medo", e do que o Léo já fez e quem ele é no teatro. Vale bem à pena.

Aí, só há uma coisa a fazer na sequência: assistir, pessoalmente, o espetáculo. Garanto que vcs vão se amarrar.

Um abraço!

Rafa Cortez

P.S - Sou o produtor do espetáculo. E produzi por amor e pq não queria, de maneira nenhuma, que uma peça tão boa como essa estreasse sem levar um pouco do meu incentivo e do meu afeto pelo meu irmão.        

01/12/2010 - 02:33

Autor de “Rua do Medo” faz jus a antecessores ilustres da comédia

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Afonso Gentil, especial para Aplauso Brasil (aplausobrasil@aplausobrasil.com)

Comédia de Leonardo Cortes tem direção de Marcelo Lazzaratto

Temos bons dramaturgos habitando regularmente os teatros dos circuitos alternativos ou dos mais compromissados comercialmente.  Um exemplo disso é a presença maciça de 10 autores conhecidos ( e reconhecidos) num espetáculo sugestivo já a partir do título, “Te Amo, São Paulo”, cartaz dos fins de semana no Teatro Folha. Este espaço conta com o apoio publicitário da empresa que lhe dá o nome. Resultado: a sala vive lotada e as temporadas são, com freqüência, prolongadas.  Mas este caso é exceção: a maioria absoluta dos grupos e cias. costuma ter dificuldade em divulgar na grande imprensa, falada ou escrita.

Assim, recentemente, bons espetáculos de autores novos (Camila Appel de “A Pantera”) ou um bissexto Hugo Possolo com “A Meia Hora de Abelardo” tiveram temporadas semi-anônimas, muito aquém do resultado artístico, pela mais absoluta impossibilidade de investimento publicitário. Resultado: autores talentosos, que no tempo dos “tijolinhos” dos jornais eram logo consagrados, ficam patinando indefinidamente (salvo raros deles) no limbo dos  “sem sem” (sem anúncio e sem chance).

Entenda, assim, por que tal circunstância nos faz apresentar a vocês, como novíssimo, um talento em plena maturação há mais de 10 anos: LEONARDO CORTEZ,  que tem seus adeptos entre programadores culturais (SESI, SESC, CCSP), na classe teatral e continua injustamente preterido por setores da crítica teatral. Porém, pelo que se depreende do seu currículo, amado por onde passa com seus espetáculos.

“Rua do Medo” cativa pelo humor furioso

O que impressiona de pronto nesta farsa irresponsável à maneira do Nelson Rodrigues de “Viúva, porém Honesta”, é o domínio de Cortez da zombaria que seus descompassados personagens da classe média inspiram.

"Rua do Medo", de quinta a domingo na sala Paulo Emílio do Centro Cultural São Paulo

Esse cartaz da pequena e simpática sala Paulo Emilio Sales Gomes, do Centro Cultural São Paulo (ameaçada de morte iminente pelos descaminhos do poder público), faz jus aos méritos dos textos anteriores, “O Crápula Redimido”, “Escombros” e “O Rei dos Urubus”, que despertaram nosso respeito à pena de Leonardo Cortez.

Em 2003, com “O Crápula Redimido” (que vimos mais recentemente), o autor focou o mundo empresarial do ponto (torto) de vista do chefe supremo de todas as safadezas costumeiras em tal universo. Tinha uma vantagem adicional: Leonardo dirigindo e assumindo o protagonismo da peça com sua verve peculiaríssima para despertar o riso e também a repulsa simultânea do espectador.

“Escombros” nos serviu como introdução ao mundo nada encantado de Cortez. Uma família desmorona literalmente à nossa frente, numa sátira ao mercado de trabalho e às suas regras implacáveis de exclusão.  Um clima saturado pelo absurdo de Ionesco disfarçava o riso involuntário.

Já “O Rei dos Urubus” (2008) desvendou os bastidores sórdidos de um programa de televisão, com um furor de indignação bem a propósito. A ética dominava o verbo corteziano.

Esses condôminos!…

De uma corriqueira reunião de condôminos de uma rua “fechada” (o que já começa por ser ilegal) o autor atrita em cena tipos hilários à beira do ridículo que deixam porejar a cada pensamento, palavra ou ação. Tudo para garantirem a própria sobrevivência no inóspito lugar. Dispensável sobrevivência, aliás, pelos baixos ou nulos valores éticos que carregam.

Os diálogos ágeis e cortantes estão a serviço de uma narrativa sem floreios literários, embora carregados de seiva humana. Característica que une involuntariamente o autor paulista ao universo carioca do pernambucano Nelson Rodrigues.

Mas muito contribui para o êxito da encenação a presença do diretor Marcelo Lazzaratto que, sem maneirismos estéticos ególatras, costuma experimentar com o mais absoluto respeito pelo público, o que, sabemos, é pouco praticado por estas sofridas bandas.

Sua direção neste “Rua do Medo” prioriza o trabalho dos atores da Cia. Dos Gansos, todos agindo com deliciosa cumplicidade do jogo cênico: Glaucia Libertini, Kiko Bertholini, Daniel Dottori, Mariana Loureiro, Djair Guilherme e o próprio Leonardo como o tão sonhador quanto desajustado Capitão Tobias.

Todos compõem seus tipos com histrionismo bem controlado, tornando-os verossímeis, humanos, fazendo-nos torcer para que ninguém realmente “saia mal”, salvação que vem – para todos? – na figura de Danielle de Donato, uma empregada sonsa, mas nem tanto…

Não deixem de conhecer Leonardo Cortez neste seu “Rua do Medo”, cujos textos fazem-no digno sucessor da extensa linhagem de seculares comediógrafos, desde Martins Pena. E do humor subjacente de nosso autor maior, Nelson Rodrigues, tão cultuado pelo encenador Antunes Filho.

Serviço:

“RUA DO MEDO”, Centro Cultural São Paulo, Rua Vergueiro, n. 1000 / telefone 3397-4002 / Paraíso / Metrô Vergueiro/

5ª, 6ª. e sábado às 21h, domingo as 2Oh/

Ingressos R$ 20,00 / 70 minutos / 14 anos / até 19 de dezembro/ bilheterias abertas com 2 horas de antecedência/  possui estacionamento conveniado.

Por Rafael Cortez às 23h54

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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