Blog do Rafael Cortez

28/11/2011

Ainda mais sobre Maria Bethânia

Fala pessoal, tudo bem?

Eu já tinha escrito aqui que só voltaria a tratar de algo nesse blog quando valesse muito a pena... afinal, como tbm já coloquei aqui, tempo virou coisa rara – e cada vez mais rara, já que tudo está – graças a Deus – muito bom e muito proveitoso!

Mas o que pode ser mais interessante para compartilhar com vcs em mais um longo texto passional? Ela, mais uma vez ela: Maria Bethânia.

Já falei de Bethânia algumas vezes aqui. Tem um texto mais elaborado que apresentei a vcs em algum lugar desse cyber-espaço; procurem no arquivo. Bom, mas se escrevo raramente e só quero teclar quando algo me interessa muito, pq falar – de novo – da dona Maria Bethânia? Olha, talvez pq não haja alguém mais incrível no meio musical atual do que a “Abelha-Rainha”.

Aproveitando que o site da Folha de São Paulo deu meu texto onde falo da minha péssima experiência ao entrevistá-la para o CQC (veja em http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/1012317-o-dia-em-que-errei-uma-piada-com-maria-bethania.shtml ), apresento esse artigo como leitura complementar. Aqui, vcs entenderão mais porque a figura de Maria Bethânia me é tão importante e pq, por conta disso, ter fracassado no meu contato com ela no programa pareceu – e ainda parece – tão doloroso.

Vou levantar a questão do “algo divino” ligado a Bethânia e sua musicalidade. Não sei se vou conseguir fazer com que vcs me entendam, mas juro que vou tentar. Independente de conseguir ou não, estou feliz por falar dela. E mais ainda por poder contar sempre com sua música, como agora, já que é ela que está adornando o meu apartamento com sua voz.

Um abraço,

Rafa Cortez

  

 Bethânia, seu maestro e arranjador Jaime Alem, e eu - outubro de 2009, no Canecão, Rio de Janeiro. Ela ainda gostava de mim nessa época, snifs! 

 

Breve tratado sobre o divino em Maria Bethânia

Na terça-feira, dia 22-11, pude, para meu deleite, mais uma vez ver Maria Bethânia de perto. Mais um show, e que show! – dessa vez, o exclusivo e disputado “Bethânia canta Chico Buarque”. Foi um projeto sensacional dirigido pela Monique Gardenberg para o Circuito Cultural Banco do Brasil. De acordo com o projeto, Bethânia faz um show só de músicas do Chico, Sandy só canta Michael Jackson e Lulu Santos se debruça na obra de Roberto e Erasmo Carlos. Já rolou em Curitiba, veio essa semana pra São Paulo e daqui os shows vão para Ribeirão Preto (SP), Goiânia (GO) e Recife (PE). Um projeto no mínimo curioso, para não dizer sensacional.

 

Bom, mas foquemos nela. Ou Nela, com ene maiúsculo. Não estou forçando a barra não. Quem acompanha Bethânia e sua carreira de perto – e ela está com tudo há quase cinco décadas – sabe que há algo meio divino na cantora. Talvez isso seja reforçado pela forte relação que ela trava com sua religiosidade; pelo modo reservado com que vive; pela maneira com que se apega às suas tradições e seu seleto circuito social e familiar; por sua figura emblemática e suas histórias quase lendárias que sugerem algo sacro à sua pessoa – e a sociedade tende a confundir personalidade e genialidade com religião, já viram? Há quem diga que João Gilberto só é uma espécie de Deus pq vive recluso em seu apartamento e parece que só andou na calçada da frente do prédio uma vez em oito anos, e foi para apertar as hastes dos óculos! Haha!

 

Muita coisa pode ser associada ao divino que reside em Maria Bethânia. Se excentricidade é um dos critérios de que o povão mais gosta, a cantora é um prato cheio para os rasos que a querem rotular: parece que ela tbm nunca sai de casa, que os motoristas que a levam de carro jamais podem dar ré no veículo, que ela não pode com a cor preta, que nunca passa em frente a um cemitério, que na residência dela tem um ganso bravo, etc, etc. Bobagem. Bethânia carrega o divino em si porque sabe cantar e interpretar as canções de modo a aproximar a gente de Deus.

 

Raros são os artistas que conseguem fazer o espectador transcender os limites tão definidos do palco/platéia - casa de show ou estúdio – casa do ouvinte, etc. Há uma produção musical em grande escala no mundo todo. Um monte de gente gravando disco em todo e qualquer canto (até eu já lancei o meu CD, haha!). Montes e montes de espaços para músicos e mais músicos. Selos mil e não sei quantos recursos mais de execução musical – tudo isso, é verdade, contrastando com a grande crise das gravadoras e o novo panorama de sobrevivência dos profissionais do meio. Mas, enfim, tem muita gente fazendo música. Mesmo. E isso pode ser muito bom em muitos aspectos, mas é comum que o papel de lapidar as canções como diamantes seja esquecido no processo industrial do mercado.

 

Bethânia ainda é uma artesã das canções. Trabalha de modo a ter calma e paz para pensar em como vai dizer essa e aquela palavra. Uma canção nova só aparece após ser selecionada com esmero pela artista. É um trabalho mais minucioso que o de um garimpeiro. Em seguida, nasce a lapidadora – lupa e pinça na mão, quase isso. Surge a palavra “amor” no meio de um verso: como dizer amor mais uma vez, quase 50 anos após ser descoberta por Nara Leão, sem parecer redundante? Bom, por ela se preocupar com isso, com o respirar certo na hora certa, por se questionar mil vezes como é essa e aquela intenção, a palavra “amor” tem a intenção certa quantas vezes Bethânia quiser. Ela se ocupa em dar sentido artístico às canções; não se contenta em apenas cantá-las. E esse cuidado, em tempos tão preguiçosos de internet e produção em massa, é o que me faz pensar ser o divino em Bethânia. Trabalho à moda antiga, caprichoso, com zelo.

 

Tem outra coisa também. Algo que foge à regra de toda a linha de pensamento que mostrei até agora. Algo que não se explica. Independente de qual for a sua crença religiosa, há mistérios, sim, que não entendemos e que só ganham algum sentido no etéreo. É como diz o famoso ditado castelhano: No creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Você pode não acreditar em Deus e esse direito é todo seu. Mas vá ver um show de Maria Bethânia antes de ter certeza do seu ateísmo.   

 

O modo como ela olha para o céu na hora mais bonita da canção. A mão que desliza em uma frase mais delicada. O olhar que se perde no horizonte no momento mais apaixonado da letra... Ok, alguns podem dizer que isso é fruto de muito ensaio ou anos de prática, que aqui está a atriz; que isso nada tem de divino. Ah, é? E como explicar que a platéia se cale justamente quando ela está apaixonada no verso, sem ensaio ou combinado algum? Por quê sopra o vento ou um passarinho pia bonito quando ela canta mais suave, de olho fechado, agradecendo algo ou alguém? O quê, vcs nunca perceberam isso? Prestem mais atenção.

 

Os ouvintes mais atentos notam esses mistérios nas execuções de Bethânia. Eu nunca esqueço um depoimento em vídeo da grande Bibi Ferreira: ela diz adorar escutar o sorriso de Bethânia em seus discos. Eu também adoro. E adoro seu bom-gosto. E adoro vê-la ao vivo com seus músicos fabulosos.

 

Discussões divinais à parte, ver um show de Maria Bethânia é um modo de estabelecer um vínculo com uma música – e uma intérprete! – que sobrevive qualitativamente num tempo sombrio. Em “Eu vivo num tempo de guerra”, da peça “Arena Conta Zumbi”, de Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, lá no começo da década de 60, Bethânia cantava: “É um tempo de guerra, é um tempo sem sol”. Isso me parece mais atual do que nunca quando noto que, entre milhares de oportunidades musicais que temos em nossos tempos de pop-preguiçoso-meloso, é ainda com Maria Bethânia que encontramos o divino na música brasileira.

 

Por Rafael Cortez às 17h06

Sobre o autor

Rafael Cortez, 33 anos, ator, jornalista e violonista.

Já foi redator de texto erótico para celular, produtor de teatro, circo e TV, assessor parlamentar de uma vereadora de São Paulo, atendente de videolocadora, organizador de mais de 60 festinhas infantis e tem DRT de Palhaço. Gosta de Nara Leão, Public Enemy, lasanha e que cocem suas costas com as unhas. Está na TV como um dos repórteres do programa CQC, da Tv Bandeirantes.

Sobre o blog

Espaço para textos reflexivos, ácidos e que busquem alguma inteligência. Local para reflexões artísticas e culturais diversas. Não, aqui você não encontrará fofocas sobre o meio das celebridades. Não, aqui você não verá piadas a todo tempo... Mas se o autor se esforçar, você poderá ler alguma coisa boa. E contribuir comentando com algo melhor...

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